5/31/2004

Nós e os Outros

Expliquem-me por que razão os muçulmanos que na Arábia Saudita atacam estrangeiros ligados a interesses petrolíferos são rotulados de terroristas enquanto os americanos que matam ou deixam mutilados dezenas de civis e destroem inúmeras casas no Iraque são apenas intervenientes em meras ocorrências de guerra -- aliás não declarada pelo país atacado. Expliquem-me por que motivo os bombistas-suicida palestinianos são terroristas e os pilotos de aviões israelitas que disparam indiscriminadamente sobre a população da faixa de Gaza são vistos como cumprindo apenas o seu dever.
"Não sou ateniense nem grego, sou cidadão do mundo", dizia Sócrates. Isso ainda quererá dizer alguma coisa, ou será que no mundo só os nossos são os bons e todos os outros são os maus?

5/30/2004

Bolos e Tolos

Muitos dos estrangeiros que vêm a Portugal e vêem registado nos menus dos restaurantes o pudim Molotof acham o nome engraçado. "Terá a ver com os cocktails Molotov que os rebeldes dos países de leste atiravam para dentro dos tanques russos?"
"É um pudim muito bom, doce, bastante popular em Portugal, mas não tem nada a ver com isso", explica solícito o empregado do restaurante.
Na realidade ele está enganado e são os turistas que estão certos na sua hipótese. O pudim Molotof entrou em Portugal no ano do 25 de Abril. Sob a influência das coisas russas, o nome original do pudim, que era Malakof, foi transformado num outro bem mais revolucionário. Neste sentido, ele é o doce mais explosivo que temos em Portugal.
A terminologia da guloseima esconde por vezes histórias curiosas. Um grande número de doces hoje característicos dos países católicos provieram dos conventos, onde as pobres monjas, proibidas de fazer sexo pelos seus votos de castidade, se desforravam nos bolos e em tudo o que possuísse mel ou açúcar como ingredientes. Os monges e os frades, pelo seu lado, confeccionavam óptimos licores, de onde sobressai em Portugal o popular licor de ginja -- a ginjinha. A que reproduz a da Abadia de Alcobaça é a mais famosa exactamente por esse motivo.
Os pastéis de Belém foram o produto de uma receita que os monges do Mosteiro dos Jerónimos, com sérias dificuldades materiais no século XIX, inventaram para poderem realizar algum dinheiro. A Casa dos Pastéis de Belém, perto do Mosteiro, considera-se a fiel depositária da monástica receita.
Tenho para mim que uns outros bolinhos famosos neste país também têm a sua ligação a uma história, desta vez real, i.e. ligada à realeza. Sucede que, no Portugal da segunda metade do século XVII, o rei Afonso VI teve alguns problemas com a bela princesa prima de Luís XIV com quem casara. Afectado anteriormente por uma meningite que o tinha incapacitado sexualmente, o pobre rei viu a sua amada mulher pedir a anulação do casamento para que pudesse desposar um outro homem: nem mais nem menos do que Pedro, o irmão do seu marido. Diz a lenda que, para o sossegar na imensa dor que o fez desgastar durante nove longos anos o mosaico do quarto-prisão no Palácio de Sintra, a sua ex-mulher, Rainha Maria Francisca de Sabóia, terá criado uns saborosos bolos a ele dedicados. O nome ? Palitos de la Reine.
A associação da família real portuguesa a bolos não se fina aqui. Na realidade, um bolo ainda popular nos dias de hoje está ligado a uma outra rainha portuguesa do mesmo século XVII. A pobre Catarina de Bragança, filha do mui ilustre Rei D. João IV e irmã do mencionado Afonso VI acima mencionado, serviu a causa portuguesa ao desposar o rei de Inglaterra, país que iria garantir protecção militar a Portugal depois da restauração da independência de 1640. Ao casar com Carlos II de Inglaterra, que lhe fez a vida negra com as muitas amantes por quem a trocou em parte por ela própria não poder ter filhos, Catarina penou muito por aquelas terras. Terras onde, aliás, terá introduzido o chá, as torradas e o tabaco. Na Inglaterra, chamam-lhe por este motivo a rainha dos três t's: Tea, tobacco, and toast. Tudo coisas agradáveis de meter na boca.
Ora quando o rei seu marido morreu, exausto de tanta patifaria sexual e fartas comezainas, a pobre Catarina regressou a Lisboa. Na sua bagagem, trazia largas quantidades de coisas inglesas, como catálogos de mobiliário e receitas. Justamente em homenagem a esta sua rainha, os portugueses criaram um bolo que, sendo no seu nome a corruptela da palavra inglesa cake, usa a massa inglesa e tem, muito apropriadamente, uma coroa real a toda a volta: o queque.

