9/13/2008

Amigos certos

A sensação de que estamos acompanhados é, ao que creio, das mais importantes para o homem. Nesta época de múltiplas incertezas, torna-se crucial, pelo menos para determinado tipo de pessoas em que me incluo, que haja "amigos" em pontos de apoio a um tempo banais e vitais.
Existem actos rotineiros que nos fazem sentir seguros: a nossa referência está lá; há marcos que balizam mais ou menos a nossa existência e nos delimitam umas fronteiras amigas.
Assim é que gostamos, a certa altura da nossa vida, de poder contar com o nosso médico a quem fazemos confidências ou contamos histórias, o nosso dentista que não nos causa qualquer pavor, o barbeiro que nos corta o cabelo há anos e a quem não precisamos de dar quaisquer instruções, o merceeiro com quem temos conversas informais, as pessoas da loja da fruta que nos recomendam aqueles morangos que acabaram de chegar ou estas bananinhas muito doces e apetecíveis, o mecânico que está pronto a desempanar-nos o carro e nos dá uma ajuda prioritária em caso de necessidade, o contabilista em quem confiamos, o restaurante onde somos tratados como clientes usuais e de onde podemos encomendar um prato para comer em casa, o calista que já nos conhece os pés, a empregada que tem uma ideia sábia dos nossos gostos, os amigos - mas toda esta gente faz parte dos amigos do nosso mundo - com quem nos sentimos bem a tagarelar, o homem da papelaria que já tem o jornal dobrado à nossa entrada, o encadernador que já nos fez muitos trabalhos e sempre bem, a senhora da padaria que sabe bem se preferimos o pão bem ou mal cozido e nos trata pelo nome, o empregado do banco que nos conhece e sabe qual a nossa profissão, o agente de viagens que, para além de ter uma ideia dos nossos gostos, ainda nos concede um pequeno desconto.
Este é um círculo muito positivo, que nos fornece paz e proporciona um cerco benigno. Ter esta entourage amiga sabe imensamente bem. Facilita a vida, dá-lhe um contexto. O desaparecimento do dentista pode causar pânico. Idem da empregada. Por isso e porque deles gostámos e gostamos, procuramos mantê-los e dedicamos-lhes a nossa amizade e a eles recorremos sempre que necessário. É um serviço pessoalizado, tão diferente do anonimato dos centros comerciais, das policlínicas, de todos os outros lugares que não são estes.
No entanto, sinto que para muitas pessoas ter esta soma de serviços fidelizados é uma aberração. Para elas a mobilidade é o normal ou, pelo menos, não lhes causa qualquer angústia. Mobilismo pode ser associado a optimismo e a confiança. Será que o reverso também é verdadeiro?
Ao fim e ao cabo, esta enorme e reconfortante estabilidade constitui um tremendo contraste perante a tão propalada mudança. Ouve-se a todo o instante que nada é igual, tudo muda, tudo gira. Talvez até por isso, sabe bem passar pela tabacaria e constatar que o Alves ainda lá está.

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