10/31/2010

A técnica do assobio

Pessoas que lêem jornais há muitos anos sentem frequentemente o tédio de encontrarem notícias iguais ou bastante semelhantes. "Não há nada de novo na frente ocidental" é um sentimento perfeitamente comum. Devido a esta monotonia de notícias e ausência de verdadeiras novidades, sempre que surge uma coisa inédita ela deve ser recebida com entusiasmo.
Esta chega-nos do mundo do desporto, mais nomeadamente do futebol, e não deixa de me lembrar uma canção do Sérgio Godinho. Num jogo recente entre o Copenhaga e o campeoníssimo Barcelona, eis que um avançado brasileiro, de nome César Santin, da equipa dinamarquesa se encontra isolado, frente a frente apenas com José Pinto, o guarda-redes do Barça. Pode muito bem ser golo. Em princípio vai ser mesmo golo. As bancadas alvoroçam-se. Eis senão quando, para surpresa geral, o habilidoso avançado brasileiro pára. Estaca ao ouvir o apito do árbitro e, obedientemente, desinteressa-se do lance. Não marcou golo, como é evidente.
O problema é que o árbitro não tinha apitado. O jogador estava em posição perfeitamente legal. Teria sido um apito vindo das longínquas bancadas? Também não, garante o avançado. Querem lá ver que foi o malandro do guarda-redes catalão a imitar fonicamente o árbitro?!
Nem mais! O guardião do Barcelona imita com a boca o apito do árbitro na perfeição e o resultado está à vista.
A marosca só foi descoberta graças à gravação feita por um canal televisivo. O guarda-redes acabou por ser punido com dois jogos de suspensão pela UEFA. O bom do José justificou-se dizendo que costuma comunicar com os colegas através de assobios. Curiosamente, numa das ilhas montanhosas espanholas havia outrora o costume de comunicar à distância através de assobios. Não me digam que o malandro ainda é descendente desses antigos ilhéus!
"Cuidado, ó Casimiro, cuidado com as imitações!"

