9/21/2018

AS SUGESTÕES DO JOÃO MIGUEL


Até dia 22, às 10h30, 14h30 e 16h30, no Mosteiro da Batalha, visitas guiadas: Gárgulas - Função e Forma. Do Céu ao Solo (contactos: 244 765 497; rmiguel@mbatalha.dgpc.pt )
Até dia 23, na Mãe d'Água das Amoreiras, no Reservatório da Patriarcal e na Galeria do Loreto, Lisboa Soa (http://www.lisboasoa.com/ )
Até dia 23, no território de São Vicente / Santa Clara (ponto de encontro, bilheteira, recepção: Jardim Botto Machado), Festival TODOS (http://www.festivaltodos.com/)
Até dia 23, em Cascais, LUMINA Festival da Luz 
Até dia 23, no Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas, Festival Romano - In Vino Veritas (todos os dias às 20h: Cortejo Báquico)
Dias 22 e 23, Lisboa Open House ( https://www.trienaldelisboa.com/ohl/ )
Dias 28, 29 e 30, Jornadas Europeias do Património 2018 | Partilhar Memórias (detalhes em http://w3.patrimoniocultural.pt/jep2018/public/ )
De 27 de Setembro a 7 de Outubro, Fólio 2018 - Óbidos é Ponto (d)e Encontro de: escritores, leitores, artistas, músicos, livros, letras… e muitos pontos de vista diferentes.
Abertas inscrições (218 885 381; hfarrim@amigosdoscastelos.org.pt) para o curso livre Arquitectos de Lisboa II, Anos 30 do séc. XX - Actualidade, na Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos, Rua Barros Queirós 20,1º-E, (8 sessões, às 18h00, das terças com início a 2 de Outubro, 60€)
Abertas inscrições (0€, em redeazulejo@letras.ulisboa.pt.) para o encontro Identidade(S) do Azulejo em Portugal, das 10h00 às 17h00, de 4 de Outubro, organizado por Az – Rede de Investigação em Azulejo (ARTIS-IHA/FLUL)
Até 4 de Outubro, na Loja da Imprensa Nacional – Casa da Moeda (Rua da Escola Politécnica), Feira de Livros de Arte
Até 14 de Outubro, 53º Festival de Música de Sintra
O Museu da Água (Aqueduto das Águas Livres, Reservatório da Mãe d'Água das Amoreiras, Reservatório da Patriarcal e Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos) está aberto, gratuitamente, durante todos os fins-de-semana de 2018
Sexta-feira, dia 21
às 11h00, na RTP2, Isto é Arte – Desejo (episódio 11/12)
às 15h30, na Cinemateca, Hair, de Milos Forman
às 23h10, na RTP2, Ela, de Paul Verhoeven (125’)
às 24h00, na RTP Memória, António Ramos Rosa - Estou Vivo e Escrevo o Sol (60’)
às 27h05, na Mezzo, Satchmo special : Louis Armstrong and his all stars, 1959 (52’)
Sábado, dia 22
às 5h26, na TV5, Tendance XXI (magazine; 28’) *
às 11h00, na Casa-Museu Medeiros e Almeida, Sob o olhar de Argos: os Deuses do Olimpo (visita guiada por André Ferreira sobre a mitologia clássica nas coleções) (10€, inscrições obrigatórias em mithosgrecoromanos@gmail.com )
às 12h58, na TV5, Des racines & des ailes: Entre Rhin et Moselle (110’) *
às 12h59, na TV5, Des racines & des ailes: Entre Rhin et Moselle (110’) *
às 13h05, na Antena 1, Radicais Livres, com Ruben de Carvalho e J. N. Pinto
às 15h00, na TV5, Tendance XXI (magazine; 28’) *
às 15h00, no Mosteiro de Alcobaça, visita orientada: A Alegoria da sala dos Reis, por Isabel Costeira (0€; inscrição visitas@malcobaca.dgpc.pt )
às 15h30, no Museu Condes de Castro Guimarães, conferência: A Gravura e o Poder da Imagem, por Alexandra Markl
às 16h00, no Museu do Dinheiro, conferência: Lisboa industrial, por Jorge Custódio (0€; info@museudodinheiro.pt ou 213 213 240)
às 18h00, no Com Calma — Espaço Cultural, Rua República da Bolívia 5 C, fantoches: Dom Roberto e outras estórias
às 18h00, no Palácio Marquês de Pombal, Oeiras, recital: Grandes Obras de Música de Câmara (A. Fragoso e B. Smetana), por solistas da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras (3€)
às 19h00, no Auditório da Reitoria da Universidade Nova, Campolide, concerto binaural (técnica que cria um efeito sonoro 3D; é necessário ter auscultadores e descarregar a app Sennheiser MobileConnect) com Ricardo Toscano, André Santos, Marta Garrett e Romeu Tristão (0€, senhas a partir das 17h; transmissão em direto na SmoothFM)
às 19h50, na ARTE, Monuments éternels : Pétra, capitale du désert (documentário, 80’)
às 21h30, no Anfiteatro Almeida Garrett, Parque dos Poetas, Oeiras, concerto Celebração Língua Mátria, com Ricardo Ribeiro, Nancy Vieira e Fred Martins (0€)
