11/17/2017

AS SUGESTÕES DO JOÃO MIGUEL

A programação da RTP2 é muito «instável»: o documentário anunciado para as às 23h00, de ontem, Gauguin, A La Recherche des Paradis Perdus, foi substituído por Bansky, Pinta a Parede …
O concerto Brasil de Todos os Ritmos, dia 17 na Fábrica Braço de Prata, também mudou de horário
Bolsa de Bilhetes (atribuíveis por ordem de chegada dos pedidos por mail, indicar telemóvel para contacto):
dia 2/12/2017, às 19h00, na Gulbenkian, esgotado, András Schiff (1 bilhete, 28€)
A decorrer
Dias 17 a 18, das 11h às 19h, no Centro de Congressos de Lisboa (antiga FIL; Junqueira), Bazar Diplomático (?€)
Dias 18 e 19 no Convento dos Cardaes, Natal Solidário: Brunch (das 11h00 às 15h), Chá (das 15h30 às 19h) e Loja (das 12h30 às 19h)
Até dia 19, às 21h30 (dia 19, às 18h00, no Palácio do Sobralinho, Sobralinho, Vila Franca de Xira, Tabacaria - ópera de câmara sobre o texto de Fernando Pessoa; música Luís Soldado: encenação Alexandre Lyra Leite; direcção musical Rui Pinheiro;Inês Simões (soprano) e Rui Baeta (barítono)( 10€ através de https://artesnopalacio.com/agenda/reservas/
Até dia 19, 29ª Temporada de Música em São Roque
Dias 22 e 23, na Biblioteca Nacional de Portugal, colóquio O Modernismo como Obstáculo (0€; inscrição prévia)
De 23 a 26, das 12h às 23h (dia 26 fecha às 18h), no Centro de Congressos de Lisboa (antiga FIL; Junqueira), Rastrillo 2017 (Feira de Solidariedade Novo Futuro) (?€)
Até dia 30, Dias do Desassossego’17 ( https://diasdodesassossego.org/ )
Sexta-feira, dia 17
às 19h00, na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, recital de cravo (sonatas de Francisco Xavier Baptista, da colecção Dodeci Sonate), por José Carlos Araújo (cravo) (senhas a partir das 18h00; 0 €)
às 21h30, no Grande Auditório da Gulbenkian, ciclo Solistas da Orquestra Gulbenkian (Mozart e Brahms) (0 €)
às 22h30, na Fábrica Braço de Prata, Brasil de Todos os Ritmos, pelo quarteto Corda & Canto (Maria Eugênia, Luiz Chaffin, Pedro Braga e Edilson Morais) comentários (referentes à genealogia e cronologia da música popular brasileira) pelo Embaixador Lauro Moreira
às 22h30, na Mezzo, Thelonious Monk Quartet – Bruxelles 1965 (29’)
às 22h56, na Mezzo, Thelonious Monk Quartet – Bruxelles 1963 (29’)
Sábado, dia 18
às 10h00, no Largo da Sé, Itinerários da Fé - percurso da Baixa (Sé, Igreja da Madalena, Igreja da Conceição Velha, Igreja de São Nicolau, Ermida de Nossa Senhora da Oliveira) (0€; inscrição prévia pelo 218 879 549)
às 12h00, na Casa-Museu Medeiros e Almeida, Sábados no Museu (visita guiada de 1h) (0€)
às 12h00, na Antena 2, Musica Aeterna - nos 300 anos do lançamento da primeira pedra do Palácio Nacional de Mafra música de compositores da Capela Real, da Santa Basílica Patriarcal e da corte ao tempo de D. João V (parte I), por João Chambers
às 12h10, na TSF, Encontros com o Património: Os nossos Coches
às 12h59, na TV5, Secrets d'Histoire - Churchill, le lion au coeur tendre (100’)*
às 13h05, na Antena 1, Radicais Livres, com Ruben de Carvalho e J. N. Pinto
às 14h58, na TV5, Tendance XXI: Malles Moynat / Bijhorca / Stéphanie Coutas (magazine; 28’)*
às 15h00, na Sala Literatura e Pensamento do CCB, Dia Literário: Raul Brandão (0€)
às 15h59, na TV5, 300 Millions de Critiques (magazine; 55’)
às 17h00, no Fórum Lisboa, Insisto não ser tristeza, concerto dos 30 Anos da AJA (Associação José Afonso), com Francisco Fanhais e (muitos) outros (10 €, reservas por associacaojoseafonso@gmail.com)
às 18h00, no Museu da Música Portuguesa - Casa Verdades de Faria, Monte Estoril, Grandes Obras da Música de Câmara (A. Schnittke e F. Schubert), com Solistas da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras: Ricardo Mendes (violino), Ana Elisa Ribeiro (violino), Zhanna Antonyuk (viola) e Tiago Ribeiro (violoncelo) (3€)
