Nos anos 80, o filme Wall Street teve a coragem de colocar um dos actores com um lema que ia decididamente contra os valores dos chamados "sete pecados capitais". O lema dessa personagem era "Greed is good!". Se a vaidade, como orgulho excessivo da pessoa, é considerada um pecado mortal pelos cristãos - embora seja o mais leve da lista -, como não entender que a avidez, popularmente designada por "ganância", o seja? Trata-se de egoísmo exacerbado e não de mera ambição comedida. Esta é bem vinda em todo o ser humano que deseja progredir e viver pacificamente em sociedade.
Foi, curiosamente, nessa mesma década de 80 que o capitalismo, também chamado eufemisticamente de "economia de mercado", de "liberalismo" ou "neo-liberalismo", deu um vigoroso passo em frente com as políticas de Margaret Thatcher no Reino Unido e Ronald Reagan nos Estados Unidos. Aí teve início o grande movimento de liberalização de capitais, que os americanos denominaram de "deregulation". A mão invisível de Adam Smith controlaria a falta de regulamentação. Uma das consequências do facto de dinheiro gerar dinheiro foi que a década de 90 viu aumentar o número de milionários e multimilionários, movimento que, aliás, ainda hoje prossegue. Infelizmente, a pobreza e a fome mantiveram-se e agravaram-se em numerosos países, mas noutros, como na China e na Índia, a externalização de serviços das nações mais desenvolvidas tanto da América como da Europa, a que se juntou um substancial investimento local na educação, permitiu reviravoltas significativas. Entretanto, países inicialmente com problemas, como o Brasil e a Rússia, gozaram das vantagens de possuírem ricas reservas energéticas.
Nos últimos anos, segundo Robert Kagan mencionou numa interessante conferência na Gulbenkian, os Estados Unidos envolveram-se em cerca de 13 conflitos diferentes. Nos atoleiros de Alá (Iraque e Afeganistão) têm-se dado mal e gasto rios de dinheiro. O todo-poderoso dólar começou há muito a vacilar, mas tudo se ia compondo, com alguns altos e baixos. À escala global, os Estados Unidos, os grandes campeões da gestão de empresas e gestão de capitais, com gurus que ganham muitíssimo bem a sua vida dando conferências em Buenos Aires, Varsóvia, Bratislava, no Rio de Janeiro, em Lisboa e tantas outras cidades do mundo, dominavam a cena. Porém, se na década de 90 houve uma considerável unipolaridade americana, agora já ninguém admite essa mesma unipolaridade. Hoje, fala-se em "multipolaridades".
A globalização que os ricos fizeram alastrar pelo mundo através de várias medidas, entre as quais se contam numerosos produtos financeiros inovadores, alojou-se com um vírus de irrealismo tão forte que fez distanciar enormemente a massa monetária contabilística da economia real. Há muito que se ouviam gritos de alerta clamando que a contabilidade empresarial, incluindo a bancária e de seguros, triplicava a verdadeira economia. Havia qualquer coisa como dois terços sem sustentabilidade palpável. Não creio que haja alguém que saiba calcular com grande exactidão a extensão do vírus, que se propagou praticamente a todo o planeta, um pouco como o HIV. Pensemos que se este vírus anda à solta, sem grande controlo, desde o final da década de 80, ele já terá deixado rasto por muito lado. Afinal, a ganância não é apanágio único dos americanos. No caso português, bastará ver o que se passou no aparentemente bem comportado BCP (Opus Dei oblige), no qual não foi preciso mais do que a entrada em cena de umas tantas comadres em desavença para que bastantes impurezas viessem ao de cima.
Tanto neste caso como a nível global, estamos ainda em plena operação de "desintoxicação". Total? Nem pensar! A avidez mencionada como tradicional pecado pelos cristãos mantém-se na cabeça das pessoas. Os objectivos gananciosos que são impostos pelos CEOs aos seus subordinados, que por sua vez os passam aos seus próprios subordinados, são por de mais irrealistas. Nada há que possa crescer sempre. A vida funciona na base de ciclos e não de linhas rectas ascendentes. Enquanto os empregados que contactam mais directamente com o público se esfalfam no reino da mentira para cumprir objectivos, com isso vendendo frequentemente a sua alma e carecendo depois de anseolíticos em doses elevadas, os grandes gestores banqueteiam-se com inimagináveis somas, que lhes são pagas mesmo que não sejam exactamente bem sucedidos.
