3/24/2017

AS SUGESTÕES DO JOÃO MIGUEL

Transcrevo, e subescrevo, as palavras dum colega e Amigo após ouvirmos Les nuits d’été, de H. Berlioz, cantadas por Christian Gerhaher:
Abençoado Jorge Calado que nos alerta para estas coisas! (referia-se à entrevista publicada no Expresso do dia 11 pp)

Foi um concerto espantoso até porque a Jugendorchester é mesmo boa como disse o já referido extasiado: … não é preciso sermos condescendentes com o facto de serem jovens …

A Antena 2 gravou este concerto (18 de Março, G A da Gulbenkian). Se se aperceber da sua difusão, avise-me (sff) com a maior antecedência possível para o poder anunciar.

A decorrer

Já estão à venda os bilhetes para os Dias da Música 2017 (Centro Cultural de Belém, 28, 29 e 30 de abril), edição dedicada às relações entre as letras e a música.

Dias 25 e 26, a partir das das 14h, no Jardim da Estrela, Festa da Francofonia
 De 25 de Março a 2 de Abril, LisbonWeek 2017: Lumiar
 De 30 de Março a 2 de Abril, sessões de apresentação do livro:
Azulejos – Maravilhas de Portugal. Raramente refiro este tipo de eventos, mas desta vez justifica-se porque a sessão do dia 2, às 11h00, ocorre no Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões … (detalhes em http://www.centroatlantico.pt/titulos/artes/azulejosmaravilhas )
 Até dia 29, na Academia das Ciências, ciclo A moeda conta a história
(detalhes: http://www.acad-ciencias.pt/agenda/evento/144 )
 2º (orientado por Alexandre Pais, na Casa de Santa Maria, Cascais, 9 sessões, às 18h30, das quartas-feiras de Abril e Maio; 60 €)
 Até dia 30, Semana do Piano, em Braga (Artur Pizarro, dia 25; Pedro Burmester, dia 30; 5€)

Sexta-feira, dia 24

às 9h02, na Mezzo, Golden Gate Quartet - Jazz à Vienne,
 às 11h07, na RTP2, Cara a Cara: Callas vs Tebaldi (55')
 às 14h00, na RTP2, Flavors – Rajastão (52')
 às 15h19, na Mezzo live HD, Gautier Capuçon et Frank Braley interprètent Beethoven à la Philharmonie de Paris (88’)
 às 18h30, no Salão Nobre dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lisboa, Poulenc e Honegger, com a Orquestra Académica Metropolitana
 às 20h00, no Claustro do Convento de N. Srª da Graça, Torres Vedras, Sopas de Pedra (jantar-colóquio): O Largo (12,5€; reservas 261 320 736 ou arquivo@cm-tvedras.pt)
 às 21h30, no Auditório da Biblioteca Municipal de Oeiras, Livros Proibidos em Portugal – Corpo e Identidades: O Amante, de Marguerite Duras, com Ana Gomes e Ricardo Costa (moderador) (0 €)
 às 22h36, na RTP Memória, Um dia com …Lourdes Castro
 às 24h00, na RTP Memória, Ana de Castro Osório
 às 26h19, na TV5, #versionfrançaise (magazine; 28’)