às 19h50, na ARTE, Les secrets du Parthénon (80’) **
às 21h30, no Teatro Stephens, Marinha Grande, Mário Laginha Trio
Domingo, dia 19
às 10h50, na ARTE, Metropolis: Saragossa (43’) **
às 13h55, na TV5, # Version Française (magazine; 26’) *
às 15h15, na ARTE, Les secrets du Parthénon (80’) **
às 16h00, na Antena 2, Musica Aeterna - nos 300 anos do lançamento da primeira pedra do Palácio Nacional de Mafra música de compositores da Capela Real, da Santa Basílica Patriarcal e da corte ao tempo de D. João V (parte II), por João Chambers
às 16h35, na ARTE, Les grands duels de l'art - Le Caravage vs Baglione (52’) **
às 17h00, no Centro Cultural de Cascais, concerto (S. Prokofiev, M. Glinka e J. Brahms), pelo Moscow Piano Quartet (5€)
às 17h00, no Palácio dos Aciprestes, Linda-a-Velha, Grandes Obras da Música de Câmara (A. Schnittke e F. Schubert), com Solistas da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras: Ricardo Mendes (violino), Ana Elisa Ribeiro (violino), Zhanna Antonyuk (viola) e Tiago Ribeiro (violoncelo) (0€)
às 21h00, na RTP2, História a História África – O Colonato do Limpopo (30’)
às 23h05, na RTP2, Raízes: Francisco de Zurbarán, Pintor do Barroco Espanhol (45’)
às 23h05, na Mezzo, Avishaï Cohen New York Division Jazz à Vienne
às 26h06, na Mezzo, Keith B Brown - Strasbourg Jazz Festival (63’)
às 26h35, na ARTE, La femme est l'avenir de l'art - Gabriele Münter (1877-1962) (54’) **
Segunda-feira, dia 20
às 11h20, na RTP2, Goya (52’)
às 12h59, na TV5, Des Racines & des Ailes – Rois et bâtisseurs (110’) *
às 22h55, na RTP2, Visita Guiada – Pintura de Almada Negreiros nas Gares Marítimas (40’)
às 24h10, na Antena 1, Crónicas da Idade Mídia, com Ruben de Carvalho
Terça-feira, dia 21
às 11h35, na RTP2, El Greco (52’)
às 17h40, na TV5, Secrets d'Histoire - Cléopâtre ou la beauté fatale (100’)*
às 18h30, no Museu do Chiado, sessão do ciclo Colecionar Arte - Conversas a partir das Coleções Particulares, com António Gomes de Pinho e Teresa Patrício Gouveia
às 21h00, na Sala de Conferências da Igreja Paroquial de S. Tomás de Aquino (R. Virgílio Correia), tertúlia do ciclo Da Palavra às palavras: A palavra na arte, com Jorge Vaz de Carvalho
Quarta-feira, dia 22
às 11h35, na RTP2, Boris Vian - Swing em Saint-Germain des Prés (54’)
às 13h30, na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, 20 minutos com arte à hora de almoço: A Praia (João Vaz), por Tiago Veiga (0€)
às 18h00, no Museu Nacional de Arte Antiga, visita orientada no âmbito da Semana da Ciência e da Tecnologia: Arcanjo São Miguel (Lisboa, 1765-1790) (0 €)
às 18h00, na Sala do Conselho da União de Associações do Comércio e Serviços (Rua Castilho, 14), conferência do ciclo Lisboa - do Terramoto à Revolução de Abril: Novas Vivências na Cidade? A Boémia em Lisboa (1880-1929), por Cecília Vaz
às 18h00, no Museu da Música, ciclo Um Músico, um Mecenas - concerto com instrumentos históricos do Museu: Música portuguesa do séc. XVIII, com José Carlos Araújo (cravo Antunes, 1789) (0€)
às 20h00, na TV5, Des Racines & des Ailes – Terres de Bretagne, du pays rennais à la presqu´île de Crozon (110’) *
às 23h30, na Mezzo, Satchmo special : Louis Armstrong and his all stars, 1959 (52’)
às 26h06, na Mezzo live HD, Keith B Brown - Strasbourg Jazz Festival (63’)
Quinta- feira, dia 23
às 13h25, na Casa-Museu Medeiros e Almeida, A Pausa do Mês: Carlos Botelho, Lisboa - Paris (0€)
às 18h00, no Palácio Pimenta – Museu de Lisboa, conferência do Ciclo Presença Africana na Arte em Lisboa: Presença Africana na Azulejaria em Lisboa, séculos XVII-XX: 