Foi o mercado bancário subprime, i.e. usando clientes de segunda no crédito à habitação, que fez despoletar toda esta crise. Porém, ele está muito longe de ser o único culpado. Na América, decorre actualmente um debate interessantíssimo sobre o salvamento (bailout) que o governo americano decidiu fazer in extremis a várias instituições, criando de facto aquilo a que o senador republicano do Kentucky chamou ironicamente de "socialismo financeiro". Foi a mentira em cadeia, acoplada à arrogância e à desonestidade básica que só a aceitação da ganância como virtude pode admitir, que conduziu à situação actual. De uma maneira ou doutra, estamos todos dentro do problema. Há um turbilhão de ignorância perante os factos reais, uma incerteza que semi-paralisa a economia e agrava a situação. Encontramo-nos no meio de um furacão feito pelo homem. Em certa medida, "descobrir a careca" é bom, mas para chegarmos à cabeça-sem-pelo ainda será preciso muito. É, aliás, altamente duvidoso que a consigamos algum dia ver. Os off-shores protegem bem os ricos da queda do cabelo.
Dia a dia veremos o que nos reservam os próximos capítulos. Não nos esqueçamos, porém, de que este é um reality show a sério!
9/24/2008
Aprender é bom mas exige esforço
"O insucesso escolar aumenta porque preparamos cada vez menos os alunos para as dificuldades." Não posso deixar de concordar com estas palavras da psicóloga Dulce Gonçalves, do Centro de Psicologia Clínica e Educacional de Lisboa. "Aprender exige esforço, noção que deve ser transmitida às crianças desde cedo. Aprender é bom, mas passa por fases de dificuldades que nos obrigam a insistir. É preciso que os pais compreendam que é importante fortalecer as crianças e que isso não passa por evitar o erro, mas por ensiná-las a superá-lo. Cabe aos pais a criação de situações em que os filhos possam aprender a gerir as dificuldades e a frustração de perder."
Numa palavra, juntarei eu, são precisos sacrifícios para colher benefícios.
E, com o panorama que todos conhecemos, vem agora a Ministra da Educação afirmar que um dos objectivos da sua equipa é alcançar nos próximos anos cem por cento de aprovações no final do nono ano de escolaridade! Estamos cada vez mais no país do wishful thinking e do distanciamento da verdade. Será que a ministra toma toda a população do seu país por infantil e não-educada?
Numa palavra, juntarei eu, são precisos sacrifícios para colher benefícios.
E, com o panorama que todos conhecemos, vem agora a Ministra da Educação afirmar que um dos objectivos da sua equipa é alcançar nos próximos anos cem por cento de aprovações no final do nono ano de escolaridade! Estamos cada vez mais no país do wishful thinking e do distanciamento da verdade. Será que a ministra toma toda a população do seu país por infantil e não-educada?
9/19/2008
Palavras cruzadas do antigo império
Estou longe de ser doidinho por palavras cruzadas, mas admito que ao longo dos anos já tive bastantes vezes aqueles quadradinhos à minha frente à espera de serem preenchidos na horizontal e na vertical. Especialmente antes de adormecer e após um dia mais ou menos fatigante, um problema de palavras cruzadas pode ser o melhor dos soporíferos: a certa altura, são os nossos olhos que começam a cruzar-se. Para dentro. Uma, duas, três vezes. Aí não há outro remédio senão largar tudo e mergulhar no mais profundo dos sonos.
