9/15/2017

AS SUGESTÕES DO JOÃO MIGUEL

Boa rentrée!
Ainda está disponível (em https://www.arte.tv/fr/videos/073907-001-A/carmen-de-bizet/ ) uma diferentíssima Carmen (apresentada no Festival d'Aix-en-Provence 2017). Imperdível!
A decorrer
Até dia 16, Belém Art Fest (possibilidade de visitar os museus da zona em horário nocturno)
Dias 16 e 17, arranque da temporada do D. Maria II (entrada livre nas peças em cena, leituras encenadas, exposições, ...)
Dias 19, 20 e 21, depois das 19h50, na ARTE, série Vietnam (3 episódios por noite)
Até dia 30, na Cinemateca, ciclo Luis Miguel Cintra - O Cinema . Saliento o encontro com o Homenageado (dia 18, 19h00) e A Caixa de M. Oliveira (dia 21, 18h30)
Abertas inscrições (0€, em fcfa-cultura@fronteira-alorna.pt ou 217784599) para o Grupo de Leitura: A Visita da Velha Senhora, de Friedrich Dürrenmatt; Palácio Fronteira, 19h, dia 20 (análise da obra) e dia 27 (visualização do filme The Visit, de B. Wicki), com Vanda Anastácio e M. Manuela Delille
Abertas inscrições (inscricoes.ciclos.humanidades@ccb.pt) para o ciclo O Barroco na Literatura, por Maria Alzira Seixo (CCB, às 18h, 3, 10, 17, 24 e 31 de Outubro; 20 € ciclo, 5 € avulso)
Abertas inscrições para o curso livre Em Torno do Mobiliário do Século XVIII, leccionado por José Meco, Diogo Lopes e Graça Pedroso, no Palácio Marquês de Pombal, Oeiras, 10h00 às 17h30, sábados 14 e 21 de Outubro (20€; inscrições: 21 440 85 29 ou ana.miranda@cm-oeiras.pt )
Sexta-feira, dia 15
às 19h00, no Jardim da Amnistia Internacional, ciclo A Arte da Big Band: Big Band Júnior (dirigida por Claus Nymark) convida Rita Maria (0€)
às 21h30, na Sala dos Cisnes do Palácio Nacional de Sintra, Festival Cantabile: J. S. Bach, variações Goldberg, versão para trio de cordas (0€; distribuição a partir das 20h na bilheteira do Palácio)
Sábado, dia 16
às 9h00, na Antena 2, Café Plaza (40 anos da morte de Maria Callas e viagem ao mundo do Blues)
às 10h00, no Largo da Sé, Itinerários da Fé - percurso da Baixa (Sé, Igreja da Madalena, Igreja da Conceição Velha, Igreja de São Nicolau, Ermida de Nossa Senhora da Oliveira) (0€; inscrição prévia pelo 218 879 549)
às 12h00, na Casa-Museu Medeiros e Almeida, Sábados no Museu (visita guiada de 1h) (0€)
às 12h00, na Antena 2, MUSICA AETERNA - os 500 anos da nascença de Francisco de Holanda (1517-1585), por João Chambers
às 12h00, na Mezzo live HD, Autour de Nina (Simone) – à Jazz à la Villette (86’)
às 12h59, na TV5, Secrets d'Histoire - Louis II de Bavière, le roi perché (100’)
às 14h59, na TV5, Tendance XXI: AD Collection / Lalique / Morel Enseignes (magazine; 28’) ***
às 15h00, no Auditório Municipal do Bombarral, simpósio: Arte por Terras do Bombarral, com J. Bonifácio Serra, José Meco, Vitor Serrão, R. Henriques da Silva ...
às 16h00, na TV5, 300 Millions de Critiques (magazine; 55’)
às 18h00, no Auditório Senhora da Boa Nova, Galiza – Estoril, concerto (K. Szymanowski, O. Respighi e L. V. Beethoven- sétima), com Davide Alogna (violino) e a Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, direcção de Jan Milosz Zarzycki (6€)
às 21h00, no Museu do Dinheiro, concerto de encerramento do Festival Cantabile (Mozart e Schönberg), por solistas da Orquestra Gulbenkian e quatro solistas convidados (0€; distribuição a partir das 16h na recepção do Museu)
às 22h20, na ARTE, Philosophie – Porquoi punir? (26’) **
às 22h30, na Fábrica Braço de Prata, Ricardo Toscano Trio (5€?)
às 25h00, na ARTE, John Lennon : Live In New York City (55’)
às 26h00, na ARTE, Au coeur de la nuit: Gregory Porter et Cassandra Wilson (53’) **
Domingo, dia 17
às 10h35, na ARTE, Metropolis: Belfast (43’) **
às 16h00, na Antena 2, MUSICA AETERNA - os 450 anos do nascimento de Claudio Monteverdi (1567-1643), por João Chambers
às 16h00, Biblioteca Municipal Almeida Garrett (Porto), ciclo Porto de Encontro: com José Paulo Cavalcanti Filho
