8/20/2008

Instada pelo grande animador deste blogue a não deixar o deixar parado durante a sua ida "a banhos", confesso que, sem a facilidade de escrita do nosso escrivão-mor, tenho dado voltas à cabeça, sem encontrar tema a que me atreva.
Contudo, li há dias uma notícia que acho interessante e útil divulgar. Eu, pelo menos, ignorava o facto.

Refiro-me a uma campanha de recolha de óleos domésticos usados, levada a cabo pela AMI com a colaboração de um sem-número de estabelecimentos comerciais (quase todos restaurantes, mas não só) espalhados por todo o país.


Através deste projecto da AMI, que conta já com a participação de milhares
de restaurantes, hotéis, cantinas, escolas, Juntas de Freguesia e Câmaras Municipais, vai passar a existir, em Portugal, uma resposta de âmbito nacional para o destino dos óleos alimentares usados, evitando assim a contaminação das águas residuais, em resultado do seu despejo na rede pública de esgotos, e a deposição do óleo em aterro.

Os óleos alimentares usados poderão assim ser transformados em biodiesel,fornecendo uma alternativa ecológica aos combustíveis fósseis, e contribuindo desta forma para reduzir as emissões de Gases de Efeito de Estufa (GEE).

Segundo a notícia, são produzidos todos os anos em Portugal, 120 milhões de litros de óleos alimentares usados, quantidade suficiente para fabricar 170 milhões de litros de biodiesel.

Acresce que as receitas resultantes da valorização dos óleos alimentares usados serão angariadas pela AMI e aplicadas no financiamento das Equipas de Rua que fazem acompanhamento social e psicológico aos sem-abrigo .

Sabia? Eu, não. Mas acho uma grande ideia e tenciono aderir.

7/31/2008

Tréguas

A família chama-me para uns dias fora da cidade de Lisboa. Espero que, antes e depois do seu raid europeu, a Ariadne não deixe o "az" sem notícias. Entretanto, aos que estão de férias, carpe diem!

7/27/2008

Le portefeuille

O único tio que tive do meu lado materno era um homem pragmático, empreendedor e com talento especial para fazer bons negócios. Além disso, entendia o valor da educação, a qual prezava muito. Nunca ninguém como ele me falou tanto da educação como um óptimo investimento. "Tirar uma especialidade e saber línguas estrangeiras pode ser precioso", dizia-me ele, que falava apenas português mas tinha essa ideia enraizada.
Esta breve introdução parecerá decerto ridícula e desajustada mas foi a que me ocorreu imediatamente a seguir ao caso que vou contar. Quem ler este post poderá hesitar ante o significado de portefeuille, palavra que surge no título. Também não é vocábulo que eu use todos os dias, mas conheço-o. No outro dia foi-me extremamente útil. A um amigo que não tinha tido possibilidade de ver uma exposição de Malhoa nas Belas Artes ofereci-me para lá ir e tirar umas tantas fotografias. A exposição estava no seu último dia e quase a fechar. Apressei-me, agarrei na máquina, que encafuei num saco da fnac, e fui direito ao Metro. Como passava um pouco das sete horas, havia bastante gente na gare da estação da Alameda. Desci as escadas a correr para apanhar um comboio que estava a chegar. Desceram também comigo a escada uns turistas franceses, que no entanto, à vista daquela pequena multidão, preferiram esperar pelo próximo transporte. Foi deles, postados na gare, que ao entrar na carruagem ouvi um grito repetido pelo menos três vezes: "Votre portefeuille! Le portefeuille!"
Admito que hoje o francês já não é para mim a língua fluente que outrora foi. Confesso até que o ouvir a palavra portefeuille me suscitou mais dúvidas do que certezas. Numa questão de segundos, porém, lembrei-me: "A carteira!" Podiam estar a falar para mim. Meti automaticamente a mão esquerda no bolso onde trazia algum dinheiro e um cartão Multibanco. Para minha surpresa, encontrei lá dentro uma outra mão. Não era uma situação normal. Alguém a quem essa mão pertencia estava atrás de mim no meio daquelas pessoas todas que queriam entrar. Ainda por cima eu transportava na mão direita o saco com a máquina fotográfica e, no braço, um pullover. Não conseguindo olhar para trás, agarrei firmemente na mão estranha que estava dentro do meu bolso e, com um safanão mais forte, arrastei o seu proprietário para dentro da carruagem. Entretanto, a porta fechou-se.
Decidi então puxar para fora a mão que tinha encontrado no meu bolso esquerdo e olhei de frente para a pessoa: um sujeito baixo dos seus quarenta anos, com o bigodinho malandro dos suspeitos-do-costume, bem-falante e, como é habitual nestes casos, devidamente acompanhado por um cúmplice um pouco mais velho. O cómico da situação foi que as duas mãos retiradas do bolso, a dele e a minha, nem por isso ficaram totalmente separadas. O ladrãozinho do Metro usava à volta do pulso uma daquelas tiras de pano coloridas, que se crê darem sorte a quem as usa. Ora, como a bracelete de metal do meu relógio tem, desde há algum tempo, um arreliador espigão que saiu ligeiramente do sítio devido, o dito espigão entrou decididamente na tira de pano do meu colega-de-bolso e lá ficou enredado. Depois, só a paciência e a arte do ladrãozinho é que, meticulosamente, conseguiram extricar o espigão metálico da fitinha-da-sorte sem danificar grandemente esta última.
No meio daquela operação, e com pessoas a entrar e a sair, o pullover que eu trazia no braço a certa altura caiu. Aí foi a vez do cúmplice levantá-lo e colocar-mo de volta no braço com toda a deferência. Agradeci.
Tendo-me previamente certificado pelo tacto de que nada me tinha sido roubado, ainda tive tempo de, até à paragem seguinte, já a do Intendente, lhe dizer o óbvio e perguntar se era um habitué da esquadra da polícia. Com a maior frieza do mundo, ele respondeu-me que eu estava totalmente enganado. Por quem o tomava? Uma senhora que estava por detrás fazia-me sinal para eu não dizer mais nada porque poderia ser perigoso. A porta do comboio entretanto abriu-se, os dois homens saíram e eu continuei a minha viagem para as fotografias nas Belas Artes, que por acaso até saíram bem.
Se o meu francês não me tivesse permitido decifrar rapidamente o significado da palavra-código portefeuille, eu não teria esta história para contar. E, com certeza, não teria também nem o dinheiro que na altura trazia comigo nem o meu cartão Multibanco. O tal investimento na educação de que o meu tio tanto me falou acabava, mais uma vez, de produzir os seus frutos.