10/26/2010

O metro-padrão do Museu de Sèvres

Esqueci a esmagadora maioria das coisas que me ensinaram no liceu, o que aliás sucede com muito boa gente. Mais correctamente, talvez tenha feito uma selecção dos conhecimentos adquiridos, coisa que também muitos fazemos, deixando de fora o que considerava pouco relevante ou mesmo irrelevante. Seja como for, houve uma coisa que memorizei até hoje. Era algo que todos tínhamos que saber de cor na aula de Física. A questão girava à volta de medidas, mais especificamente do metro. Ora, que o metro tinha cem centímetros sabíamos nós desde a instrução primária. Mas quem é que sabia exactamente o que eram cem centímetros? Por outras palavras: havia algum metro real, tangível, que constituísse a bitola pela qual todos os metros do mundo se guiavam? Havia. E onde estava? Nos arredores de Paris. Onde, exactamente? No Museu de Sèvres. Portanto, esta era a base: "O metro-padrão, que se encontra no Museu de Sèvres, em Paris."
Da lembrança do conhecimento obrigatório deste facto passo frequentemente na minha ideia ao metro-padrão em que muitos de nós nos transformamos. Tornamo-nos, com frequência maior do que a desejável, o metro-padrão de pessoas que connosco convivem. Vejamos alguns casos.
Os meninos e meninas têm que aprender-com-facilidade na escola aquilo que o professor de Matemática explica porque, na opinião do professor, a matemática é a coisa mais fácil do mundo. O professor, que se vê como padrão dos meninos e meninas que tem à sua frente, esquece que na sua carreira até à licença ministerial que lhe foi dada para ser professor, deixou de lado disciplinas para ele pouco interessantes: Português, Inglês, História, Física, Química, Geografia, Filosofia. Para ele, a Matemática sempre foi a disciplina favorita. Para os alunos da sua aula a Matemática deve ser – tem de ser - também a disciplina favorita. Por que razão não lhe passa sequer pela cabeça que ele próprio rejeitou um número grande das disciplinas que frequentou nos seus estudos? Porque ele é o metro-padrão.
Noutro exemplo, a criança que está algo afogueada pela temperatura, tem que vestir uma camisola por causa do frio – assim disse a avó, que, com os seus 75 anos, sabe decerto mais do que a criança. O sentimento de frio que prevalece é o dela, não o da criança. Ela é o metro-padrão.
Os índios não têm alma, disseram os conquistadores espanhóis das Américas. Também os escravos negros africanos não têm alma, confirmaram os exploradores portugueses. Todos precisam de ser salvos, disseram os brancos colonizadores e traficantes. A Igreja, na sua generalidade, não discordou. Eles eram a autoridade, o metro-padrão, quem ousava discuti-los?
Na mesma linha, são as patroas que sabem, melhor do que as suas empregadas, o que estas pensam. E ensinam-nas a pensar pelo seu metro-padrão.
Na guerra, os mortos do nosso lado contam muito mais do que os do lado do inimigo. Nós é que sabemos. Os nossos mortos têm nome, idade, rosto. Do outro lado há apenas números, quando os há (basicamente para exaltar a nossa vitória).
Os nossos sentimentos, como portugueses, são muito especiais. Por exemplo, só nós é que sabemos o verdadeiro sentido de saudade, sentimento que até não existirá noutras culturas. Somos nós que o dizemos.
A dor que nós sentimos é imensurável, muito maior que a dos outros.
Uma mãe europeia tem um amor incomensuravelmente maior pelos filhos do que uma negra africana, que deixa as suas crianças andarem à solta, ao Deus-dará. Assim o diz a mãe branca, nascida na Europa.
A importância do desabamento do tecto da mina que matou 436 chineses é menor do que a morte daqueles noivos espanhóis, acabadinhos de casar, que ao chocarerm contra um poste na auto-estrada viram o seu carro incendiar-se. Morreram carbonizados. São os leitores da revista que o afirmam. Eles são o metro-padrão.
Afinal, quem mede isto tudo? Qual é o metro-padrão que mede com precisão todos estes casos? Ah, o amor-próprio, a cultura nacional, a visão obliqua, a eubjectividade a prevalecer sobre a objectividade!

Quando voltar a Paris, hei-de ir ao Museu de Sèvres. Quero parar em frente da barra do metro-padrão que serve (ou serviu durante mais de um século*) objectivamente de medida para os metros de todo o mundo. Quero ficar a observá-lo durante largos minutos, tal como faço perante um quadro que me fale à alma. Quero ver com os meus próprios olhos o metro que é, afinal, o padrão-medida de tantas coisas humanas.

*P. S. Em 1983, portanto já há 27 anos, na sequência da Teoria da Relatividade Restrita de Einstein, o metro deixou de ser a barra padrão existente no Museu de Sèvres para ser uma unidade de distância que se define como “o comprimento da trajectória percorrida no vácuo pela luz durante um intervalo de tempo que corresponde à fracção 1/299792458 de segundo.”
Podem ter mudado a definição de metro-padrão, mas cada um de nós, em maior ou menor percentagem, continua a ver-se como metro-padrão relativamente à humanidade.

10/24/2010

O estabelecimento da Inquisição em Portugal, segundo Voltaire

A imprensa de ontem noticiou a captura pela polícia judiciária portuguesa de um italiano, que terá sido responsável por inúmeros crimes de burla qualificada cometidos em Portugal. Era igualmente perseguido pela polícia espanhola desde o ano passado. Estas burlas praticadas por um estrangeiro trouxeram-me à memória um texto de Voltaire no seu Dicionário Filosófico sobre a forma como a Inquisição terá sido introduzida em Portugal, no já remoto século XVI, sendo rei deste país D. João III. Voltaire (1694-1778), note-se, mostrou estar relativamente atento a coisas que se passaram em Portugal, como por exemplo o terramoto de 1755. Foi ele que, ao estudar o comportamento de outro D. João, neste caso o V, geralmente cognominado O Magnânimo, disse com esmagadora ironia: "A religiosidade de D. João V era notória. Se queria dar uma festa, organizava uma procissão. Se queria construir um novo edifício, mandava erguer um convento. Se queria uma amante, escolhia uma freira."
Mas vamos à história da burla relativa ao estabelecimento da Inquisição no nosso país. É curiosa.