às 17h30, na ARTE, Angela Gheorghiu chante Puccini, Verdi... (43’) **
às 19h30, na Mezzo live HD, La Donna del Lago, de Gioachino Rossini (2015, MET, maestro Michele Mariotti, encenação Paul Curran; Joyce DiDonato (Elena), Juan Diego Flórez (Giacomo V), Daniela Barcellona (Malcolm), Eduardo Valdes (Serano), Oren Gradus (Duglas d'Angus), John Osborn (Rodrigo Di Dhu), Olga Makarina (Albina), Gregory Schmidt (Bertram)) (165’)
às 24h45, na ARTE, Billie Holiday - Un supplément d'âme (53’) **
às 25h45, na ARTE, Soirée lyrique à l'Opéra de Paris, com Sondra Radvanovsky "Vissi d’arte" ("Tosca"), "O patria mia" ("Aïda"), "Casta diva" ("Norma") e Anita Rachvelishvili “Habanera” (Carmen) (73’) **
Segunda-feira, dia 18
às 11h30, na TV5, Robert Doisneau, Le Révolté du Merveilleux (52’)
às 13h00, na TV5, Des Racines & des Ailes – Du mont Lozère au plateau de l'Aubra (110’) *
às 16h00, na Mezzo live HD, La Donna del Lago, de Gioachino Rossini (2015, MET, maestro Michele Mariotti, encenação Paul Curran; Joyce DiDonato (Elena), Juan Diego Flórez (Giacomo V), Daniela Barcellona (Malcolm), Eduardo Valdes (Serano), Oren Gradus (Duglas d'Angus), John Osborn (Rodrigo Di Dhu), Olga Makarina (Albina), Gregory Schmidt (Bertram)) (165’)
às 18h00, na Biblioteca Nacional de Portugal, Concerto de Chorinho, pelo grupo Choro das 3, (0€)
às 19h00, no Palácio Fronteira, concerto Quattro Stagioni, Due Emisferi (Vivaldi e Piazzolla), pelo Duo Contrasti: Diana Tzonkova (violino), Ercole De Conca (contrabaixo) e Emanuela Nicoli (harpa). (0€)
Terça-feira, dia 19
às 12h00, na Mezzo live HD, La Donna del Lago, de Gioachino Rossini (2015, MET, maestro Michele Mariotti, encenação Paul Curran; Joyce DiDonato (Elena), Juan Diego Flórez (Giacomo V), Daniela Barcellona (Malcolm), Eduardo Valdes (Serano), Oren Gradus (Duglas d'Angus), John Osborn (Rodrigo Di Dhu), Olga Makarina (Albina), Gregory Schmidt (Bertram)) (165’)
às 14h34, na TV5, Tendance XXI: AD Collection / Lalique / Morel Enseignes (magazine; 28’) *
às 17h38, na TV5, Secrets d'Histoire - Et si Henri III n'était pas mignon ? (100’)
às 22h55, na RTP2, Literatura Aqui
às 28h00, na ARTE, Les grands moments de la musique Maria Callas: "Tosca" 1964 (42’)
Quarta-feira, dia 20
às 19h00, no Palácio Fronteira, sessão do Grupo de Leitura: A Visita da Velha Senhora, de Friedrich Dürrenmatt, com Vanda Anastácio e M. Manuela Delille
às 19h15, numa sala de cinema UCI no El Corte Inglês e no Arrábida Shopping, transmissão da ópera A Flauta Mágica, de W. A. Mozart, produção da Royal Opera House (13,70€)
às 19h30, na Mezzo, Il barbiere di Siviglia, de Gioachino Rossini (2016, Festival De Glyndebourne Ópera, London Philharmonic Orchestra, maestro Enrique Mazzola, encenação Annabel Arden; Taylor Stayton (Le Comte Almaviva), Björn Bürger (Figaro), Danielle de Niese (Rosina), Alessandro Corbelli (Dr Bartolo), Janis Kelly (Berta), Christophoros Stamboglis (Basilio), Huw Montague Rendall (Fiorello), 165’)
às 20h00, na TV5, Des Racines & des Ailes – Des monts du Beaujolais aux monts d´Ardèche (110’) *
Quinta- feira, dia 21
às 15h30, na Cinemateca, Manhattan, de W. Allen
às 17h30, no Auditório do Edifício do Banco de Portugal, R. Francisco Ribeiro, 2, Momentos de Música, pelo Duo Contracello: Miguel Rocha (violoncelo) e Adriano Aguiar (contrabaixo) (0€)
às 18h00, na Sala Sala Glicínia Quartin do CCB, programa literário Obra Aberta, com Paulo Pires e Joaquim Soares (0€)
das 19h00 às 23h00, no eixo: Rato, Politécnica, P.Real, Chiado, Cais Sodré, Bairro das Artes – a rentrée cultural da 7ª Colina (www.bairrodasartes.pt)
às 24h10, na ARTE, Maria Callas, II acto da "Tosca" de Covent Garden 1964 (46’)
às 25h00, na ARTE, Pavarotti, chanteur populaire (52’) **
às 25h50, na ARTE, La légende wagnérienne Waltraud Meier: "Adieu Kundry, adieu Isolde” (52’) **