Sábado, dia 25

às 10h00, no Museu de São Roque, Itinerários da Fé - percurso do Bairro Alto (Igreja de São Roque, Convento de São Pedro de Alcântara, Convento dos Cardaes e Igreja de Santa Catarina) (0€; inscrição prévia pelo 218 879 549)
 às 10h30, o LNEC abre as suas portas na comemoração dos 70 anos (0€; inscrição prévia 218 443 478/218 443 697)
 às 12h10, na TSF, Encontros com o Património: Uma semana à descoberta do Lumiar: Lisbon Week
 às 13h00, na TV5, Tendance XXI (magazine; 28’) *
 às 13h05, na Mezzo live HD, Avishai Cohen quartet - D'Jazz Nevers (com A. Cohen no trompete; 56’)
 às 13h27, na TV5, Maisons d'Ailleurs – New York (14’)
 às 14h00, na RTP2, Lucky Luke (documentário; 52')
 às 16h00, no Museu Gulbenkian/Coleção Moderna, À conversa com a curadora Penelope Curtis sobre a exposição Portugal em Flagrante (6€)
 às 16h06, na TV5, 300 Millions de Critiques (magazine; 55’)
 às 16h43, na RTP Memória, A Itália através da objectiva – Roma (1/3)
 às 18h00, na Livraria Almedina Atrium Saldanha, Recordar os Esquecidos (evocação de livros e autores que caíram no esquecimento), com Luís Carmelo e Paulo Moreiras (0€)
 às 18h00, no Palácio Marquês de Pombal, Oeiras, Tarde Musical (Luigi Boccherini, Fernando Carulli e Carlos Paredes), com Sándor Mester (guitarra), Gergana Bencheva (violino), Lilit Khachatryan (violino), Jean Aroutiounian (viola) e Tiago Ribeiro (violoncelo) (3€)
 às 21h00, no Palácio da Pena, Sintra, serão musical: Johannes Brahms:
A bela Magelone, com Lígia Roque (narração), Christian Hilz (barítono) e Tatiana Korsunskaya (piano) (10€)
 às 21h30, na Igreja Matriz de Santiago Maior, Santiago do Cacém, Festival Terras sem Sombra, Perpétuo Movimento: Em torno d’A Arte da Fuga (Carlo Gesualdo, György Kurtag, J. S. Bach, Sofia Gubaidulina e Benjamin Britten), pelo Brentano String Quartet (0€)
 às 23h15, na RTP2, Nom ou a Vã Glória de Mandar, de M. Oliveira
 às 24h27, na Mezzo live HD, Avishai Cohen quartet - D'Jazz Nevers (com A. Cohen no trompete; 56’)
 às 25h00, os relógios adiantam 1 hora (passarão a ser 26h00; para quem fechar o dia à meia noite, serão 2h00 do dia 26)

Domingo, dia 26

às 10h30, na ARTE, Metropolis: Saint-Gall (44’) **
 às 11h00, no Museu Gulbenkian/Coleção Fundador, visita orientada: À mesa com os povos – piqueniques e rituais de recomeço (6€)
 às 17h05, na ARTE, Jardins, paradis des Artistes (52’) **
 às 17h30, na Igreja do Mosteiro dos Jerónimos, Concerto de Órgão – Homenagem a J. S. Bach, com António Esteireiro e Sérgio Silva (0€)
 às 22h00, na Antena 2, O Prazer da Performance, por Nuno Vieira de Almeida: Palavra e intensidade - Callas, Schwarzkopf, Amália

Segunda-feira, dia 27

no Teatro D. Maria II, celebração do Dia Mundial do Teatro: às 14h, visita guiada à exposição Teatro em cartaz: A coleção do D. Maria II, 1853-2015; às 16h e 19h, Ethica. Natura e origine della mente, de Romeo Castellucii; às 20h, conversa entre Romeo Castellucci e José Tolentino de Mendonça; às 21h, Tiranossauro Rex, de Alex Cassal, às 21h30, Ensaio para uma cartografia, de Mónica Calle (2 bilhetes per capita, a partir das 10h30; 0 €)
às 14h00, na RTP2, Flavors – Monte Branco (52')
às 17h30, no Auditório da Biblioteca da F. Ciências Tecnologia, Universidade Nova, Caparica, concerto (bandolim, cavaquinho e bouzouki), por Luís Peixoto (0€)
às 18h00, no Palácio Foz, recital de piano (J. S. Bach e F. Schubert), por Gérard de Botton (0€)
às 20h30, na Igreja de São Luís dos Franceses (Beco de São Luís da Pena nº34, perto das portas de Santo Antão), conferência: La Résurrection du Christ dans l'art, por François Boespflug e Emanuela Fogliadini
às 23h00, na Rádio Renascença, Edição da Noite vai incluir a gravação da sessão de Obra Aberta (dia 23, no CCB) com Sérgio Godinho e Nuno Saraiva