O dominicano Luís de Paramo viveu no século XVI e descreveu com a maior ingenuidade num dos seus livros como a Inquisição foi estabelecida em Portugal. Quatro outros historiadores estão perfeitamente de acordo com ele. Eis o que nos relatam.
No começo do século XV, o Papa Bonifácio IX enviara como delegados irmãos pregadores que, em Portugal, iam de cidade em cidade queimando os heréticos, os muçulmanos e os judeus; eram, todavia, ambulantes, e os próprios monarcas chegaram a queixar-se dos seus vexames. O Papa Clemente VII quis dar-lhes um estabelecimento fixo em Portugal, como já tinham em Aragão e Castela. Devido a dificuldades entre a corte de Roma e a de Lisboa, azedaram-se os ânimos, a Inquisição sofria e não se estabelecia convenientemente.
Em 1539, apareceu em Lisboa um legatário do Papa que viera, dizia ele, para estabelecer a Santa Inquisição sobre fundamentos inabaláveis. Trouxe ao rei Dom João III cartas do Papa Paulo III. Tinha outras cartas de Roma para os principais funcionários da Corte; as suas credenciais de legatário estavam devidamente seladas e assinadas; exibiu os poderes mais amplos para criar um Grande Inquisidor e todos os juízes do Santo Ofício. Tratava-se de um malandrim chamado Saavedra, que sabia imitar todas as caligrafias, fabricar e apôr falsos selos e sinetes. Aprendera este mister em Roma e aperfeiçoara-se em Sevilha, donde chegara com dois outros intrujões. O seu séquito, composto por mais de 120 lacaios, era magnífico. Para cobrir esta enorme despesa, Saavedra e os seus confidentes contraíram em Sevilha vultosos empréstimos em nome da câmara apostólica de Roma; tudo estava planeado com a mais espantosa das ardilezas.
O rei de Portugal começou por se admirar que o Papa lhe enviasse um legatário a latere sem o prevenir. O legatário retorquiu altivamente que em assunto tão premente como era o estabelecimento fixo da Inquisição, Sua Santidade não podia sofrer atrasos e que ao rei era concedida honra suficiente pelo facto de o primeiro correio que lhe trazia a notícia ser um delegado do Santo Padre. O rei não ousou replicar. Nesse mesmo dia, o legatário estabeleceu um Grande Inquisidor e mandou cobrar dízimos por toda a parte. Antes que a Corte pudesse receber respostas de Roma, já fizera queimar 200 pessoas e arrecadara uma larguíssima soma de dinheiro.
Entretanto, o marquês de Villanova, grande senhor espanhol a quem em Sevilha o legatário sacara empréstimos sobre documentos falsos, julgou oportuno fazer justiça pelas suas próprias mãos em vez de se ir intrometer com o intrujão em Lisboa. Aproveitando a ocasião em que legatário fazia uma viagem junto à fronteira com Espanha, o marquês caminhou ao seu encontro com cinquenta homens armados, raptou o Saavedra e levou-o para Madrid.
A intrujice foi em breve descoberta em Lisboa e o conselho de Madrid condenou o legatário Saavedra ao chicote e dez anos de galés; mas o mais admirável é que o Papa Paulo IV confirmou depois tudo o que fora estabelecido pelo intrujão. Ratificou com a plenitude do seu poder divino todas as pequenas irregularidades processuais e tornou sagrado o que fora puramente humano. Que importa o braço de que Deus se digna servir-se?