Representações Sociais e Quotidiano, por
Augusto Moutinho Borges (0€)
às 18h30, na Biblioteca da Imprensa Nacional – Casa da Moeda (Rua da Escola Politécnica, 135), Ciclo Compositores Exilados: Weill, Lopes-Graça, Zemlinsky, com os solistas da Metropolitana: José Pereira (violino), Joana Dias (violino), Joana Tavares (viola) e Catarina Gonçalves (violoncelo) (0€)
às 18h30, na Sociedade Portuguesa de Autores, Fantasias e Contos de Fadas (R. Schumann), com os solistas da Metropolitana: Nuno Silva (clarinete), Joana Cipriano (viola), Anna Tomasik (piano) e o actor João Grosso (0 €)
às 18h30, na Casa Fernando Pessoa, aula: Dante e o seu poema sacro, por António Mega Ferreira (0 €)
às 18h30, na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, conferência do Ciclo d’Outono 2017, O coleccionador e a sua biblioteca, por Manuela Moreira (0€)
às 19h30, na Mezzo, Raúl Midón Trio - Sing Jazz Festival (53’)
às 23h40, na RTP2, António Capela (luthier)
às 24h02, na TV5, 300 Millions de Critiques (magazine; 55’)
às 25h26, na Mezzo, Avishaï Cohen New York Division Jazz à Vienne
A seguir:
Dia 24, às 7h40, na ARTE, À l’ombre des grands châteaux: Neuschwanstein
Dia 24, às 13h00, na Biblioteca Nacional de Portugal, Ciclo Compositores Exilados: Weill, Lopes-Graça, Zemlinsky, com os solistas da Metropolitana: José Pereira (violino), Joana Dias (violino), Joana Tavares (viola) e (violoncelista a anunciar) (0€)
Dia 24, às 13h00, nos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lisboa, Duos e Trios Barrocos (G. F. Händel, C. P. E. Bach e J. S. Bach), com os solistas da Metropolitana: Anzhela Akopyan (violino), Daniela Radu (violino) e Daniel Oliveira (cravo) (0€)
Dia 24, às 15h40, na ARTE, Invitation au voyage: New York de Lou Reed / Biarritz / République tchèque (39’) **
Dia 24, às 17h30, no Teatro D. Maria II, conversa com Peter Brook e Marie-Hélène Estienne (2€)
Dia 24, às 18h30, na Fundação Carmona e Costa, conferência do ciclo Os anjos não têm costas mas têm sempre asas: Tempo sem Espaço, Espaço sem Tempo, com Rui Chafes
Dia 24, às 19h00, no Auditório do ISEG (Concerto Antena 2), Fantasias e Contos de Fadas (R. Schumann), com os solistas da Metropolitana: Nuno Silva (clarinete), Joana Cipriano (viola), Anna Tomasik (piano) e o actor João Grosso (0 €)
Dia 24, às 21h00, no Auditório da Reitoria da Universidade Nova, Campolide, concerto (L. Guerreiro e A. Bruckner), com o Ensemble de música contemporânea da EPM e a Orquestra Clássica Metropolitana, dirigidos por Reinaldo Guerreiro (0€)
Dia 25, às 16h00, no Centro de Arte Manuel de Brito, visita temática Davam grandes passeios aos Sábados… - encontro com as paisagens da colecção Manuel de Brito, com Carlos Carrilho
Dia 25, às 18h00, no Palácio Marquês de Pombal, Oeiras, recital Música Nova 2017, com Solistas da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras (3€)
Dia 25, às 21h30, no Museu Condes Castro Guimarães, Cascais, recital Viva Vivaldi, com Solistas da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras (3€)
Dia 29, às 18h00, na sala 5.2 da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, palestra: Era Preciso Decorar o Metro - Maria Keil e a Renovação Da Azulejaria em Portugal nos Anos de 1950, por Helena Alexandra Mantas 
Dia 29, às 18h00, no Museu Nacional de Arte Antiga, obras em foco 2017: Casamento Místico de Santa Catarina (Bartolomé Esteban Murillo, 1650-1655) (0 €)
Dia 29, às 21h30, no Auditório da Biblioteca Municipal de Oeiras, Livros Proibidos em Portugal – Estado Novo: Cândido, de Voltaire, com Frei Bento Domingues e Nicolau Santos (moderador) (0 €)