às 19h30, na Mezzo, John Coltrane - Comblain La Tour Jazz Festival 1966 (38’)
A seguir:
Dia 22, Dia do Fundamentalismo (ou dia Europeu sem Carros). A ameaça pode ser maior pois falam em Semana Europeia da Mobilidade (seria mais explícito da Imobilidade!)
Dia 22, às 18h00, no Auditório 3 da Gulbenkian, conversa sobre a relação entre escultura e filme (a propósito da exposição Escultura em Filme/The Very Impress of the Object) (0€)
Dia 22, às 21h30, no Centro Cultural e de Congressos de Caldas da Rainha, Concerto (Beethoven e Mozart) pela Orquestra Gulbenkian (10€)
De 22 a 24, Jornadas Europeias do Património (http://w3.patrimoniocultural.pt/jep2017/public/)
De 22 a 24, em Cascais, Lumina 2017 – Festival de Luz (https://www.lumina.pt)
Dias 23 e 24, Lisboa Open House ( http://www.openhouselisboa.com/ )
Dia 23, às 9h00, na Antena 2, Café Plaza (Ray Charles)
Dia 23, às 12h00, na Antena 2, MUSICA AETERNA - os 450 anos do nascimento de Claudio Monteverdi (1567-1643), por João Chambers
Dia 23, às 13h01, na TV5, Secrets d'Histoire - Et si Henri III n'était pas mignon ? (100’)
Dia 23, às 16h00, no Auditório do CCB, Ciclo Belém Cinema >Grande Auditório, Grande Écran, Grandes Clássicos: Doutor Jivago, de D. Lean (5€)
Dia 23, às 18h00, no Auditório Municipal Ruy de Carvalho, em Carnaxide, Grandes Obras da Música de Câmara (J. Brahms e G. Meyerbee), por solistas da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras (3€)
Dia 24, às 11h00, no Átrio do Museu Gulbenkian/Coleção do Fundador, visita orientada do ciclo Domingos no Museu – à descoberta das coleções: Escultura fora do ecrã – uma leitura da escultura da Coleção Moderna (6€)
Dia 24, às 15h00, na Pequeno Auditório do CCB, Dia Literário: Agostinho da Silva (0€)
Dia 24, às 16h00, no Teatro Thalia, TEJO NO THALIA - Ciclo de Concertos Ciência na Música, tema: À Boleia da Astrononomia Moderna, versão encenada de "Il mondo della luna" (1765) de P. A. Avondano, com Luís Rodrigues, Fernando Guimarães, Carla Simões, Carla Caramujo, Susana Gaspar, João Pedro Cabral, João Fernandes e Os Músicos do Tejo, encenação de Marco Paiva e Mário Melo Costa, apresentação de Jorge Calado (12€)
Dia 24, às 21h00, no Auditório Senhora da Boa Nova, Galiza – Estoril, Concerto de Outono – Gala de Ópera (G. Verdi, R. Leoncavallo, G. Donizetti, L. Minkus e G. Bizet ), com Laura Vila (mezzo soprano) e a Sinfónica de Cascais, direcção de Nikolay Lalov (15€)
Dia 25, às 13h00, na TV5, Des Racines & des Ailes – Des monts du Beaujolais aux monts d´Ardèche (110’) *
Dia 26, às 18h00, na Roca Lisboa Gallery, ciclo de conferências História e Culturas da Água: A água e os seus aquedutos - Dos Romanos à atualidade, por Pedro Inácio (0€; inscrição info.lisboagallery@roca.net ou 21 34 04 260.)
Dia 27, às 13h30, no Museu Gulbenkian/Coleção do Fundador, A amizade artística de Degas e Mary Cassatt (0€)
Dia 27, às 13h30, na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, 20 minutos com Arte: Rapariga Bretã (Columbano, 1881), com Maria Teodora Marques (0€)
Dia 27, às 18h00, no Museu Nacional de Arte Antiga, obras em foco 2017: Fonte com Mesa (Alemanha?, terceiro quartel do século XVIII) (0 €)
Dia 27, às 19h00, no Palácio Fronteira, sessão do Grupo de Leitura A Visita da Velha Senhora: visualização do filme The Visit, de B. Wicki, com Vanda Anastácio e M. Manuela Delille
Dia 27, às 21h00, no Museu do Oriente, excertos de três peças tradicionais da ópera de Pequim (Encruzilhada, Adeus Minha Concubina e Montanha Qingshi), pela Tianjin Youth Beijing Opera Troupe (0€)
Dia 28, às 13h25, na Casa-Museu Medeiros e Almeida, A Pausa do Mês: Jóias Portuguesas – séc. XVI ao séc. XVIII (0€)
Dia 28, às 18h30, no Palácio do Beau Séjour, conferência O Cais da Pedra e Cais Real, por Alexandra de Carvalho Antunes (0€)

