Há dias, pelas cinco da tarde, entrei numa igreja do Minho para uma mirada ao interior, que desconhecia. Estava a decorrer um serviço religioso, razão pela qual a porta estava aberta. Não pude deixar de ouvir o velho sacerdote dirigir-se simpaticamente às catorze pessoas -- contei-as -- que ocupavam apenas os bancos da frente do vasto templo. Falava-lhes "deste vale de lágrimas", repetindo várias vezes "Senhor, tende piedade de nós!" Não sou crente. Admiro, no entanto, as pessoas que têm verdadeira fé, as quais naturalmente respeito. No templo de pedra, frio, com altares laterais dedicados a santos sofredores e mártires, não pôde deixar de me ocorrer a imagem do frequente pensamento português "coitadinhos de nós". Lamúria pegada, queixas e mais queixas. Quem se lamuria, não anda contente nem motivado. Produz pouco e com pouca alegria.
Tomar o sofrimento como uma virtude é uma visão que pode considerar-se masoquista. Na generalidade, o português tem-na. Daí que gabar-se do seu sofrimento acabe por ser virtuoso também. Suponho, no entanto, que esta característica não é apenas portuguesa, mas sim das sociedades católicas, de uma maneira geral.
A atitude de comiseração -- o coitadinho, afinal -- conduz à lamúria também na televisão, uma fonte muito importante para nós. São apresentadas com demasiada frequência pessoas que estão descontentes com isto e com aquilo. Nestes últimos tempos, houve uma insistência tremenda com o frio. Pessoas do campo que estão habituadas a temperaturas baixas e que não consideravam a vaga de frio nada de especial foram quase que forçadas a dizer aos repórteres que, sim senhor, "está um frio de rachar", "não há memória de uma coisa assim". É a nossa costela árabe a misturar-se com a judaica: o Muro das Lamentações, as expectativas baixas para que não saiamos frustrados, as palavras a substituir repetidamente os actos.
Mas "é disto que o meu povo gosta", como o Perestrelo adora dizer. Será curioso notar que os cristãos não-católicos veneram a cruz do Cristo, mas não o colocam lá. É um detalhe importante. A imagem de sofrimento constante não ajuda muito. Pelo contrário. Lembra-nos o que Milton nos diz no seu Paradise Lost: Adão e Eva, expulsos do mundo perfeito do paraíso, choraram, mas só ao princípio. Cedo enxugaram as lágrimas: havia um mundo inteiro para construir e uma vida para viver!
3/09/2005
3/07/2005
A Torre de Babel revisitada
A história bíblica da Torre de Babel inspirou mais de duzentas obras de pintura. O célebre quadro de Pieter Bruegel (1563), presente na colecção do Kunsthistorisches Museum de Viena, talvez seja a ilustração mais frequentemente reproduzida. O episódio bíblico em questão conta-nos que, num vale da rica Mesopotâmia, os descendentes de vários clãs decidiram unir esforços e construir uma torre, com milhares e milhares de tijolos sobrepostos em camadas e unidos por uma poderosa argamassa. A Jeová, que apreciou a união das pessoas para fazerem algo em conjunto, a torre não pareceu, porém, mais do que uma prova da ambição desmedida do homem. Querer chegar ao céu? Com que utilidade? Por pura soberba? Daí ter resolvido descer do seu olímpico assento até ao meio dos homens que se afadigavam a erguer aquela monumental estrutura. E, com um gesto, pôs toda a gente a falar línguas diferentes. A partir daí, biblia dixit, a comunicação entre os construtores perdeu-se, e a torre permaneceu, como as pinturas o ilustram, inacabada para todo o sempre. Assim terão, simbolicamente, nascido as diferentes línguas e as consequentes dificuldades de comunicação entre os homens.
Neste dealbar do milénio, a globalização parece, porém, dar mostras de voltar a criar uma língua comum, sobreposta aos múltiplos idiomas diferentes que se encontram no planeta. Isto não quer dizer união de esforços. Essa será sempre uma outra história.