Terça-feira, dia 28

às 14h00, na RTP2, Flavours – Irão (52')
às 15h00, na TV5, #versionfrançaise (magazine; 28’)
às 17h00, na Academia das Ciências, conferência do ciclo A moeda conta a história: A moeda como valor comercial, por Javier Salgado
às 17h05, na Mezzo live HD, Avishai Cohen quartet - D'Jazz Nevers (com A. Cohen no trompete; 56’)
às 18h00, no Auditório 2 da Gulbenkian, ciclo Conferências do Chiado:
O papel da Investigação e da Inovação no crescimento sustentável de Portugal, por Artur Santos Silva (0€)
às 18h30, na Culturgest, conferência do ciclo Justiça Ambiental e Ambiente Justo: Da razão e da ação - um futuro para a cidadania ambiental, com Luísa Schmidt (0 €; senhas a partir das 18h00, com transmissão em http://www.culturgest.pt/)
às 21h00, no RTP2, Literatura Aqui
às 21h30, na Casa-Museu Medeiros e Almeida (entrada pela Rua Mouzinho da Silveira, 4), Sempre nós: Para Além da Taprobana, Raquel Abecasis, Luís Miguel Cintra e Francisco Seixas da Costa (0€)
às 24h40, na ARTE, Philosophie – Grandeur et misère de l’antiracisme (27’) **

Quarta-feira, dia 29

às 13h00, na Antena 2, O Prazer da Performance, por Nuno Vieira de
Almeida: Palavra e intensidade - Callas, Schwarzkopf, Amália
às 13h00, na TV5, Sur Les Traces De... - Salvador Dali (magazine; 52’)
às 14h00, na RTP2, Flavours – Punjab (52')
às 18h00, no Museu Nacional de Arte Antiga, obras em foco 2017: O Canal Grande a partir do Campo San Vio (1723), de Canaletto (0 €)
às 18h00, na Sala 5.2 da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, palestra: O Azulejo em contexto - a casa senhorial, com Hélder Carita e Ana Paula Rebelo Correia (0 €)
às 18h00, na Sala do Conselho da União de Associações do Comércio e Serviços (Rua Castilho, 14), conferência do ciclo Lisboa - do Terramoto à Revolução de Abril: Lisboa Conventual - Reconstrução Digital de património Arquitetónico, por Ana Gil
às 18h30, na Casa-Museu Medeiros e Almeida, conferência do ciclo De Fora Para Dentro: 3 Ushebtis na Colecção, por L. Araújo e A. Cunha da Silva (0€)
às 19h59, na TV5, Des Racines & des Ailes – En Normandie, du Mont-Saint-Michel au pays de Caux (110’)
às 20h35, na Mezzo live HD, Avishai Cohen quartet - D'Jazz Nevers (com A. Cohen no trompete; 56’)
às 21h30, na Cinemateca, Viridiana, de L. Buñuel
às 22h42, na Mezzo, Golden Gate Quartet - Jazz à Vienne,
às 23h00, na RTP2, Le Douanier Rousseau (documentário sobre Henri Rouseau; 52')

Quinta- feira, dia 30

às 9h05, na Mezzo live HD, Avishai Cohen quartet - D'Jazz Nevers (com A. Cohen no trompete; 56’)
às 14h00, na RTP2, Flavors – Maramures (52')
às 18h00, na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, Conversas na Paisagem
2017: caminhar na paisagem, com Maria Aires Silveira Silveirinha e Tiago Veiga (0€)
às 18h00, no Auditório 3 da Gulbenkian, ciclo Conheçer uma obra – guia de audição: Igor Stravinsky - Sinfonia em três andamentos, por Sérgio Azevedo (0€)
às 18h30, na Sociedade Portuguesa de Autores, Ludwig van Beethoven, com os solistas da Metropolitana: Anzhela Akopyan (violino) e Savka Konjikusic (piano) (0 €)
às 18h30, na Biblioteca da Imprensa Nacional – Casa da Moeda (Rua da Escola Politécnica, 135), Quartetos com Flauta de Mozart, com os solistas da Metropolitana: Nuno Inácio (flauta), Rui Antunes (violino), Sérgio Sousa (viola), Carolina Freitas (violoncelo) (0€)
às 19h00, no El Corte Inglés (Restaurante, Piso 7), Temporada de Concertos de Música de Câmara do Âmbito Cultural do El Corte Inglés:Boccherini, Dvořák (quintetos de cordas), com os solistas da
Metropolitana: Joana Dias (violino), Daniela Radu (violino), Valentin Petrov (viola), Carolina Ferreira (violoncelo), Vladimir Kouznetsov (contrabaixo) e comentários de Alexandre Delgado (0€, inscrição: Ponto de Informação, Piso 0, ou relacoespublicas@elcorteingles.pt)
 às 19h15, numa sala de cinema UCI no El Corte Inglês e no Arrábida Shopping, transmissão da ópera Madama Butterfly, de G. Puccini, produção da Royal Opera House (13,70€)
 às 19h30, na Mezzo, Hal Singer Quintet 1970 - Jazz Archive (45’)
 às 22h50, na Mezzo, The Spring Quartet au Théâtre du Châtelet
 às 23h00, na RTP2, Men at Lunch (documentário relativo à famosa foto; 52')
 às 24h12, na TV5, 300 Millions de Critiques (magazine; 55’)
 às 25h00, na RTP2, Lucky Luke (documentário; 52')