Esta informação está disponível, e é actualizada, no blog http://azweblog.blogspot.com e no facebook ( https://www.facebook.com/pages/Sugestôes/582224458542163 )
Bom fim de semana!
 JMiguel          

* Depois da emissão fica disponível em http://www.tv5mondeplus.com/toutes-les-videos
** Depois da emissão talvez fique disponível em http://www.arte.tv/guide/fr/plus7/?country=PT 

6/17/2014

Forma e Substância

          Creio que mesmo se Antero de Quental tivesse vivido um século mais tarde, ele não iria em futebóis. Para o malogrado escritor e pensador, possivelmente o actual Campeonato do Mundo que se está a realizar no Brasil passaria praticamente ao lado. No entanto, o que há dias sucedeu no Espanha-Holanda e hoje ocorreu no Portugal-Alemanha não pôde deixar de me fazer lembrar as teses de Antero expostas na sua famosa comunicação sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. É que a Espanha, aureolada com o pesado título de campeã do mundo, se viu destroçada por uma Holanda voluntariosa e combativa que logrou o espantoso resultado de 5-1. No jogo que Portugal disputou há horas com a Alemanha, o que aconteceu não foi tão diferente assim. O resultado final de 4-0 não tem discussão.

          E assim os dois povos peninsulares foram copiosamente batidos por dois países do Norte da Europa. Na sua famosa comunicação sobre o atraso peninsular, Antero referia-se, como todos sabemos, à Contra-Reforma, que comparou desfavoravelmente com a Reforma Protestante, à Monarquia Absoluta castradora de liberdade e de espírito de iniciativa, e ao sistema económico que derivou dos Descobrimentos e respectivas colónias (há bens que vêm por mal). 

          Pergunta-se: e o que é que isto tem a ver com o futebol? Nada, pelo menos aparentemente. Mas há um ponto, que creio ter sido também intuído por Antero, que é a diferença entre o primado da forma e o primado da substância. Geralmente, os países do Sul continuam a defender muito o primado da forma, o que os faz falarem e escreverem muito – e no futebol gesticular e discutir as decisões dos árbitros -, prestando menos do que a atenção devida à substância. No jogo de Portugal, conforme transmitido e relatado pela RTP1, foi notória a constante intervenção do locutor sobre um programa do canal que ninguém deveria perder, onde a posteriori se discutiria tudo sobre o jogo, com as melhores declarações, entrevistas e comentários. Bla, bla, bla, bla. O que é isto senão a forma? Entretanto, usando a mesma atitude de apreço primordial pela substância, os alemães iam impiedosamente caminhando para a nossa baliza, coleccionando golos. Originalmente, “goal”, de onde deriva a palavra portuguesa “golo”, significa “objectivo”, e esta é a substância da questão.