As típicas palavras cruzadas portuguesas têm onze quadradinhos para o lado e outros onze para baixo. São geralmente mais fáceis quando têm mais de vinte casas tapadas e as palavras a escrever se reduzem basicamente a monossílabos e a dissílabos. Quando se fazem as palavras cruzadas do mesmo jornal, a certa altura aprendemos os truques do autor: já sabemos que o rio suíço é o Aar, embora não façamos ideia onde ele corre. O vácuo é, algo estranhamente, "ar". Os cabelos brancos são "cãs".
Quando há tempos estive na Índia, vi-me a certa altura sentado num enorme elefante, conduzido por alguém que, segundo o autor ou autora das minhas palavras cruzadas, deveria ser um "amal" - "condutor de elefantes na Índia". Era assim que eles se chamavam?, perguntei. O indiano que cavalgava o bicho cerca de um metro à minha frente disse-me que não conhecia a palavra. A conclusão a que cheguei foi imediata: aquele indivíduo podia ser encartado para conduzir elefantes na Índia, mas não costumava fazer palavras cruzadas cá das nossas.
Foi aí que me imaginei a cavalgar elefantes pelas terras do antigo império português fora, à cata de palavras deste tipo. A questão é que o velho império acaba por pregar-nos partidas. Quando um dia for à Amazónia hei-de procurar um sapo que por lá vive e que, com três letrinhas apenas, se chama "aru". Perto, deve haver aves com o estranho nome de "hia", com h e tudo. Espero ardentemente encontrá-los. E, aproveitando o facto de estar no Brasil, hei-de ver se há realmente alguma gaivota que se chame "átia" e se existe, algures naquele vasto país, uma espécie de macaco de nome "mico". Ver para crer! Não quero mais decepções como a do "amal"!
Em Cabo Verde já me confirmaram que "liar" é torrar milho. Fiquei mais contente. Porém, continuo sem ter a confirmação se a árvore "paco" existe na vasta Angola de que tanto gostei e onde adorava voltar um dia. Mas antes tenho que ir a Timor para ver se um dos dialectos locais se chama "nanete" e se uma espécie de saia dos guerreiros lá desse longínquo país é "tais".
Umas coisas são verdade, outras algo distanciadas dessa mesma verdade. Pelo menos assim parece. Ou serão apenas "as malhas que o império tece"?
As típicas palavras cruzadas portuguesas têm onze quadradinhos para o lado e outros onze para baixo. São geralmente mais fáceis quando têm mais de vinte casas tapadas e as palavras a escrever se reduzem basicamente a monossílabos e a dissílabos. Quando se fazem as palavras cruzadas do mesmo jornal, a certa altura aprendemos os truques do autor: já sabemos que o rio suíço é o Aar, embora não façamos ideia onde ele corre. O vácuo é, algo estranhamente, "ar". Os cabelos brancos são "cãs".
Quando há tempos estive na Índia, vi-me a certa altura sentado num enorme elefante, conduzido por alguém que, segundo o autor ou autora das minhas palavras cruzadas, deveria ser um "amal" - "condutor de elefantes na Índia". Era assim que eles se chamavam?, perguntei. O indiano que cavalgava o bicho cerca de um metro à minha frente disse-me que não conhecia a palavra. A conclusão a que cheguei foi imediata: aquele indivíduo podia ser encartado para conduzir elefantes na Índia, mas não costumava fazer palavras cruzadas cá das nossas.
Foi aí que me imaginei a cavalgar elefantes pelas terras do antigo império português fora, à cata de palavras deste tipo. A questão é que o velho império acaba por pregar-nos partidas. Quando um dia for à Amazónia hei-de procurar um sapo que por lá vive e que, com três letrinhas apenas, se chama "aru". Perto, deve haver aves com o estranho nome de "hia", com h e tudo. Espero ardentemente encontrá-los. E, aproveitando o facto de estar no Brasil, hei-de ver se há realmente alguma gaivota que se chame "átia" e se existe, algures naquele vasto país, uma espécie de macaco de nome "mico". Ver para crer! Não quero mais decepções como a do "amal"!
Em Cabo Verde já me confirmaram que "liar" é torrar milho. Fiquei mais contente. Porém, continuo sem ter a confirmação se a árvore "paco" existe na vasta Angola de que tanto gostei e onde adorava voltar um dia. Mas antes tenho que ir a Timor para ver se um dos dialectos locais se chama "nanete" e se uma espécie de saia dos guerreiros lá desse longínquo país é "tais".