P.S. Ah, é verdade! Se eu pensava comprar outra bracelete para o relógio, já desisti da ideia. Quem sabe se aquele espigão não vai voltar a ser útil?

7/25/2008

Xcrita correta

O encadernador dos meus Escritos - sempre em três exemplares, um para cada um dos meus filhos e o terceiro para mim - é um óptimo profissional e, como mora na mesma rua que eu, faz o favor de mos trazer a casa. Hoje recebi mais um volume (neste momento a conta atingiu o número 7). É algo que constitui sempre para mim uma alegria muito especial. Trata-se, fundamentalmente, de uma passagem de testemunho para os meus filhos e para os meus netos. Contudo, admito que eu próprio não desprezo folhear de quando em vez, durante uns cinco ou dez minutos, um ou outro volume mais antigo, com textos em prosa ou em verso de que já não me recordo totalmente.
Procuro, como é natural, que a compilação que faço desses escritos dispersos seja mais sobre temas sem tempo do que sobre factos datados, mas é óbvio que alguns destes acabam por ser também incluídos. Tento escrever de maneira simples e escorreita, sem parágrafos longos ou palavras mal grafadas.
É aqui que me detenho agora para desabafar algo que me oprime. Quer eu queira, quer não, ao lerem esses textos os meus netos acharão esquisita - e errada - alguma da minha ortografia. De repente, devido ao enorme disparate que constitui a promulgação do novo acordo por parte de Portugal, do ponto de vista da ortografia todos os meus textos vão surgir aos olhos dos meus netos um pouco como sucede a qualquer português que hoje reage à grafia brasileira. Isso causa-me natural pena.
Esta é, porém, uma parte ínfima do problema De repente, as múltiplas centenas de livros em português que fazem parte da minha biblioteca passam a estar "gatadas". A quase totalidade dos livros que consultarei na Biblioteca Nacional e noutras trarão inevitavelmente a ortografia antiga, i.e. estarão errados em centenas de palavras. Porquê? Para quê? Com que vantagem ousaremos nós desperdiçar o imenso valor dos milhares e milhares de livros que enchem as prateleiras das bibliotecas escolares - desde o ensino básico até ao superior? Ou será que os vamos manter em instituições deste tipo com ortografia incorrecta? Porquê estas profundas modificações agora? "Foi você quem pediu este acordo?"
Porque gosto do meu país, foi nele que decidi viver. Mas por vezes chego a envergonhar-me. Afinal, talvez seja por casos como este que muitos compatriotas meus procuram uma compensatória consolação num mitificado passado glorioso da sua nação. Com a actual superficialidade do pensamento dominante que provoca como que uma auto-mutilação de relevantes raízes culturais, a forma permissiva como este país está a ser governado não enche de orgulho os seus filhos. Assim, torna-se facilmente entendível a abissal queda de valores éticos, a política do salve-se quem puder e do vale-tudo, a desconfiança na própria justiça e a desonestidade do muito que se passa no domínio da educação.
Embora esta decisão só a mim diga respeito, não quero deixar de anunciar neste blogue, no qual espero continuar a colaborar, que as inúmeras alterações aberrantes que emanam do acordo ortográfico luso-tropical me levam a não pactuar com as novas regras, da maioria das quais discordo frontalmente. Passarei, pela primeiríssima vez na minha vida, a escrever com erros de grafia, mas será com toda a consciência que o faço. Prefiro não ser tribalizado. Sou, aliás, livre de escrever como quero. Em minha opinião, um acordo desta ordem é ultrajante para Portugal. Neste sentido, ninguém poderá forçar-me a sentir-me constantemente ultrajado através da forma daquilo que escrevo.
Se me disserem que as crianças que vão entrar para o ensino básico depressa se habituarão, acredito piamente. É claro que sim. Sucede-lhes o mesmo que aos animais selvagens que já nasceram no Zoo: nunca viram a beleza da selva ou sentiram o verdadeiro prazer da liberdade de quem anda totalmente à solta no seu mundo natural. Não sofrem. A minha reacção, tal como a de tantas outras pessoas que conheço, não é de maneira nenhuma à mudança, que essa eu aceitaria de bom grado se tivesse lógica e fundamento. É à privação do sentido real da língua, à castração das raízes, à desculturação que pode ser pragmática mas que, em última análise, é perfeitamente estúpida e, ainda por cima – pressinto – muito mais prejudicial do que benéfica.