          Como português e também como cidadão ibérico custou-me muito ver os dois países da Ibéria serem estrondosamente derrotados por dois países do Norte europeu, mas sou forçado a reconhecer que a superioridade dessas duas equipas foi inegável. Todos sabemos que no futebol podem existir grandes surpresas, mas nos dois encontros em apreço foi menos o milagre e mais a realidade que se impôs. 

5/16/2014

Fugir do Paraíso?


            No final da década de ’60 e no início dos anos ’70 do século passado, houve uma enorme vaga de emigração portuguesa para a Europa. Para o Brasil já tinha sido comum. Para os Estados Unidos e Canadá era algo mais recente. Mas para a Europa e com tal força aquela onda emigratória era inédita. Os anos ’60 e início dos ’70 coincidiram com a Guerra Colonial, mas esta esteve longe de ser a grande força motriz por trás da debandada de portugueses para França, Alemanha, Luxemburgo e outros países da Europa. Os baixos salários que os trabalhadores auferiam em Portugal quando comparados com os que eram pagos no estrangeiro falaram mais alto e levaram muitos e bons braços da terra portuguesa para fora da pátria.
            Curiosamente, essa foi também a altura em que o Portugal turístico, que era então em imagens publicitárias “o segredo mais bem guardado da Europa” atingiu (em 1964) o seu primeiro milhão de visitantes estrangeiros, número largamente superado anos depois.
            De entre os locais descobertos para o turismo sobressaía, como alguns se lembrarão, o nosso Algarve. O Algarve era publicitado como um paraíso de sol e de tranquilidade para visitantes endinheirados. Porém, mesmo do Algarve saíam centenas de emigrantes para os países europeus. Este facto levou a certa altura o Bispo do Algarve a comentar ironicamente que podia imaginar o gosto de alguém em largar o Inferno, mas que lhe era extremamente difícil entender que alguém estivesse interessado em abandonar o Paraíso. Tinha a sua lógica o comentário do Bispo.
            Embora a História, como se sabe, não se repita, é um facto que ela muitas vezes rima. Presentemente, os arautos do Governo português proclamam que a sua governação tem sido um sucesso; que a economia está a dar a volta e a recuperação já começou; que as exportações têm aumentado substancialmente; que, ao contrário do que muita gente esperava, o Governo se decidiu por uma “saída limpa”, calando assim as calhandras que só falavam de desastres. Voltámos à narrativa do Paraíso português!
            Ora, parece que de maneira algo semelhante àquela que levou tantos trabalhadores algarvios a emigrarem do seu Paraíso nas décadas atrás mencionadas, também agora é do Paraíso português propalado pelo actual Governo que duas conceituadas instituições financeiras decidem cessar a sua actividade em Portugal, i.e. abandonar o Paraíso. As duas instituições são sobejamente conhecidas. Uma delas é o Banco Barclays, a outra o BBVA (Banco Bilbao Vizcaya Argentaria). O primeiro está em Portugal há pelo menos 40 anos; o segundo está entre nós há um número inferior de anos: apenas há 23. Segundo o jornal espanhol El País, a operação portuguesa não oferece a rentabilidade esperada. É talvez um pouco mais do que isso, diga-se: nos últimos três anos de actividade em Portugal, o BBVA registou perdas que chegaram aos 133 milhões de euros. Para paraíso não está mal.
            Será que tanto os trabalhadores algarvios de há décadas como os bancos internacionais aqui referidos são insensíveis aos encantos do Paraíso?

5/06/2014

"A gente" e "as pessoas" serão uma e a mesma coisa?


O dicionário de língua portuguesa que geralmente uso diz-me, entre outras acepções do termo, que “gente” é um conjunto de pessoas, o género humano, a humanidade, o povo. É de facto esta a noção que a maioria de nós tem relativamente à palavra. Logo, pode parecer à primeira vista que “as pessoas” e “a gente” são a mesmíssima coisa. Talvez não seja bem assim.  

Na utilização linguística que vemos e ouvimos todos os dias, “a gente” surge-nos geralmente em expressões positivas, desculpantes ou vitimizadoras para quem fala. Há, portanto, uma tendência para nos incluirmos no “a gente” a que nos referimos. Exemplificando:

“Se a gente não é informada da razão do atraso na partida do avião, como é que podemos saber o que se passa?”
“Se não houver saída por esta rua, a gente vai lá por trás, por umas travessas, e sai na mesma.”
“O Governo precisa de dinheiro e a gente é que paga.”
“A gente” é geralmente sinónimo de “uma pessoa”, expressão que é também positiva e na qual igualmente tendemos a incluir-nos.
“Como é que uma pessoa pode decorar isto tudo – duzentas páginas - para um exame?”
“E depois querem que uma pessoa não proteste!”
“Como é que querem que uma pessoa possua sentido crítico, se na escola não nos ensinam a pensar criticamente, a pôr as coisas em dúvida?”