Esta informação está disponível, e é actualizada, no blog http://azweblog.blogspot.com e no facebook ( https://www.facebook.com/pages/Sugestôes/582224458542163 )
Bom fim de semana!
  JMiguel          

* Depois da emissão fica disponível em http://www.tv5mondeplus.com/toutes-les-videos
** Depois da emissão talvez fique disponível em http://www.arte.tv/guide/fr/plus7/?country=PT

6/17/2014

Forma e Substância

          Creio que mesmo se Antero de Quental tivesse vivido um século mais tarde, ele não iria em futebóis. Para o malogrado escritor e pensador, possivelmente o actual Campeonato do Mundo que se está a realizar no Brasil passaria praticamente ao lado. No entanto, o que há dias sucedeu no Espanha-Holanda e hoje ocorreu no Portugal-Alemanha não pôde deixar de me fazer lembrar as teses de Antero expostas na sua famosa comunicação sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. É que a Espanha, aureolada com o pesado título de campeã do mundo, se viu destroçada por uma Holanda voluntariosa e combativa que logrou o espantoso resultado de 5-1. No jogo que Portugal disputou há horas com a Alemanha, o que aconteceu não foi tão diferente assim. O resultado final de 4-0 não tem discussão.

          E assim os dois povos peninsulares foram copiosamente batidos por dois países do Norte da Europa. Na sua famosa comunicação sobre o atraso peninsular, Antero referia-se, como todos sabemos, à Contra-Reforma, que comparou desfavoravelmente com a Reforma Protestante, à Monarquia Absoluta castradora de liberdade e de espírito de iniciativa, e ao sistema económico que derivou dos Descobrimentos e respectivas colónias (há bens que vêm por mal). 

          Pergunta-se: e o que é que isto tem a ver com o futebol? Nada, pelo menos aparentemente. Mas há um ponto, que creio ter sido também intuído por Antero, que é a diferença entre o primado da forma e o primado da substância. Geralmente, os países do Sul continuam a defender muito o primado da forma, o que os faz falarem e escreverem muito – e no futebol gesticular e discutir as decisões dos árbitros -, prestando menos do que a atenção devida à substância. No jogo de Portugal, conforme transmitido e relatado pela RTP1, foi notória a constante intervenção do locutor sobre um programa do canal que ninguém deveria perder, onde a posteriori se discutiria tudo sobre o jogo, com as melhores declarações, entrevistas e comentários. Bla, bla, bla, bla. O que é isto senão a forma? Entretanto, usando a mesma atitude de apreço primordial pela substância, os alemães iam impiedosamente caminhando para a nossa baliza, coleccionando golos. Originalmente, “goal”, de onde deriva a palavra portuguesa “golo”, significa “objectivo”, e esta é a substância da questão.

          Como português e também como cidadão ibérico custou-me muito ver os dois países da Ibéria serem estrondosamente derrotados por dois países do Norte europeu, mas sou forçado a reconhecer que a superioridade dessas duas equipas foi inegável. Todos sabemos que no futebol podem existir grandes surpresas, mas nos dois encontros em apreço foi menos o milagre e mais a realidade que se impôs. 

5/16/2014

Fugir do Paraíso?