5/29/2004

Matriz de Acontecimentos (28 Maio)


Download do ficheiro das Sugestôes (28 Maio)

5/24/2004

Azul e rosa

A maior parte das pessoas continuam a admitir que a sociedade em que vivemos é tipicamente machista. Sê-lo-á ainda, porventura, mas é um facto que muito da hegemonia masculina já se perdeu. Antigamente era muito mais declarada.
Esta história remonta ao tempo das cruzadas, há cerca de 900 anos. Nessa altura, os cruzados europeus pretendiam retirar das mãos dos infiéis o Santo Sepulcro de Jesus Cristo, na Terra Santa. Para o efeito, organizaram várias expedições em nome da cruz onde Cristo dera a sua vida para salvar o mundo. Essas expedições, em que tomaram parte alguns monarcas como o famoso inglês Ricardo, Coração de Leão, foram denominadas ?cruzadas? e tiveram um forte impacto pelo contacto efectuado entre a Europa e o Médio Oriente.
Na Europa, se a figura de Cristo era importante nesse tempo, a de sua mãe ganhou uma notoriedade excepcional -- certamente não tanto como mulher mas sim como geradora e mãe de Jesus. O número de catedrais construídas em nome de Nossa Senhora, também chamada de Santa Maria, foi enorme por toda a Europa. A maior parte delas existem ainda hoje. Chamamos-lhe com alguma propriedade "os arranha-céus do passado", com as suas torres altíssimas, num estilo que depois foi apelidado de gótico. Notre-Dame de Paris e Santa Maria de Lisboa (a Sé) são apenas duas dessas catedrais. A nova arquitectura só foi possível graças aos conhecimentos de matemática e geometria que os europeus adquiriram das civilizações muçulmanas do Médio Oriente.
Nesses majestosos edifícios, que permitiam paredes mais finas do que as românicas e consentiam a abertura de largas janelas, inviáveis na técnica anterior, sobressaíam os vitrais, em que naturalmente a figura de Nossa Senhora era frequentemente representada. A cor que lhe atribuiam era invariavelmente a do céu: o azul. O famoso "azul de Chartres" é inultrapassável.
Foi então que ocorreu aos mentores das cruzadas honrar com a cor de Nossa Senhora os rapazes que nasciam: eles seriam os futuros braços que iriam defender para todo o sempre o Santo Sepulcro. Daí nasce a tradição de vestir os rapazes de azul, que se mantém até aos dias de hoje.
Perguntar-se-á: e qual foi a cor que deram às raparigas? Numa sociedade predominantemente masculina, não houve então qualquer preocupação em conferir uma cor específica às raparigas. Só muito mais tarde, no século XIX, na implementação dos três princípios básicos da Revolução Francesa -- Liberdade, Igualdade e Fraternidade -- é que a igualdade entre os dois sexos foi pela primeira vez alvo de manifestações públicas. E se os rapazes tinham a cor azul quando nasciam, que cor se deveria dar às raparigas? Escolheu-se uma cor nobre, a dos palácios reais e da nobreza da altura: o rosa. E assim ficou até hoje. Cor-de-rosa para as raparigas, azulinho para os rapazes.

5/23/2004

Falas de bichos

Os portugueses são muitas vezes apodados de melancólicos, tristes e sentimentais, e existirá porventura uma certa razão para este tipo de rotulagem. A roupa que o português médio usa não é também muito garrida, embora tenha havido nas últimas décadas uma considerável evolução neste domínio. Contudo, algo que os estrangeiros que nos visitam não podem negar é que um dos símbolos mais marcantes do país possui cores bem vivas: o galo de Barcelos. É só olhar e ver!
O que os visitantes não suspeitam é que o galo português canta de maneira bem diferente dos galos dos seus países. Ainda me terão de explicar bem um dia por que motivo o galarote lusitano se espevita todo com um cócórócócó, assim mesmo com os ós todos bem abertos, e o galo húngaro, por exemplo, se fecha num kukuriku. O galo francês fica a meio-termo: côcôricô. O inglês, como é hábito, diverge de todos e assalta-nos com um shakesperiano cock-a-doodle-do!
Como é evidente, os animais não fazem objectivamente sons diferentes num país ou noutro, mas o ouvido humano e a associação dos sons a palavras existentes na língua condicionam a forma como o bicho-homem reproduz o som emitido pelos outros bichinhos do universo.
O perú é outro dos casos. Um perú de boa cepa lusa cantará sempre da mesma forma: glu-glu! Do outro lado do Canal da Mancha os perús têm um som mais aberto: gobble-gobble. Já tentei a experiência com perús portugueses; cantei-lhes gobble-gobble e eles retorquiram-me imediatamente com o seu incontornável glu-glu. Donde se prova que mesmo neste reino há capacidade de entendimento entre as duas populações.
E os cães portugueses? À boa maneira do som nasalado dos sinos lusitanos com o seu tlin, tlão, os cães ladram ão-ão, mas só se forem grandes; béu-béu se forem pequenos. Não se espere imitação por parte dos congéneres britânicos -- imitação é apenas própria dos macacos. Assim, o cãozarrão inglês ou americano limitar-se-á a ladrar arf! arf!, sem qualquer conotação nasal, e o cãozito pequenote reduzir-se-á ao seu wau! wau!
Os exemplos não faltam: o carneirinho português entrega-se, deliciado, ao seu mé!... mé! ..., enquanto o britânico lança um angustiado bah! A vaca e o boi portugueses voltam à nasalação que já encontrámos atrás: mãããããã! O gato é que soa muito igual de ambos os lados do Canal: mewau (miau). Mesmo assim, entre nós reage ao chamamento de bch, bch, bch, que gatos britânicos habituados ao pussy pussy! no mínimo estranhariam.