7/21/2008

Carro na inspecção

Foi só no outro dia que me apercebi que levar o automóvel à inspecção é um pouco como ir à igreja com uma boa série de pecados e aguardar ansiosamente pela absolvição no final.
Num centro de inspecções periódicas (C.I.) não há carros verdadeiramente novos: esses estão isentos durante os seus primeiros quatro anos de vida. Depois, até aos 8, vão apenas de dois em dois anos, pelo que a grande massa de viaturas que se encontra num C.I. se apresenta com uma saca enorme carregada de pecados, traduzidos em muitos quilómetros percorridos, motores a funcionar já sem a energia da juventude, umas tantas amolgadelas e muitos riscos na pintura.
A meu lado, esfregando as mãos para esconder o nervosismo que o invade, o já idoso proprietário de um Honda fala ininterruptamente com o funcionário que lhe examina o veículo. Elogia a sua máquina, fala dela como se de uma namorada se tratasse, explica por que razão a mantém já há tantos anos e esclarece quantas centenas de euros gasta regularmente para a manter afinada. Fala alto e entrecorta a sua explicação com risadinhas nervosas que não consegue disfarçar. O inspector continua imperturbável no exame da viatura. Não creio que tenha ouvido nem um quarto da lenga-lenga que o indivíduo de cabelos brancos expressamente lhe dirige. Nem podia. Tendo em consideração os habituais padrões portugueses, a inspecção é mesmo rigorosa. Quem olhar para a folha com tabelas de um lado e do outro assinaladas a cores diferentes para testar o correcto funcionamento de uma infinidade de itens e, ao mesmo tempo, vir a provecta idade de alguns daqueles automóveis, chegará de pronto à conclusão de que só um milagre celestial é que pode permitir que passem minimamente em todos aqueles testes. Os faróis têm que farolar, os piscas que piscar, o motor não pode ir abaixo, os pneus devem permitir a boa aderência da viatura à estrada, o escape não pode ser barulhento nem ter fugas, as luzes de nevoeiro, tanto as dianteiras como as traseiras, têm que funcionar na perfeição, tal como os stops e a luz avisadora de marcha-atrás.
"Está tudo bem?", perguntam os proprietários ansiosamente, mais com fé do que com verdadeira credulidade. "Mais ou menos." A indecisão dos inspectores mantém-se até ao final. O seu veredicto é inapelável. Quando finalmente termina o exame, depois da saída do veículo do seu lugar sobre uma fossa ou no alto de um elevador que permite toda a visão da parte de baixo do chassis e do resto, o inspector recolhe ao silêncio do seu gabinete. São três as hipóteses: a melhor é o almejado "Aprovado", tout court. "Aprovado com reservas" é outra possibilidade. Nesse caso, o proprietário é vivamente aconselhado a mandar reparar um ou dois itens, que não são no entanto tão relevantes para o bom funcionamento do automóvel em condições de segurança que o impeçam de andar na estrada. Na terceira hipótese, comum, o veículo deverá voltar dentro do período de um mês à inspecção, mas apenas para que determinadas partes sejam testadas de novo. Se então passar, "até para o ano!" Caso contrário, a viatura perde a licença de circulação. Este acaba por ser um caso mais raro, afinal. A absolvição em Portugal sempre foi o que prevaleceu. Há costumes que se mantêm brandos.