A seguir:

Dia 31, às 11h05, na RTP2, Café de Artistas (documentário; 55')

Dia 31, às 13h00, nos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lisboa, Quartetos com Flauta de Mozart, com os solistas da Metropolitana: Nuno Inácio (flauta), Rui Antunes (violino), Sérgio Sousa (viola), Carolina Freitas (violoncelo) (0€)

Dia 31, às 19h00, na Cinemateca, Cotton Club, de F. F. Coppola

Dia 31, às 20h00, no Auditório 3 da Gulbenkian, ciclo Conheçer uma obra – guia de audição: Johannes Brahms – Concerto para Piano e Orquestra n.º 2, por Paulo Ferreira de Castro (0€)

Dia 31, às 20h00, no Claustro do Convento de N. Srª da Graça, Torres Vedras, Sopas de Pedra (jantar-colóquio): O Largo na Literatura (12,5€; reservas 261 320 736 ou arquivo@cm-tvedras.pt)

Dia 31, às 21h00, na Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, recital de cravo, por Marco Mencoboni (0€)

Dia 31, às 21h30, na Igreja do Beato: Boccherini, Dvořák (quintetos de cordas), com os solistas da Metropolitana: Joana Dias (violino), Daniela Radu (violino), Valentin Petrov (viola), Carolina Ferreira
(violoncelo) e Vladimir Kouznetsov (contrabaixo) (0€)

Dia 1, às 15h30, no Auditório da Biblioteca da F. Ciências Tecnologia, Universidade Nova, Caparica, conferência do ciclo Almada Negreiros e a
Matemática: A Matemática de O Número, por Luís Trabucho

Dia 1, às 16h00, na Igreja Paroquial de Paço de Arcos, Concerto de Páscoa (J. S. Bach e G. P. Telemann), com Sara Afonso (soprano), Inês Madeira (mezzo soprano), Carlos Monteiro (tenor), Armando Possante (barítono), Coro de Câmara Lisboa Cantat e a Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, direcção de Nikolay Lalov (0€)

Dia 1, às 21h30, na Igreja de São Maximiano Kolbe (Marvila), Quartetos com Flauta de Mozart, com os solistas da Metropolitana: Nuno Inácio (flauta), Rui Antunes (violino), Sérgio Sousa (viola), Carolina Freitas (violoncelo) (0€)

Dia 1, às 26h05, na RTP2, Café de Artistas (documentário; 55')

Dia 2, às 16h00, no Auditório Senhora da Boa Nova, Galiza – Estoril, Concerto de Páscoa (J. S. Bach e G. P. Telemann), com Sara Afonso (soprano), Inês Madeira (mezzo soprano), Carlos Monteiro (tenor), Armando Possante (barítono), Coro de Câmara Lisboa Cantat e a Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, direcção de Nikolay Lalov
(0€)

Dia 2, às 16h00, na Basílica do Palácio Nacional de Mafra, concerto a seis órgãos (3 €, reservas: 261 817 550)

Dia 3, às 13h00, na TV5, Des Racines & des Ailes – En Normandie, du Mont-Saint-Michel au pays de Caux (110’)

Dia 3, às 20h30, na Igreja de São Luís dos Franceses (Beco de São Luís da Pena nº34, perto das portas de Santo Antão), concerto coral pela Maîtrise des Petits Chanteurs d'Antony

Dia 3, às 21h30, na Casa da Achada, sessão do ciclo Um Homem na Revolução – Mário Dionísio e a RTP: A Linha Geral, de Sergei Eisenstein (0 €)