Umas coisas são verdade, outras algo distanciadas dessa mesma verdade. Pelo menos assim parece. Ou serão apenas "as malhas que o império tece"?
9/17/2008
Critérios jornalísticos
Se se fizesse um inquérito questionando qual o critério que as pessoas consideram mais importante num jornal, quase de certeza que, a par do habitual "Não sabe / não responde", viria o critério da objectividade. Ser objectivo, dizer o que se passa no mundo tal e qual, parece, em princípio, ser um bom critério. Mas será mesmo o critério mais seguido? Ou serão outros que geralmente nem escritos estão? Vejamos três deles: o critério da afinidade, o da novidade-sensacionalidade e o da agradabilidade.
Uma criança arguta que aprenda a ler e veja pela primeira vez um jornal com olhos de ver é capaz de perguntar ao pai ou à mãe como é possível que todos os dias aconteçam no mundo coisas para preencher exactamente um jornal. A resposta do adulto, óbvia, é a de que no mundo acontecem muitas coisas mais do que aquelas que aparecem ali, tantas de facto que o jornal tem de fazer uma selecção.
E como se faz essa selecção? Mais pela objectividade ou preferencialmente pelo potencial interesse das notícias para o leitor? Se, afinal, o jornal é feito para o leitor, que o compra, parece justo que seja ele que esteja no centro da selecção de notícias. Isso retirará alguma objectividade ao que se passa no mundo? Certamente que sim. Haverá dias em que o jornal não trará uma única notícia do Brasil, mas certamente que todos os jornais do Brasil trarão um número considerável de notícias do país. Portugueses que estão fora da sua pátria e não usam a Internet lastimam frequentemente o facto de o jornal que lêem não conter nada sobre Portugal. É assim mesmo. Porquê? Porque existem critérios que dizem respeito à fidelização do público ou à captura de novos leitores. São critérios como os acima mencionados.
Brevemente, porque o assunto dá pano para mangas, ilustre-se o que cada um desses critérios significa. O conceito de afinidade inclui algo que, em certa medida, tem a ver connosco. Assim, um caso de homicídio triplo ocorrido na China, país longínquo para nós, é natural que não tenha o mesmo significado que um outro ocorrido à nossa porta, seja em Tomar, Leiria ou no Porto. Este será relatado, o outro ficará excluído. Um jogo de futebol disputado na Roménia entre duas equipas estrangeiras, sendo que numa delas alinham cinco jogadores portugueses, pode merecer um comentário relativamente detalhado devido à afinidade que sentimos por jogadores do nosso país. Em caso de guerra entre uma nação ocidental e um povo islâmico, a contabilidade dos mortos ocidentais e sua identificação surgem na notícia como algo natural aos olhos do leitor, que lerá com menos interesse o número de mortos inimigos, reduzidos a contagens de centenas ou de milhares. No caso das bombas atómicas lançadas por aviões dos EUA sobre o Japão no final da 2ª Guerra Mundial, conhece-se o nome dos pilotos americanos mas nem um nome de qualquer um dos muitos milhares de mortos japoneses. O mesmo se passa numa guerrilha dos dias de hoje entre israelitas e palestinianos. O nome, idade e algo sobre a família dos israelitas é reportado, mas nada sobra no noticiário identificativo dos palestinianos. Tudo lembra os velhos filmes americanos do oeste entre índios e brancos: quando um dos "nossos" é alvejado e morre em combate, assiste-se geralmente aos seus últimos momentos, ouvimos até as suas derradeiras palavras. Os índios ululantes podem morrer às centenas: são todos iguais.
Como é evidente, esta forma de noticiar coloca-nos automaticamente de um dos lados da barricada. Belos mandamentos cristãos, como "Amar o próximo como a nós mesmos", levam à definição particular que cada um faz do "seu" próximo. Bolas para a objectividade!
