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6/25/2009

"Minha pátria é a língua portuguesa": a hipocrisia total


Nas leituras e releituras que fui fazendo ao longo dos muitos anos que já vou acumulando, há vários textos que fizeram com que os meus olhos ficassem marejados de lágrimas. Irreprimivelmente. De comoção pelo conteúdo ou pela beleza estética. Alguns dos poemas de Walt Whitman estiveram entre os primeiros que me provocaram esse efeito. Recordo-me de os ler em voz altíssima e de manter ao mesmo tempo os olhos húmidos. Anteriormente, já certas passagens dos Miseráveis de Victor Hugo me tinham comovido pela situação em si. Ou O Drama de Jean Barois. Mas a comoção experimentada pela maravilha e o enleio do texto, pela sensação de me ver transportado como num tapete mágico das Mil-e-uma-Noites através da escolha única das palavras, fluidez de escrita e sua beleza, é algo que recordo principalmente em poemas de Fernando Pessoa/Alberto Caeiro, de Guerra Junqueiro e mais uns tantos, e por algumas passagens em prosa do jesuíta António Vieira, de Eça de Queiroz e José Saramago. A sensação que mantenho é de algo quase etéreo, em que as palavras servem de suporte a ideias que fluem como um rio, sem sobressaltos, com a serena naturalidade de tudo aquilo que integra a natureza.
A língua é algo fundamental para todos nós. Para uso diário, de comunicação utilitária, e igualmente para expressão de conceitos mais difíceis, estados de alma complexos, alívio de dor sofrida ou descida à escuridão mais lúgubre. A língua faz parte de nós praticamente desde o berço. O seu grafismo começa a ser-nos familiar também cedo na nossa vida.
O texto abaixo, retirado do Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, fala-nos do posicionamento do autor relativamente à língua portuguesa que amava. E esclarece de forma nítida a sua atitude perante a ortografia da língua. Coincide com a minha e, decerto, com a de muitos milhares de portugueses. Hipocritamente, os promotores do felizmente ainda não activado "acordo ortográfico" salientaram amiúde aquela que consideraram a frase-chave do texto – "Minha pátria é a língua portuguesa" – ignorando por completo o restante, que é transparente quanto ao sentir do autor relativamente à ortografia. O respeito pelas raízes greco-romanas sobressai de tudo o mais. Tudo isto foi escamoteado. Realça-se a curta frase que ressoa como patriótica e foi transformada em slogan. Ignora-se a substância. Por pura conveniência. Por despudorada hipocrisia. Como é, aliás, próprio dos políticos que se servem do povo para os legitimar e logo depois o desprezam.
"Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão, "Fabricou Salomão um palácio..." E fui lendo até ao fim, trémulo, confuso; depois rompi em lágrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais – tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda choro. Não é – não – a saudade da infância, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a palavra mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha."

4/16/2008

Acordo ortográfico: uma falsa necessidade e uma aberração

Já chegaram às livrarias dois dicionários que cumprem o anunciado acordo ortográfico. Foram produzidos pela Texto Editora e terão levado à modificação da grafia de cerca de dois por cento das palavras portuguesas. Segundo a coordenadora editorial, estes volumes são o produto do trabalho de uma grande equipa durante cerca de ano e meio. Imagine-se esta equipa a trabalhar durante tanto tempo antes de ser tomada uma decisão que está muito longe de reunir consenso entre os portugueses. É preciso ter lata! Política (ditatorial) do facto consumado!
Neste blogue já expressei a minha opinião sobre o "acordo" pelo menos duas vezes. Vou, portanto, apenas resumir o ponto principal da minha argumentação. A língua é um fenómeno social. Como tal, está directamente relacionada com a sociedade que a utiliza. Dado que as sociedades lusófonas - tanto em África como no Brasil e em outras partes do mundo - têm evoluído de forma diferente da portuguesa, é natural que várias facetas do idioma, incluindo a ortografia, se tenham adaptado às respectivas sociedades. Não constitui hoje qualquer problema para um lisboeta ou um paulista ler textos redigidos em língua portuguesa produzidos em Angola, Moçambique, Cabo Verde ou São Tomé e Príncipe. Pretender unificar artificialmente aquilo que é naturalmente diferente constitui um forcing atroz promovido por políticos e pessoas com interesses vários, divorciados da maioria do povo português, a quem não ocorreria semelhante coisa. Este eventual acordo, que rejeito totalmente, não faz qualquer sentido, é contra natura e soa mais como um eventual capricho de meia-dúzia de linguistas e de alguns políticos do que como vontade popular da Nação. Urge pôr cobro a esta inútil tentativa de alteração da ortografia do português, que não resolve problema nenhum! Muito pelo contrário, cria problemas! A ortografia, sendo embora importante, está longe de representar o todo de uma língua. Então esquece-se o vocabulário e a sintaxe?
Parece que agora a moda é dizer que um documento a assinar em português nas Nações Unidas teria que ser uniforme. Porquê, se o não tem sido até aqui? Porquê se não sucede assim com outros países? Se for em português do Brasil, não tem qualquer importância para nós. Desde que o representante do Estado português concorde, qual é o problema? O problema, esse sim, reside na forma prepotente como se pretende que os portugueses passem a grafar as suas palavras de maneira assaz diferente daquela que sempre aprenderam, apenas para falsamente unificar algo que é naturalmente diferente e que assim se deve manter!
Como já tenho dito, não sou contra alterações dentro da própria língua sempre que isso se deva à natural evolução do idioma. Mas serão sempre alterações dentro do contexto da sociedade nacional. Se essas mudanças vão ser influenciadas por sociedades estranhas à nossa, que sentido faz? A língua não é moeda de troca, está profundamente enraizada nas pessoas. É bom que os políticos não se esqueçam disso!