            Pelo contrário, quando utilizamos – e fazemo-lo com grande frequência – a expressão “as pessoas”, colocamo-nos geralmente de fora e tendemos a expressar uma crítica, na qual nos incluímos apenas como bom elemento observador e não como alvo da opinião geralmente negativa que é expressa. Exemplificando:
          
                “As pessoas estão a ficar cada vez mais porcas. Agora nem põem o lixo nos contentores.”
            “As pessoas estão todas a monte aqui à frente no autocarro, quando há tantos lugares vagos lá atrás!”
            “As pessoas agora não sabem nada de História ou de Geografia de Portugal. No meu tempo sabíamos tudo de cor e salteado.”
            “As pessoas agora não querem trabalhar. Preferem receber subsídio de desemprego.”
          
           Como no nosso país criticar há muito que se transformou numa instituição nacional, quando ouvimos alguém usar “as pessoas” como sujeito de uma oração sabemos antecipadamente que vamos ter algo reprovativo. Em princípio não ofende ninguém em particular ou, visto de outro ângulo, atinge toda a gente, com clara e óbvia excepção de quem formula a censura, que se arvora em professor ou professora do povo: se pudesse, endireitaria este mundo e o outro. Infelizmente, não pode. À guisa de compensação, invectiva tudo e todos.
            
          
Se prestarmos atenção, encontraremos este quadro em muitos lados e em variadíssimas ocasiões. E se a nossa atenção for implacável, talvez nos encontremos também nós próprios a pintar esse quadro de “as pessoas”.

4/20/2014

AGUENTAR OU NÃO, EIS A QUESTÃO


          Num dos pelotões militares que, como oficial miliciano, me atribuíram para a obrigatória recruta, encontrei um soldado que era na altura campeão nacional de 5 000 metros. Nas boas instalações que tínhamos no quartel, ele treinava diariamente ao ar livre a sua corrida, de uma maneira que para mim constituiu alguma novidade: corria 100 metros para um lado, descansava uns segundos, corria 100 metros em sentido contrário, e ali estava um ror de tempo exercitando-se sem cansaço aparente. Eu tinha na altura uma razoável preparação física e, falando com ele, admiti que não aguentaria treinar durante tanto tempo. “É preciso praticar”, dizia-me ele. “Depois aguenta-se melhor.” Era o clássico conceito de Practice makes perfect aplicado à corrida. “Mas há uns que aguentam melhor e outros que não aguentam mesmo”, contestei eu. O soldado, que corria por um dos grandes clubes do país, admitiu naturalmente que isso também era verdade e confessou-me, a meu pedido, onde é que arranjara aquela resistência toda: “Fiz muito contrabando lá na minha terra. Tinha que percorrer grandes distâncias.”

          De facto, a prática é muito importante, mas só testando as pessoas se vê se elas aguentam ou não um determinado esforço. Mudando de agulha neste discurso, quero lembrar que o Governo do nosso país nos tem aplicado doses maciças de impostos e de cortes nos rendimentos que vêm testando a nossa capacidade de suportar esses esforços. 

        Aumentou a pobreza no país, o desemprego tornou-se uma praga, foi reduzida a assistência na doença mas, melhor ou pior, o povo tem na generalidade aguentado o sacrifício. Tem crescido o número de suicídios e divórcios, tem diminuído o número de crianças nascidas, morre-se em Portugal mais do que se nasce. Mas há ainda muita gente que vem aguentando, gente que parece ser em número demasiado elevado na óptica do Governo. O ideal era que desaparecessem mais pessoas, através de morte natural ou auto-infligida, ou através da emigração para outras paragens.

          Todavia, o Governo, que se preocupa primordialmente com as contas públicas e tem os seus alvos fiscais preferidos, já pode dizer agora, após três anos de experiências agravadamente repetidas, que os esforços apodados de temporários vão passar a definitivos. A prática mostrou que há muita gente que os aguenta, pelo que não há argumentos que possam destruir os factos.

          O “aguenta, aguenta!”, que se tornou célebre depois de saído da boca de um conhecido banqueiro português, não consistiu apenas em palavras. Foi todo um processo para verificar as reacções e os respectivos resultados.

          O antigo soldado do meu pelotão tinha razões de sobra para confiar na prática do treino.