A novidade-sensacionalidade é outro dos critérios jornalísticos importantes. Os leitores gostam de estar informados sobre as últimas descobertas da medicina, sobre o último modelo de automóvel lançado no mercado, sobre o filho que a actriz X teve do actor Y, ou sobre algo extravagante e diferente. O jornal inclui esse aspecto, embora muitas vezes sob o ponto de vista de importância objectiva da notícia – algo que se pode medir apenas passado algum tempo – a relevância seja nula ou quase.
Quanto ao critério da agradabilidade, digamos que ele implica algo mais do que a simples inclusão: o realce. Se um atleta português logra alcançar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, torna-se óbvio que a notícia tem que vir em grandes parangonas na página da frente. Agrada-nos. É como uma prenda que recebemos. Se, pelo contrário, ele fracassou e não conquistou qualquer medalha, o facto será em princípio noticiado em letras pequenas na página da frente, que remeterá o assunto para as páginas interiores. Afinal, a página principal deve trazer - tanto quanto possível - notícias agradáveis, a não ser que a sua sensacionalidade se sobreponha. Todo o leitor gosta de ver a página de rosto do seu jornal com algo que lhe vai dar prazer / interesse ler. Tal como os filmes e as estações de televisão escolhem pessoas bonitas para o seu cast ou staff porque são atraentes, assim também o jornal procura atrair. É um critério que pouco terá de objectivo relativamente ao muito que se passa no mundo, mas, pensando melhor, quem gosta da objectividade? Como dizia o espanhol José Bergamín, grande discípulo de Unamuno: "Se eu fosse objecto, seria objectivo; como sou sujeito, sou subjectivo."
Uma criança arguta que aprenda a ler e veja pela primeira vez um jornal com olhos de ver é capaz de perguntar ao pai ou à mãe como é possível que todos os dias aconteçam no mundo coisas para preencher exactamente um jornal. A resposta do adulto, óbvia, é a de que no mundo acontecem muitas coisas mais do que aquelas que aparecem ali, tantas de facto que o jornal tem de fazer uma selecção.
E como se faz essa selecção? Mais pela objectividade ou preferencialmente pelo potencial interesse das notícias para o leitor? Se, afinal, o jornal é feito para o leitor, que o compra, parece justo que seja ele que esteja no centro da selecção de notícias. Isso retirará alguma objectividade ao que se passa no mundo? Certamente que sim. Haverá dias em que o jornal não trará uma única notícia do Brasil, mas certamente que todos os jornais do Brasil trarão um número considerável de notícias do país. Portugueses que estão fora da sua pátria e não usam a Internet lastimam frequentemente o facto de o jornal que lêem não conter nada sobre Portugal. É assim mesmo. Porquê? Porque existem critérios que dizem respeito à fidelização do público ou à captura de novos leitores. São critérios como os acima mencionados.
Brevemente, porque o assunto dá pano para mangas, ilustre-se o que cada um desses critérios significa. O conceito de afinidade inclui algo que, em certa medida, tem a ver connosco. Assim, um caso de homicídio triplo ocorrido na China, país longínquo para nós, é natural que não tenha o mesmo significado que um outro ocorrido à nossa porta, seja em Tomar, Leiria ou no Porto. Este será relatado, o outro ficará excluído. Um jogo de futebol disputado na Roménia entre duas equipas estrangeiras, sendo que numa delas alinham cinco jogadores portugueses, pode merecer um comentário relativamente detalhado devido à afinidade que sentimos por jogadores do nosso país. Em caso de guerra entre uma nação ocidental e um povo islâmico, a contabilidade dos mortos ocidentais e sua identificação surgem na notícia como algo natural aos olhos do leitor, que lerá com menos interesse o número de mortos inimigos, reduzidos a contagens de centenas ou de milhares. No caso das bombas atómicas lançadas por aviões dos EUA sobre o Japão no final da 2ª Guerra Mundial, conhece-se o nome dos pilotos americanos mas nem um nome de qualquer um dos muitos milhares de mortos japoneses. O mesmo se passa numa guerrilha dos dias de hoje entre israelitas e palestinianos. O nome, idade e algo sobre a família dos israelitas é reportado, mas nada sobra no noticiário identificativo dos palestinianos. Tudo lembra os velhos filmes americanos do oeste entre índios e brancos: quando um dos "nossos" é alvejado e morre em combate, assiste-se geralmente aos seus últimos momentos, ouvimos até as suas derradeiras palavras. Os índios ululantes podem morrer às centenas: são todos iguais.