Dia 4, às 18h00, no Palácio Foz, recital de piano (J. S. Bach), por Duarte Martins Pereira (0€)

Dia 4, às 21h30, na Casa-Museu Medeiros e Almeida (entrada pela Rua Mouzinho da Silveira, 4), Sempre nós: António Correia de Campos, Filipe de Sousa Magalhães e Higino Cruz (0€)

Dia 6, às 18h30, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa, ciclo de cinema As Imagens Reencontradas: Senso, de Luchino Visconti
(0€)

De 6 a 12, Festa do Cinema Italiano, (no dia 7, numa sala de cinema UCI no El Corte Inglês: Firenze e gli Uffizi, un viaggio nel cuore del
Rinascimento)

Dia 7, às 23h00, no Centro Cultural e de Congressos de Caldas da Rainha, Café-Concerto pelo Cassete Pirata (0€)

Consulte, também, a matriz de exposições (ficheiro anexo).

Esta informação está disponível, e é actualizada, no blog http://azweblog.blogspot.com e no facebook (
https://www.facebook.com/pages/Sugestôes/582224458542163 )

Bom fim de semana!

 JMiguel          

  
* Depois da emissão fica disponível em
http://www.tv5mondeplus.com/toutes-les-videos

** Depois da emissão talvez fique disponível em http://www.arte.tv/guide/fr/plus7/?country=PT


6/17/2014

Forma e Substância

          Creio que mesmo se Antero de Quental tivesse vivido um século mais tarde, ele não iria em futebóis. Para o malogrado escritor e pensador, possivelmente o actual Campeonato do Mundo que se está a realizar no Brasil passaria praticamente ao lado. No entanto, o que há dias sucedeu no Espanha-Holanda e hoje ocorreu no Portugal-Alemanha não pôde deixar de me fazer lembrar as teses de Antero expostas na sua famosa comunicação sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. É que a Espanha, aureolada com o pesado título de campeã do mundo, se viu destroçada por uma Holanda voluntariosa e combativa que logrou o espantoso resultado de 5-1. No jogo que Portugal disputou há horas com a Alemanha, o que aconteceu não foi tão diferente assim. O resultado final de 4-0 não tem discussão.

          E assim os dois povos peninsulares foram copiosamente batidos por dois países do Norte da Europa. Na sua famosa comunicação sobre o atraso peninsular, Antero referia-se, como todos sabemos, à Contra-Reforma, que comparou desfavoravelmente com a Reforma Protestante, à Monarquia Absoluta castradora de liberdade e de espírito de iniciativa, e ao sistema económico que derivou dos Descobrimentos e respectivas colónias (há bens que vêm por mal). 

          Pergunta-se: e o que é que isto tem a ver com o futebol? Nada, pelo menos aparentemente. Mas há um ponto, que creio ter sido também intuído por Antero, que é a diferença entre o primado da forma e o primado da substância. Geralmente, os países do Sul continuam a defender muito o primado da forma, o que os faz falarem e escreverem muito – e no futebol gesticular e discutir as decisões dos árbitros -, prestando menos do que a atenção devida à substância. No jogo de Portugal, conforme transmitido e relatado pela RTP1, foi notória a constante intervenção do locutor sobre um programa do canal que ninguém deveria perder, onde a posteriori se discutiria tudo sobre o jogo, com as melhores declarações, entrevistas e comentários. Bla, bla, bla, bla. O que é isto senão a forma? Entretanto, usando a mesma atitude de apreço primordial pela substância, os alemães iam impiedosamente caminhando para a nossa baliza, coleccionando golos. Originalmente, “goal”, de onde deriva a palavra portuguesa “golo”, significa “objectivo”, e esta é a substância da questão.

          Como português e também como cidadão ibérico custou-me muito ver os dois países da Ibéria serem estrondosamente derrotados por dois países do Norte europeu, mas sou forçado a reconhecer que a superioridade dessas duas equipas foi inegável. Todos sabemos que no futebol podem existir grandes surpresas, mas nos dois encontros em apreço foi menos o milagre e mais a realidade que se impôs. 

5/16/2014

Fugir do Paraíso?


