5/07/2007

Salários e Reformas

Há cinco ou seis anos, tive oportunidade de assistir a uma conferência muito interessante, e sentida, do Prof. Ernâni Lopes. Ele falava para estudantes do ensino superior numa das escolas onde ele próprio estudou. Aos estudantes forneceu a sua receita básica: trabalho, trabalho, trabalho - incluindo organização, bem entendido. Não se trabalha sem pensar. Avisou que, se a produtividade não aumentasse, seriam os salários que teriam que baixar. Teve toda a razão.
Dado que baixar os salários é ilegal, hoje fecha-se uma firma se for preciso, e reabre-se com outro nome, possivelmente nas mesmas instalações e com as mesmas máquinas. Dos trabalhadores antigos serão readmitidos aqueles que aceitarem trabalhar por algum dinheiro menos do que aquele que auferiam. Os contratos serão redigidos de forma diferente.
A desvalorização da moeda torna-se agora impossível. Deixar espiralar a inflação não é aceitável na EU. Logo, o melhor é não fazer aumentos nenhuns e esperar que o poder de compra desça. No funcionalismo público, criam-se novas leis para aumentar a produtividade do sector. Esta é a resposta à impossibilidade de desvalorizar a moeda, pois se tivéssemos ainda o escudo, este já teria sido desvalorizado mais do que uma vez - com o objectivo e sob o pretexto de aumentar as exportações e tornar o nosso turismo mais apelativo no que respeita a preços.
Se virmos a situação do ponto de vista da Segurança Social, notamos o óbvio. Os despedidos deixam de contribuir para o bolo, e passam a gastar dele. A capacidade líquida de financiamento dos fundos da Segurança Social passou de 3.300 milhões em 2004 para apenas cerca de 300 milhões previstos para este ano de 2007! A mudança de indústrias de mão-de-obra intensiva para outras de capital intensivo, a que se junta a concorrência de outros países, conduz a naturais despedimentos. Estes despedidos também sobrecarregam o orçamento da Segurança Social.
Entretanto, refira-se que, embora muitos pensionistas não tenham visto as suas pensões aumentar, dado que não tem havido desvalorizações, eles não notam muito - a inflação é baixa. O euro forte tem, ironicamente, sido mais amigo dos reformados do que do Estado.

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