Como é evidente, esta forma de noticiar coloca-nos automaticamente de um dos lados da barricada. Belos mandamentos cristãos, como "Amar o próximo como a nós mesmos", levam à definição particular que cada um faz do "seu" próximo. Bolas para a objectividade!
A novidade-sensacionalidade é outro dos critérios jornalísticos importantes. Os leitores gostam de estar informados sobre as últimas descobertas da medicina, sobre o último modelo de automóvel lançado no mercado, sobre o filho que a actriz X teve do actor Y, ou sobre algo extravagante e diferente. O jornal inclui esse aspecto, embora muitas vezes sob o ponto de vista de importância objectiva da notícia – algo que se pode medir apenas passado algum tempo – a relevância seja nula ou quase.
Quanto ao critério da agradabilidade, digamos que ele implica algo mais do que a simples inclusão: o realce. Se um atleta português logra alcançar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, torna-se óbvio que a notícia tem que vir em grandes parangonas na página da frente. Agrada-nos. É como uma prenda que recebemos. Se, pelo contrário, ele fracassou e não conquistou qualquer medalha, o facto será em princípio noticiado em letras pequenas na página da frente, que remeterá o assunto para as páginas interiores. Afinal, a página principal deve trazer - tanto quanto possível - notícias agradáveis, a não ser que a sua sensacionalidade se sobreponha. Todo o leitor gosta de ver a página de rosto do seu jornal com algo que lhe vai dar prazer / interesse ler. Tal como os filmes e as estações de televisão escolhem pessoas bonitas para o seu cast ou staff porque são atraentes, assim também o jornal procura atrair. É um critério que pouco terá de objectivo relativamente ao muito que se passa no mundo, mas, pensando melhor, quem gosta da objectividade? Como dizia o espanhol José Bergamín, grande discípulo de Unamuno: "Se eu fosse objecto, seria objectivo; como sou sujeito, sou subjectivo."
9/13/2008
Amigos certos
A sensação de que estamos acompanhados é, ao que creio, das mais importantes para o homem. Nesta época de múltiplas incertezas, torna-se crucial, pelo menos para determinado tipo de pessoas em que me incluo, que haja "amigos" em pontos de apoio a um tempo banais e vitais.
Existem actos rotineiros que nos fazem sentir seguros: a nossa referência está lá; há marcos que balizam mais ou menos a nossa existência e nos delimitam umas fronteiras amigas.
Assim é que gostamos, a certa altura da nossa vida, de poder contar com o nosso médico a quem fazemos confidências ou contamos histórias, o nosso dentista que não nos causa qualquer pavor, o barbeiro que nos corta o cabelo há anos e a quem não precisamos de dar quaisquer instruções, o merceeiro com quem temos conversas informais, as pessoas da loja da fruta que nos recomendam aqueles morangos que acabaram de chegar ou estas bananinhas muito doces e apetecíveis, o mecânico que está pronto a desempanar-nos o carro e nos dá uma ajuda prioritária em caso de necessidade, o contabilista em quem confiamos, o restaurante onde somos tratados como clientes usuais e de onde podemos encomendar um prato para comer em casa, o calista que já nos conhece os pés, a empregada que tem uma ideia sábia dos nossos gostos, os amigos - mas toda esta gente faz parte dos amigos do nosso mundo - com quem nos sentimos bem a tagarelar, o homem da papelaria que já tem o jornal dobrado à nossa entrada, o encadernador que já nos fez muitos trabalhos e sempre bem, a senhora da padaria que sabe bem se preferimos o pão bem ou mal cozido e nos trata pelo nome, o empregado do banco que nos conhece e sabe qual a nossa profissão, o agente de viagens que, para além de ter uma ideia dos nossos gostos, ainda nos concede um pequeno desconto.