10/22/2010

Banhos turcos

Esta é uma abertura de post basicamente para permitir à Isabel, que está nesta altura a gozar as delícias da Turquia, deixar, sem necessidade de códigos de acesso, alguns apontamentos de viagem nos Comentários. Cá estaremos para os ler. Enjoy!

10/18/2010

Os e-mails coscuvilheiros

Quem viveu nos longos tempos de Salazar, período durante o qual havia uma enorme desconfiança em praticamente todo e qualquer interlocutor e em que, portanto, as pessoas se coibiam de expressar a sua opinião a não ser que estivessem no meio de amigos seguramente leais e capazes de guardar segredos, não pode deixar de estranhar hoje em dia o que para aí vai de informação, nem sempre fidedigna é certo, mas sempre abundante sobre governantes, deputados, gestores, juízes, etc. Os e-mails têm, na generalidade, um enorme efeito multiplicador. Enviam-se para dezenas de amigos, parentes e conhecidos, e espera-se que esses destinatários os re-enviem para outras tantas dezenas de pessoas. Este facto tanto pode ter consequências positivas – tudo depende do conteúdo e fidedignidade da informação contida – como negativas. Não raramente, tem ambas.
Neste momento em que se fala de crise e de medidas de austeridade a cada virar de esquina, surgem por todo o lado os juízes do povo. Estes são pessoas opiniosas, que se vêem bem no seu papel de denunciantes de injustiças. Por seu turno, estas são geralmente de ordem salarial. Como o e-mail, apesar de não ser anónimo, está apenas a passar informação colhida de fonte não assinada, quem passa a informação sente-se à vontade uma vez que não é o autor daquilo que a mensagem contém. Este aspecto é importante num país geralmente medroso e avesso ao risco, em que as pessoas por norma não gostam da polícia mas adoram ser, elas próprias, polícias. Por outro lado, desencadeia sentimentos de inveja que são inerentes à natureza humana. A menção de um salário muito elevado ou de pensões de reforma/aposentação de montantes igualmente elevados tem necessariamente de provocar a inveja de quem, em comparação, possui ou salários baixos ou pensões de aposentação mínimas. O injusto da questão, poder-se-á dizer, é que quem recebe ou recebeu salários mais baixos não pode aspirar a pensões muito elevadas. Aspirações reduzidas levam a remunerações igualmente reduzidas. Small pains, small gains. Lugares de grande responsabilidade ocupados por pessoas de reconhecida competência não causariam, em princípio, problemas de maior. O grande busílis reside no facto de muitos daqueles que auferem salários elevados não parecerem merecê-los, seja pelos erros gravosos que cometem e pelos quais não respondem, seja pela incompetência que muitas vezes demonstram e que os torna bons elementos do seu partido em termos de fidelidade e elementos fracos a nível de nação.
Num país como Portugal, que, não obstante os 36 anos da Revolução de Abril, mantém gritantes desigualdades em termos salariais e sociais, a revelação das remunerações auferidas por gestores públicos, assessores e políticos de vários quadrantes colhe muito mais do que noutros países de maior equilíbrio social. Por outro lado, acicata a demagogia e envieza juízos de apreciação, os quais tendem depois a nivelar todos os "privilegiados" pela mesma bitola. Nem sempre com justiça, diga-se.
Esta história de intercâmbio de mails é uma realidade com a qual qualquer governo democrático tem que se haver. Mesmo quando tenta esconder algo, há sempre um rabo de fora que, mais tarde ou mais cedo, aparece. Ora, a verdade é que este facto deveria levar os "privilegiados" a auto-corrigirem-se, mas quem é que gosta de hara-kiri? E quem começa? Porque hei-de de ser eu a começar e não ele ou ela? Neste jogo, que se desenrola numa altura em que as janelas estão escancaradas, quem duvida que os condomínios de segurança redobrada tendem a aumentar no nosso país? Será este o caminho certo?
Seja como for, é toda uma situação complexa que, em Portugal e certamente noutros lugares, transforma a Internet numa explosiva mistura de muro de lamentações e de livro de reclamações.