P.S. Vi na segunda-feira passada uma parte do programa "Prós e Contras" sobre esta questão e, confesso, para mim o mistério adensa-se. Que forças estão por detrás desta barbaridade? Alguns dos argumentos aduzidos são tão ridículos que não posso deixar de os achar estranhíssimos. Ouvi dizer, por exemplo, que os alunos estrangeiros que aprendem a língua portuguesa no seu país - umas centenas, quando muito pouquíssimos milhares - ficam confundidos, porque podem ter uma ortografia de manhã, por um docente português, e outra à tarde, por um docente brasileiro. Que fraquíssimo argumento para obrigar mais de dez milhões de portugueses a alterarem a sua maneira de escrever 2000 a 3000 palavras da sua própria língua! Por um lado, diferenças na ortografia não são nada de grave e, o que é mais, repito o que todos sabemos: que a ortografia é apenas uma parte da língua. Entre o português do Brasil e o português de Portugal existem diferenças muito mais significativas. E então seria esse reduzidíssimo número de aprendentes de português lá fora que iria fazer mudar todos os portugueses do país e das várias comunidades espalhadas pelo mundo?!!
Um outro argumento que ouvi é o de que para os muitos iletrados do Brasil e de Portugal aprender a escrever de maneira simplificada seria muito mais fácil. Então, em vez de dar boa educação a quem não sabe, resolvendo substancialmente o problema dos iletrados, pretende-se obrigar todos os que sabem a mudar! Daria para rir, se não fosse triste!
Ainda um outro argumento que ouvi, da parte de uma escritora que até aprecio, foi o de que estamos a sofrer uma enorme influência da língua inglesa, da qual importamos palavras - a pessoa em questão falou em bullying, mas depois não conseguiu encontrar uma palavra portuguesa que quisesse dizer o mesmo - e que essa influência só estancaria se tivéssemos a mesma ortografia do Brasil. Ora, as palavras estrangeiras entram no nosso país por uma influência cultural: quem inova em informática, em sociologia ou em ciência tende, de uma maneira geral, a exportar novos vocábulos; quem adopta tende a importá-los, pelo menos numa primeira fase. Querem agora dizer-nos que é por causa da nossa ortografia que isso sucede? Pois, mudando 2000 e tal palavras, toda a importação de vocábulos estrangeiros pararia também?!
Depois, falsamente, ouvi dizer que a língua inglesa tinha a mesma grafia em todo o lado! Qualquer aluno de inglês até acha curioso que o centre inglês seja center na América, que o programme britânico seja program nos Estados Unidos e que a colour europeia seja grafada como color do outro lado do Atlântico. Qual é o problema? Há, naturalmente, que explicar aos alunos que ambas as grafias são certas, cada uma no seu sítio. Como professor de inglês, eu nunca corrigiria um aluno que escrevesse program, a não ser que ele escrevesse algo como my favourite program, porque aí estaria a quebrar o princípio da consistência (favourite adopta a ortografia britânica, enquanto program adopta a americana). Quanto ao resto…
Pessoalmente, há algo que não perdoo nesta arengada de reforma ortográfica de um país à custa da evolução linguística em antigas colónias: que seja negligenciada a importantíssima distinção entre formas populares (usadas todos os dias) e formas eruditas (usadas com maior parcimónia) na eliminação de consoantes aparentemente mudas - mas funcionais. Eu posso não pronunciar o -p- em óptimo (forma popular), mas pronuncio-o em optimizar e em optimização (formas mais eruditas).
Por outro lado, a língua mantém traços do antigo, da mesma maneira que um velho mantém a memória da sua infância. Sucede em todos os idiomas. Repare-se, por exemplo, que em francês o acento circunflexo poderia desaparecer em hôpital, em âne, em fête e em tantas outras palavras. No entanto, ele está lá para mostrar que antigamente existia um -s-, na palavra, que aliás se manteve em português nos vocábulos correspondentes hospital, asno e festa. Em inglês, often é na generalidade pronunciado sem que se oiça o -t-, mas há pessoas que o pronunciam claramente. E o -t- mantém-se. Retirá-lo descaracterizaria bastante a língua, tal como retirar o -l- em should, would, talk, walk, etc. Portanto, nestes casos o -l- mantém-se.
De facto, para mim tudo isto é, para além de uma grande aberração, um enorme mistério.