            No final da década de ’60 e no início dos anos ’70 do século passado, houve uma enorme vaga de emigração portuguesa para a Europa. Para o Brasil já tinha sido comum. Para os Estados Unidos e Canadá era algo mais recente. Mas para a Europa e com tal força aquela onda emigratória era inédita. Os anos ’60 e início dos ’70 coincidiram com a Guerra Colonial, mas esta esteve longe de ser a grande força motriz por trás da debandada de portugueses para França, Alemanha, Luxemburgo e outros países da Europa. Os baixos salários que os trabalhadores auferiam em Portugal quando comparados com os que eram pagos no estrangeiro falaram mais alto e levaram muitos e bons braços da terra portuguesa para fora da pátria.
            Curiosamente, essa foi também a altura em que o Portugal turístico, que era então em imagens publicitárias “o segredo mais bem guardado da Europa” atingiu (em 1964) o seu primeiro milhão de visitantes estrangeiros, número largamente superado anos depois.
            De entre os locais descobertos para o turismo sobressaía, como alguns se lembrarão, o nosso Algarve. O Algarve era publicitado como um paraíso de sol e de tranquilidade para visitantes endinheirados. Porém, mesmo do Algarve saíam centenas de emigrantes para os países europeus. Este facto levou a certa altura o Bispo do Algarve a comentar ironicamente que podia imaginar o gosto de alguém em largar o Inferno, mas que lhe era extremamente difícil entender que alguém estivesse interessado em abandonar o Paraíso. Tinha a sua lógica o comentário do Bispo.
            Embora a História, como se sabe, não se repita, é um facto que ela muitas vezes rima. Presentemente, os arautos do Governo português proclamam que a sua governação tem sido um sucesso; que a economia está a dar a volta e a recuperação já começou; que as exportações têm aumentado substancialmente; que, ao contrário do que muita gente esperava, o Governo se decidiu por uma “saída limpa”, calando assim as calhandras que só falavam de desastres. Voltámos à narrativa do Paraíso português!
            Ora, parece que de maneira algo semelhante àquela que levou tantos trabalhadores algarvios a emigrarem do seu Paraíso nas décadas atrás mencionadas, também agora é do Paraíso português propalado pelo actual Governo que duas conceituadas instituições financeiras decidem cessar a sua actividade em Portugal, i.e. abandonar o Paraíso. As duas instituições são sobejamente conhecidas. Uma delas é o Banco Barclays, a outra o BBVA (Banco Bilbao Vizcaya Argentaria). O primeiro está em Portugal há pelo menos 40 anos; o segundo está entre nós há um número inferior de anos: apenas há 23. Segundo o jornal espanhol El País, a operação portuguesa não oferece a rentabilidade esperada. É talvez um pouco mais do que isso, diga-se: nos últimos três anos de actividade em Portugal, o BBVA registou perdas que chegaram aos 133 milhões de euros. Para paraíso não está mal.
            Será que tanto os trabalhadores algarvios de há décadas como os bancos internacionais aqui referidos são insensíveis aos encantos do Paraíso?

5/06/2014

"A gente" e "as pessoas" serão uma e a mesma coisa?


O dicionário de língua portuguesa que geralmente uso diz-me, entre outras acepções do termo, que “gente” é um conjunto de pessoas, o género humano, a humanidade, o povo. É de facto esta a noção que a maioria de nós tem relativamente à palavra. Logo, pode parecer à primeira vista que “as pessoas” e “a gente” são a mesmíssima coisa. Talvez não seja bem assim.  

Na utilização linguística que vemos e ouvimos todos os dias, “a gente” surge-nos geralmente em expressões positivas, desculpantes ou vitimizadoras para quem fala. Há, portanto, uma tendência para nos incluirmos no “a gente” a que nos referimos. Exemplificando:

“Se a gente não é informada da razão do atraso na partida do avião, como é que podemos saber o que se passa?”
“Se não houver saída por esta rua, a gente vai lá por trás, por umas travessas, e sai na mesma.”
“O Governo precisa de dinheiro e a gente é que paga.”
“A gente” é geralmente sinónimo de “uma pessoa”, expressão que é também positiva e na qual igualmente tendemos a incluir-nos.
“Como é que uma pessoa pode decorar isto tudo – duzentas páginas - para um exame?”
“E depois querem que uma pessoa não proteste!”
“Como é que querem que uma pessoa possua sentido crítico, se na escola não nos ensinam a pensar criticamente, a pôr as coisas em dúvida?”