Segundo um recente artigo da Newsweek, nunca como hoje sucedeu que uma língua fosse falada no mundo por um número maior de pessoas do que o conjunto dos que a utilizam como língua materna. Considerando o inglês a língua-mãe em países como o Reino Unido, os Estados Unidos e a Austrália, verifica-se que só na Ásia o número de indivíduos que se expressam com relativa fluência em inglês -- mais de 350 milhões -- equivale sensivelmente ao total da população daqueles três países. À sua conta, a China possui uma quantidade de estudantes da língua inglesa que ronda os 100 milhões! É claro que falam um inglês sui generis. Consegue-se à légua distinguir um indiano a falar inglês, por exemplo. Ou um chinês. Mas esse é um aspecto secundário, que faz no entanto surgir, com vocábulos e expressões próprias, um "Japlish", um "Hinglish" ou um "Spanglish". Os utilizadores estrangeiros de inglês são hoje três vezes mais do que os nativos de língua inglesa. O que interessa é que as pessoas sejam bilingues. A razão desta loucura de aprendizagem do inglês é basicamente uma: empregos! Melhores empregos. Se há umas décadas eram apenas os diplomatas e os directores executivos de firmas que necessitavam de inglês, hoje em dia essa necessidade aumentou extraordinariamente. A deslocalização de firmas, as comunicações por e-mail, a leitura de instruções em numerosas aplicações informáticas, uma grande fatia da linguagem da Internet, o atendimento de encomendas do estrangeiro, a comunicação com visitantes de outros países, a leitura de livros técnicos, a apresentação de comunicações em seminários e congressos, e um ror de outras coisas, têm levado muitos países a incluir o Inglês no seu 1º ciclo de estudos. Em Portugal iremos em princípio seguir o mesmo rumo.
Será que um dia conseguiremos de facto ter todos os construtores de uma eventual "Torre de Babel" a entenderem-se perfeitamente entre si e a trabalharem em conjunto?
Neste dealbar do milénio, a globalização parece, porém, dar mostras de voltar a criar uma língua comum, sobreposta aos múltiplos idiomas diferentes que se encontram no planeta. Isto não quer dizer união de esforços. Essa será sempre uma outra história.
Segundo um recente artigo da Newsweek, nunca como hoje sucedeu que uma língua fosse falada no mundo por um número maior de pessoas do que o conjunto dos que a utilizam como língua materna. Considerando o inglês a língua-mãe em países como o Reino Unido, os Estados Unidos e a Austrália, verifica-se que só na Ásia o número de indivíduos que se expressam com relativa fluência em inglês -- mais de 350 milhões -- equivale sensivelmente ao total da população daqueles três países. À sua conta, a China possui uma quantidade de estudantes da língua inglesa que ronda os 100 milhões! É claro que falam um inglês sui generis. Consegue-se à légua distinguir um indiano a falar inglês, por exemplo. Ou um chinês. Mas esse é um aspecto secundário, que faz no entanto surgir, com vocábulos e expressões próprias, um "Japlish", um "Hinglish" ou um "Spanglish". Os utilizadores estrangeiros de inglês são hoje três vezes mais do que os nativos de língua inglesa. O que interessa é que as pessoas sejam bilingues. A razão desta loucura de aprendizagem do inglês é basicamente uma: empregos! Melhores empregos. Se há umas décadas eram apenas os diplomatas e os directores executivos de firmas que necessitavam de inglês, hoje em dia essa necessidade aumentou extraordinariamente. A deslocalização de firmas, as comunicações por e-mail, a leitura de instruções em numerosas aplicações informáticas, uma grande fatia da linguagem da Internet, o atendimento de encomendas do estrangeiro, a comunicação com visitantes de outros países, a leitura de livros técnicos, a apresentação de comunicações em seminários e congressos, e um ror de outras coisas, têm levado muitos países a incluir o Inglês no seu 1º ciclo de estudos. Em Portugal iremos em princípio seguir o mesmo rumo.
Será que um dia conseguiremos de facto ter todos os construtores de uma eventual "Torre de Babel" a entenderem-se perfeitamente entre si e a trabalharem em conjunto?
