6/06/2004

O Dilema

A Europa do poder -- a Alemanha, a França, a Rússia, inter alia -- encontra-se presentemente num dilema: aprovar ou não o novo plano dos Estados Unidos de uma maior intervenção da ONU no Iraque. Por um lado, não colaborar pode significar um agravar da situação, com consequências que atingem os próprios europeus, v.g. a alta dos preços do petróleo. Em contrapartida, colaborar implica automaticamente dar um aval à política de Bush e contribuir até para a sua (indesejada) reeleição. Ora, como grande parte da Europa gostaria que "a nação mais forte" recebesse uma lição exemplar pelo seu comportamento belicista, anti-democrático apesar de proclamado em nome da democracia, o dilema está criado.
Muitos europeus sentem que, desde a instalação das Nações Unidas em Nova Iorque após a 2ª Guerra Mundial, o sol passou a nascer a ocidente. Creio que devido à arrogância exibida pela América nos últimos anos, a Europa sentiria algum gosto em ver os Estados Unidos serem coagidos a praticar um acto de contrição. E isso não sucedeu ainda. Na Europa há muitos católicos que quando pensam reflexivamente nas palavras do Padre Nosso -- "perdoai-nos, Senhor, as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido" -- consideram, com alguma lógica humana, que se perdoarem as ofensas ao mais poderoso ele continuará muito provavelmente a cometer as mesmas ou até outras mais graves.
Dir-me-ão: "E onde está a defesa dos valores do Ocidente?" É um facto que a Europa e a América partilham muitos dos valores da civilização ocidental. Porém, o próprio Papa terá há dias lembrado a Bush que não estava muito de acordo com os seus princípios bélicos. Estaremos confrontados com a hipótese de um novo e inédito Cisma do Ocidente? Pelo menos, dá que cismar...

Sem comentários:

Enviar um comentário