            No final da década de ’60 e no início dos anos ’70 do século passado, houve uma enorme vaga de emigração portuguesa para a Europa. Para o Brasil já tinha sido comum. Para os Estados Unidos e Canadá era algo mais recente. Mas para a Europa e com tal força aquela onda emigratória era inédita. Os anos ’60 e início dos ’70 coincidiram com a Guerra Colonial, mas esta esteve longe de ser a grande força motriz por trás da debandada de portugueses para França, Alemanha, Luxemburgo e outros países da Europa. Os baixos salários que os trabalhadores auferiam em Portugal quando comparados com os que eram pagos no estrangeiro falaram mais alto e levaram muitos e bons braços da terra portuguesa para fora da pátria.
            Curiosamente, essa foi também a altura em que o Portugal turístico, que era então em imagens publicitárias “o segredo mais bem guardado da Europa” atingiu (em 1964) o seu primeiro milhão de visitantes estrangeiros, número largamente superado anos depois.
            De entre os locais descobertos para o turismo sobressaía, como alguns se lembrarão, o nosso Algarve. O Algarve era publicitado como um paraíso de sol e de tranquilidade para visitantes endinheirados. Porém, mesmo do Algarve saíam centenas de emigrantes para os países europeus. Este facto levou a certa altura o Bispo do Algarve a comentar ironicamente que podia imaginar o gosto de alguém em largar o Inferno, mas que lhe era extremamente difícil entender que alguém estivesse interessado em abandonar o Paraíso. Tinha a sua lógica o comentário do Bispo.
            Embora a História, como se sabe, não se repita, é um facto que ela muitas vezes rima. Presentemente, os arautos do Governo português proclamam que a sua governação tem sido um sucesso; que a economia está a dar a volta e a recuperação já começou; que as exportações têm aumentado substancialmente; que, ao contrário do que muita gente esperava, o Governo se decidiu por uma “saída limpa”, calando assim as calhandras que só falavam de desastres. Voltámos à narrativa do Paraíso português!
            Ora, parece que de maneira algo semelhante àquela que levou tantos trabalhadores algarvios a emigrarem do seu Paraíso nas décadas atrás mencionadas, também agora é do Paraíso português propalado pelo actual Governo que duas conceituadas instituições financeiras decidem cessar a sua actividade em Portugal, i.e. abandonar o Paraíso. As duas instituições são sobejamente conhecidas. Uma delas é o Banco Barclays, a outra o BBVA (Banco Bilbao Vizcaya Argentaria). O primeiro está em Portugal há pelo menos 40 anos; o segundo está entre nós há um número inferior de anos: apenas há 23. Segundo o jornal espanhol El País, a operação portuguesa não oferece a rentabilidade esperada. É talvez um pouco mais do que isso, diga-se: nos últimos três anos de actividade em Portugal, o BBVA registou perdas que chegaram aos 133 milhões de euros. Para paraíso não está mal.
            Será que tanto os trabalhadores algarvios de há décadas como os bancos internacionais aqui referidos são insensíveis aos encantos do Paraíso?

5/06/2014

"A gente" e "as pessoas" serão uma e a mesma coisa?


O dicionário de língua portuguesa que geralmente uso diz-me, entre outras acepções do termo, que “gente” é um conjunto de pessoas, o género humano, a humanidade, o povo. É de facto esta a noção que a maioria de nós tem relativamente à palavra. Logo, pode parecer à primeira vista que “as pessoas” e “a gente” são a mesmíssima coisa. Talvez não seja bem assim.  

Na utilização linguística que vemos e ouvimos todos os dias, “a gente” surge-nos geralmente em expressões positivas, desculpantes ou vitimizadoras para quem fala. Há, portanto, uma tendência para nos incluirmos no “a gente” a que nos referimos. Exemplificando:

“Se a gente não é informada da razão do atraso na partida do avião, como é que podemos saber o que se passa?”
“Se não houver saída por esta rua, a gente vai lá por trás, por umas travessas, e sai na mesma.”
“O Governo precisa de dinheiro e a gente é que paga.”
“A gente” é geralmente sinónimo de “uma pessoa”, expressão que é também positiva e na qual igualmente tendemos a incluir-nos.
“Como é que uma pessoa pode decorar isto tudo – duzentas páginas - para um exame?”
“E depois querem que uma pessoa não proteste!”
“Como é que querem que uma pessoa possua sentido crítico, se na escola não nos ensinam a pensar criticamente, a pôr as coisas em dúvida?”