            Pelo contrário, quando utilizamos – e fazemo-lo com grande frequência – a expressão “as pessoas”, colocamo-nos geralmente de fora e tendemos a expressar uma crítica, na qual nos incluímos apenas como bom elemento observador e não como alvo da opinião geralmente negativa que é expressa. Exemplificando:
          
                “As pessoas estão a ficar cada vez mais porcas. Agora nem põem o lixo nos contentores.”
            “As pessoas estão todas a monte aqui à frente no autocarro, quando há tantos lugares vagos lá atrás!”
            “As pessoas agora não sabem nada de História ou de Geografia de Portugal. No meu tempo sabíamos tudo de cor e salteado.”
            “As pessoas agora não querem trabalhar. Preferem receber subsídio de desemprego.”
          
           Como no nosso país criticar há muito que se transformou numa instituição nacional, quando ouvimos alguém usar “as pessoas” como sujeito de uma oração sabemos antecipadamente que vamos ter algo reprovativo. Em princípio não ofende ninguém em particular ou, visto de outro ângulo, atinge toda a gente, com clara e óbvia excepção de quem formula a censura, que se arvora em professor ou professora do povo: se pudesse, endireitaria este mundo e o outro. Infelizmente, não pode. À guisa de compensação, invectiva tudo e todos.
            
          
Se prestarmos atenção, encontraremos este quadro em muitos lados e em variadíssimas ocasiões. E se a nossa atenção for implacável, talvez nos encontremos também nós próprios a pintar esse quadro de “as pessoas”.

4/20/2014

AGUENTAR OU NÃO, EIS A QUESTÃO


          Num dos pelotões militares que, como oficial miliciano, me atribuíram para a obrigatória recruta, encontrei um soldado que era na altura campeão nacional de 5 000 metros. Nas boas instalações que tínhamos no quartel, ele treinava diariamente ao ar livre a sua corrida, de uma maneira que para mim constituiu alguma novidade: corria 100 metros para um lado, descansava uns segundos, corria 100 metros em sentido contrário, e ali estava um ror de tempo exercitando-se sem cansaço aparente. Eu tinha na altura uma razoável preparação física e, falando com ele, admiti que não aguentaria treinar durante tanto tempo. “É preciso praticar”, dizia-me ele. “Depois aguenta-se melhor.” Era o clássico conceito de Practice makes perfect aplicado à corrida. “Mas há uns que aguentam melhor e outros que não aguentam mesmo”, contestei eu. O soldado, que corria por um dos grandes clubes do país, admitiu naturalmente que isso também era verdade e confessou-me, a meu pedido, onde é que arranjara aquela resistência toda: “Fiz muito contrabando lá na minha terra. Tinha que percorrer grandes distâncias.”

          De facto, a prática é muito importante, mas só testando as pessoas se vê se elas aguentam ou não um determinado esforço. Mudando de agulha neste discurso, quero lembrar que o Governo do nosso país nos tem aplicado doses maciças de impostos e de cortes nos rendimentos que vêm testando a nossa capacidade de suportar esses esforços. 

        Aumentou a pobreza no país, o desemprego tornou-se uma praga, foi reduzida a assistência na doença mas, melhor ou pior, o povo tem na generalidade aguentado o sacrifício. Tem crescido o número de suicídios e divórcios, tem diminuído o número de crianças nascidas, morre-se em Portugal mais do que se nasce. Mas há ainda muita gente que vem aguentando, gente que parece ser em número demasiado elevado na óptica do Governo. O ideal era que desaparecessem mais pessoas, através de morte natural ou auto-infligida, ou através da emigração para outras paragens.

          Todavia, o Governo, que se preocupa primordialmente com as contas públicas e tem os seus alvos fiscais preferidos, já pode dizer agora, após três anos de experiências agravadamente repetidas, que os esforços apodados de temporários vão passar a definitivos. A prática mostrou que há muita gente que os aguenta, pelo que não há argumentos que possam destruir os factos.

          O “aguenta, aguenta!”, que se tornou célebre depois de saído da boca de um conhecido banqueiro português, não consistiu apenas em palavras. Foi todo um processo para verificar as reacções e os respectivos resultados.

          O antigo soldado do meu pelotão tinha razões de sobra para confiar na prática do treino.