11/27/2007

O acordo ortográfico (II)

Finalmente, estou a encontrar mais alguma (pouca) informação na imprensa sobre o acordo ortográfico a que me referi na semana passada neste blog. Não é sem tempo. Pelo que leio, Portugal garantiu à CPLP que aplicaria o acordo quando houvesse três países que o ratificassem, o que presentemente já sucede: o acordo foi ratificado por Brasil, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe.
Um professor da Universidade da Bahia (Brasil) afirma que o acordo, que ele conhece, é muito simples. Acentos considerados desnecessários desaparecem, consoantes mudas são abolidas e as três letrinhas que faltavam para que o nosso alfabeto ficasse igual ao dos ingleses - k, w e y - são adicionadas.
Sobre esta última adição nada tenho a dizer e até a saúdo. Aliás, supunha mesmo que ela já se tinha verificado (os dicionários modernos incluem o k, o w e o y. )
Quanto ao resto não sei se concordo, sem ver as regras estabelecidas. Se a forma diferente de pronunciar as palavras em cada país não for respeitada só para que haja uma uniformidade artificial, estou em absoluto desacordo. Repito o que disse no meu post anterior: não faz qualquer sentido uniformizar o que é diferente. Para quê? Porquê? Aliás, a nossa sintaxe é em muitos casos tão diferente da brasileira que ter todos os vocábulos grafados da mesma maneira é algo ridículo.
Informam-me que, no total, o novo acordo mexe com cerca de 0,4 por cento das palavras usadas no Brasil e com um pouco mais de 1 por cento da ortografia de Portugal. Ora, aqui já temos uma informação quantificada: planeia-se a mudança ortográfica de cerca de 3 vezes mais vocábulos usados em Portugal do que no Brasil! O que é que isso significa?
Dando como certa a informação de Jonuel Gonçalves, o já referido professor da Universidade da Bahia, óptimo passará a escrever-se ótimo e redacção transformar-se-á em redação. Que redacção passe a redação não acho muito grave, até porque ilação, que só se escreve com -ç- em português luso, pronuncia-se como se tivesse -cç-. Tal como inflação.
Estou a imaginar que, na mesma linha, vocábulos como acção, accionar, accionista, acta, actividade, activista, activo, acto, actor, actuar, actualização, actualmente, actuar, aspecto, atracção, baptista, baptizado, característico, colectivo, correcto, detectar, directamente, directo, director, efectivo, efectuar, eléctrico, electricidade, espectador, exactamente, exacto, factor, factura, impacto, incorrecto, infractor, inspector, pactuar, protector, respectivo, sector e transacção irão passar para ação, acionar, acionista, ata, atividade, ativista, ativo, ato, ator, atuar, atualização, atualmente, atuar, aspeto, atração, batista, batizado, caraterístico, coletivo, correto, detetar, diretamente, direto, diretor, efetivo, efetuar, elétrico, eletricidade, espetador, exatamente, exato, fator, fatura, impato, incorreto, infrator, inspetor, patuar, protetor, respetivo, setor e transação.
Há umas tantas palavras que me chocam sobremaneira e que, ao não respeitarem nem a etimologia nem a pronúncia, não só surgem aparentemente como incorrectas como irão causar problemas ortográficos na escrita de quem aprende línguas estrangeiras como o inglês e o francês. Se é verdade que director e diretor se podem ler da mesma forma, há algo cultural a faltar na segunda forma - algo que nem o francês nem o inglês abandonaram. Por que razão haveríamos nós de o fazer? Entretanto, para não-europeus esse substrato cultural pode contar menos do que para os europeus. Terão eventualmente uma visão mais pragmática, mais desapegada da etimologia. Tudo bem. Já hoje no Brasil se escreve atividade, por exemplo. Que os brasileiros continuem a fazê-lo, mas que não nos obriguem a segui-los.
Quanto à abolição de acentos, o que sucederá a palavras como polémica, económico, megalómano e quilómetros? No português falado no Brasil, a pronúncia destas palavras e de muitas outras faz-se com vogais fechadas. Daí que se escreva polêmico, econômico, megalômano e quilômetros. Qual será a solução? Se é abolido o acento, as palavras deixam de parecer esdrúxulas, como de facto são. Não se queira é mudar a pronúncia do português através da ortografia. Esta é que tem de acompanhar a oralidade tanto quanto possível, não o contrário.
Entretanto, tudo isto é cozinhado sem debate, num país que se intitula democrático! Foram os cidadãos de uma maneira geral e os professores em particular chamados a pronunciar-se? Não! O governo cala-se. Parece que só os livreiros é que se têm manifestado, e mansamente. Será que um caso destes, da nossa língua, serve apenas interesses comerciais? Muito mal vai o país se o governo oculta factos como este dos seus cidadãos!