            Pelo contrário, quando utilizamos – e fazemo-lo com grande frequência – a expressão “as pessoas”, colocamo-nos geralmente de fora e tendemos a expressar uma crítica, na qual nos incluímos apenas como bom elemento observador e não como alvo da opinião geralmente negativa que é expressa. Exemplificando:
          
                “As pessoas estão a ficar cada vez mais porcas. Agora nem põem o lixo nos contentores.”
            “As pessoas estão todas a monte aqui à frente no autocarro, quando há tantos lugares vagos lá atrás!”
            “As pessoas agora não sabem nada de História ou de Geografia de Portugal. No meu tempo sabíamos tudo de cor e salteado.”
            “As pessoas agora não querem trabalhar. Preferem receber subsídio de desemprego.”
          
           Como no nosso país criticar há muito que se transformou numa instituição nacional, quando ouvimos alguém usar “as pessoas” como sujeito de uma oração sabemos antecipadamente que vamos ter algo reprovativo. Em princípio não ofende ninguém em particular ou, visto de outro ângulo, atinge toda a gente, com clara e óbvia excepção de quem formula a censura, que se arvora em professor ou professora do povo: se pudesse, endireitaria este mundo e o outro. Infelizmente, não pode. À guisa de compensação, invectiva tudo e todos.
            
          
Se prestarmos atenção, encontraremos este quadro em muitos lados e em variadíssimas ocasiões. E se a nossa atenção for implacável, talvez nos encontremos também nós próprios a pintar esse quadro de “as pessoas”.

4/20/2014

AGUENTAR OU NÃO, EIS A QUESTÃO


          Num dos pelotões militares que, como oficial miliciano, me atribuíram para a obrigatória recruta, encontrei um soldado que era na altura campeão nacional de 5 000 metros. Nas boas instalações que tínhamos no quartel, ele treinava diariamente ao ar livre a sua corrida, de uma maneira que para mim constituiu alguma novidade: corria 100 metros para um lado, descansava uns segundos, corria 100 metros em sentido contrário, e ali estava um ror de tempo exercitando-se sem cansaço aparente. Eu tinha na altura uma razoável preparação física e, falando com ele, admiti que não aguentaria treinar durante tanto tempo. “É preciso praticar”, dizia-me ele. “Depois aguenta-se melhor.” Era o clássico conceito de Practice makes perfect aplicado à corrida. “Mas há uns que aguentam melhor e outros que não aguentam mesmo”, contestei eu. O soldado, que corria por um dos grandes clubes do país, admitiu naturalmente que isso também era verdade e confessou-me, a meu pedido, onde é que arranjara aquela resistência toda: “Fiz muito contrabando lá na minha terra. Tinha que percorrer grandes distâncias.”

          De facto, a prática é muito importante, mas só testando as pessoas se vê se elas aguentam ou não um determinado esforço. Mudando de agulha neste discurso, quero lembrar que o Governo do nosso país nos tem aplicado doses maciças de impostos e de cortes nos rendimentos que vêm testando a nossa capacidade de suportar esses esforços. 

        Aumentou a pobreza no país, o desemprego tornou-se uma praga, foi reduzida a assistência na doença mas, melhor ou pior, o povo tem na generalidade aguentado o sacrifício. Tem crescido o número de suicídios e divórcios, tem diminuído o número de crianças nascidas, morre-se em Portugal mais do que se nasce. Mas há ainda muita gente que vem aguentando, gente que parece ser em número demasiado elevado na óptica do Governo. O ideal era que desaparecessem mais pessoas, através de morte natural ou auto-infligida, ou através da emigração para outras paragens.

          Todavia, o Governo, que se preocupa primordialmente com as contas públicas e tem os seus alvos fiscais preferidos, já pode dizer agora, após três anos de experiências agravadamente repetidas, que os esforços apodados de temporários vão passar a definitivos. A prática mostrou que há muita gente que os aguenta, pelo que não há argumentos que possam destruir os factos.

          O “aguenta, aguenta!”, que se tornou célebre depois de saído da boca de um conhecido banqueiro português, não consistiu apenas em palavras. Foi todo um processo para verificar as reacções e os respectivos resultados.

          O antigo soldado do meu pelotão tinha razões de sobra para confiar na prática do treino.