3/05/2005
De peso médio
O próximo governo inclui uma série de pesos-médios, indivíduos que sabem pensar por si próprios e não são meras correias de transmissão partidária. Oxalá todos interiorizem aquilo que vão jurar quando tomarem posse em Belém: servir o país com lealdade, dando-lhe o melhor do seu saber. Por outro lado, esperemos que o Primeiro-Ministro esteja à altura de coordenar esta equipa, num momento que é particularmente difícil para Portugal. Para ele, é um verdadeiro desafio.
Rebuçados para uns, campo minado para outros
Santana Lopes não desiste de se servir da nação em vez de servi-la. Numa altura em que o seu governo está mais do que demissionário, ei-lo que continua a enviar para o Diário da República nomeações de homens e mulheres da sua confiança (ou do seu partido). Um amigo meu perguntaria, com evidente candura: "É ilegal?" Não. Ilegal não será. Mas revela uma tremenda falta de ética, absolutamente indesculpável num homem que já declarou à comunicação social que vai continuar na política, pois é praticamente só isso que tem feito e sabe fazer. Aos governantes seus sucessores deixa um campo verdadeiramente minado. Desta vez, nem mesmo Salazar ousaria dizer que era "A bem da Nação".
Parte do interior norte revisitada
Durante cerca de uma semana não pude dar a minha habitual contribuição a este blog. A razão é simples: fui fazer um pequeno périplo, digamos de saudade, pelo norte do país. Assentando arraiais no interior do distrito de Braga, mais concretamente nas Terras do Bouro, pude revisitar locais a que não ia há mais de uma década. Opinião geral: positiva. Apesar de, sem surpresa, ter encontrado uma população de faixa etária elevada, deparei-me com o mesmo sentido de labor, muitas pequenas indústrias, agricultura de esforço e abnegação. Cidades e vilas bem mais desenvolvidas, com virtudes e defeitos. Muita obra em curso, bastantes subsídios da União Europeia. Tenho ido ao Norte nos últimos anos, mas geralmente para eventos ou visitas a cidades como o Porto, Guimarães ou Viana do Castelo. As auto-estradas escondem-nos hoje o interior do país. Interessava-me rever o que está por detrás dos bastidores. Não fiquei decepcionado. Foi bom encontrar nas Terras do Bouro estradas impecáveis, embora com algumas aldeias de populações pobres e sujeitas a árduo trabalho. Gado à beira das vias, aguardando pacientemente que o levem para os pastos, vacas e bois misturados com porcos, galinhas e patos junto às casas -- não é coisa que se veja todos os dias. Algo que não existia antigamente: todo o gado bovino devidamente identificado. Mais à frente são os garranos do Gerês à solta por aqueles montes. Em grupos de três a seis ou sete, sempre com as fêmeas protegidas por um garanhão adulto, foi uma beleza ver, naqueles altos e pedregosos morros, esses cavalos pastando tranquilamente, trotando apenas, mas calmamente, quando o visitante se aproxima demasiado. Os garranos do Gerês parecem estar em grande forma. São criados em regime de liberdade total e em estado semi-selvagem. Tenho pena de o nosso blog não comportar fotografias! As paisagens continuam de sonho. Tive ocasião de subir o Gerês, atravessando a fronteira da Portela do Homem e descendo um pouco à Galiza para voltar logo a Portugal pelo Lindoso. O conjunto mais espectacular de espigueiros do país, juntamente com o do Soajo ali a dois passos, continua de boa saúde. Dar uma olhadela pela arborizada zona do mosteiro de Nossa Senhora da Abadia e outra por São Bento da Porta Aberta vale muito a pena. Com estes belos dias de sol de inverno, as árvores cobertas de musgo são um encanto. Há alguns senãos, claro: a sinalização nas estradas, apesar de ter melhorado consideravelmente, ainda apresenta sérias lacunas. Mas tudo isso faz parte do jogo, afinal. Como fazem parte do jogo as esplêndidas moradias que encontramos em dezenas e dezenas de povoações. Já no repousado regresso a Lisboa, a cidade de Aveiro e, concretamente, a ria (Torreira e S. Jacinto) recomendam-se. Aquele Portugal pareceu-me relativamente bem.
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