Este é um círculo muito positivo, que nos fornece paz e proporciona um cerco benigno. Ter esta entourage amiga sabe imensamente bem. Facilita a vida, dá-lhe um contexto. O desaparecimento do dentista pode causar pânico. Idem da empregada. Por isso e porque deles gostámos e gostamos, procuramos mantê-los e dedicamos-lhes a nossa amizade e a eles recorremos sempre que necessário. É um serviço pessoalizado, tão diferente do anonimato dos centros comerciais, das policlínicas, de todos os outros lugares que não são estes.
No entanto, sinto que para muitas pessoas ter esta soma de serviços fidelizados é uma aberração. Para elas a mobilidade é o normal ou, pelo menos, não lhes causa qualquer angústia. Mobilismo pode ser associado a optimismo e a confiança. Será que o reverso também é verdadeiro?
Ao fim e ao cabo, esta enorme e reconfortante estabilidade constitui um tremendo contraste perante a tão propalada mudança. Ouve-se a todo o instante que nada é igual, tudo muda, tudo gira. Talvez até por isso, sabe bem passar pela tabacaria e constatar que o Alves ainda lá está.
Existem actos rotineiros que nos fazem sentir seguros: a nossa referência está lá; há marcos que balizam mais ou menos a nossa existência e nos delimitam umas fronteiras amigas.
Assim é que gostamos, a certa altura da nossa vida, de poder contar com o nosso médico a quem fazemos confidências ou contamos histórias, o nosso dentista que não nos causa qualquer pavor, o barbeiro que nos corta o cabelo há anos e a quem não precisamos de dar quaisquer instruções, o merceeiro com quem temos conversas informais, as pessoas da loja da fruta que nos recomendam aqueles morangos que acabaram de chegar ou estas bananinhas muito doces e apetecíveis, o mecânico que está pronto a desempanar-nos o carro e nos dá uma ajuda prioritária em caso de necessidade, o contabilista em quem confiamos, o restaurante onde somos tratados como clientes usuais e de onde podemos encomendar um prato para comer em casa, o calista que já nos conhece os pés, a empregada que tem uma ideia sábia dos nossos gostos, os amigos - mas toda esta gente faz parte dos amigos do nosso mundo - com quem nos sentimos bem a tagarelar, o homem da papelaria que já tem o jornal dobrado à nossa entrada, o encadernador que já nos fez muitos trabalhos e sempre bem, a senhora da padaria que sabe bem se preferimos o pão bem ou mal cozido e nos trata pelo nome, o empregado do banco que nos conhece e sabe qual a nossa profissão, o agente de viagens que, para além de ter uma ideia dos nossos gostos, ainda nos concede um pequeno desconto.
Este é um círculo muito positivo, que nos fornece paz e proporciona um cerco benigno. Ter esta entourage amiga sabe imensamente bem. Facilita a vida, dá-lhe um contexto. O desaparecimento do dentista pode causar pânico. Idem da empregada. Por isso e porque deles gostámos e gostamos, procuramos mantê-los e dedicamos-lhes a nossa amizade e a eles recorremos sempre que necessário. É um serviço pessoalizado, tão diferente do anonimato dos centros comerciais, das policlínicas, de todos os outros lugares que não são estes.
No entanto, sinto que para muitas pessoas ter esta soma de serviços fidelizados é uma aberração. Para elas a mobilidade é o normal ou, pelo menos, não lhes causa qualquer angústia. Mobilismo pode ser associado a optimismo e a confiança. Será que o reverso também é verdadeiro?
Ao fim e ao cabo, esta enorme e reconfortante estabilidade constitui um tremendo contraste perante a tão propalada mudança. Ouve-se a todo o instante que nada é igual, tudo muda, tudo gira. Talvez até por isso, sabe bem passar pela tabacaria e constatar que o Alves ainda lá está.
Subscrever:
Mensagens (Atom)