às 22h15, na RTP2, Para Além do Flamenco - Festival de Flamenco no Sadler's Wells Theatre (documentário 65’)
às 24h39, na Mezzo, Michel Portal Quintet – Europa Jazz (52’)
às 26h40, na ARTE, Le musée Städel de Francfort - 200 ans d’art pour tous  (documentário, 52’) **
Domingo, dia 23
às 10h25, na ARTE, Metropolis: Monaco / Chemnitz / Chilly Gonzales / Lisa Halliday (43’) **
às 10h30, no Convento de São Pedro de Alcântara, visita guiada do ciclo Património ao Domingo (0€; inscrição prévia pelo 213 240 869 / 866)
às 11h00, no Museu Nacional de Arte Antiga, visita temática: Heróis e Santos - A morte como última fronteira, por Carla Varela Fernandes (inscrição prévia veraonomnaa@gmail.com, 10€)
às 15h15, na ARTE, Monuments éternels : Pétra, capitale du désert (documentário, 80’)
às 16h00, na TV5, 300 Millions de Critiques (magazine; 55’) *
às 16h35, na ARTE, La chambre des merveilles (documentário, 54’)
às 22h25, na ARTE, Prélude à Debussy (documentário, 52’) **
às 23h20, na ARTE, Pelléas et Mélisande, de Claude Debussy (2016; maestro: Esa-Pekka Salonen; encenação Katie Mitchell; elenco: Barbara Hannigan, Stéphane Degout, Laurent Naouri; 175’) **
às 24h22, na TV5, Pierre Brossolette Ou Les Passagers De La Lune (documentário; 92’) *
às 26h35, na ARTE, Franz Xaver Winterhalter - Le peintre de Sissi (documentário, 52’) **
Segunda-feira, dia 24
às 18h30, na Casa Fernando Pessoa, ciclo Encontros com Fernando Pessoa: Camilo Pessanha - Retornos ao País Perdido, com Pedro Barreiros e João d’Ávila (0€)
às 19h00, no Palácio Fronteira, Soirée de Canto e Piano, com Teodora Gheorghiu e Joana Barata (16€)
às 22h50, na Mezzo, Michel Portal Quintet – Europa Jazz (52’)
às 23h10, na RTP2, Visita Guiada - Graciosa, a Furna do Enxofre e a obra de Francisco Afonso Chaves
às 24h07, na Antena 1, Crónicas da Idade Mídia, com Ruben de Carvalho
Terça-feira, dia 25
às 12h30, na RTP2, Visita Guiada – O Mosteiro da Batalha
às 15h30, na Cinemateca, Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos
às 16h30, no Auditório Municipal Maestro César Batalha, Galerias Alto da Barra, Oeiras, Masterclass da História do Cinema – Filmes que Eu Amo: Lolita, de Stanley Kubrick (senhas a partir das 15h30; 0 €)
às 17h42, na TV5, Christian Dior - La France (episódio 1/2; 95’) *
às 19h00, na Sala de Âmbito Cultural de Lisboa (Piso 6) do El Corte Inglés, conferência do ciclo Cinco Homens que abalaram a Europa: Estaline, por Jaime Nogueira Pinto (0€, inscrição: Ponto de Informação, Piso 0)
às 21h30, na Cinemateca, Pickpocket (O Carteirista), de R. Bresson
às 21h30, no Salão Nobre do Palácio do Marquês de Pombal, Oeiras., ciclo As Grandes Inquietações da Ciência: Como irá a inovação afetar a sociedade e seres humanos?, com Alexandre Quintanilha
às 22h02, na TV5, Graffiti, Peintres et Vandales (documentário; 76’) *
às 23h43, na Mezzo, Thelonious Monk Quartet – Bruxelles 1963 (29’)
às 24h05, na RTP Memória, Forrobodó (55’)
às 26h16, na Mezzo, Satchmo special : Louis Armstrong and his all stars, 1959 (52’)
Quarta-feira, dia 26
às 15h00, no Museu Nacional de Arte Antiga, visita temática: Madonna Mia! - Descobrir as diferentes faces da Virgem Maria na colecção do MNAA, por Carla Varela Fernandes (inscrição prévia veraonomnaa@gmail.com, 10€)
às 15h30, na Mezzo, Thelonious Monk Quartet – Bruxelles 1963 (29’)
às 19h00, no Goethe-Institut, debate do ciclo Quo Vadis, Europa?, com José Pacheco Pereira, Mathias Greffrath e Detlef Gürtler (0 €)
às 20h04, na Mezzo, Michel Portal Quintet – Europa Jazz (52’)
às 20h58, na Mezzo, Michel Portal ‘Minneapolis’ – Sons d’Hiver (53’)
às 22h33, na Mezzo, Gregory Porter at the International Jazz Festival of Montréal 2016 (130’)
às 23h10, na RTP2, Maestros of the Camps (Música Contra o Esquecimento) (55’)
às 24h05, na Antena 1, Radicais Livres, com Ruben de Carvalho e J. N. Pinto
Quinta-feira, dia 27
às 4h00, na ARTE, Gulbenkian Música - Festival de piano à Lisbonne (Passion piano, janeiro 2018) (57’) **
às 13h25, na Casa-Museu Medeiros e Almeida, A Pausa do Mês: Powder Blue (0€)
às 15h30, no Museu Nacional de Arte Antiga, visita orientada: MNAA 12 Escolhas (bilhete de entrada no MNAA)
às 18h00, na Cinemateca, Filming Othello, de Orson Welles
às 18h15, no Mosteiro do Jerónimos, conferência do ciclo Diálogos com o Mosteiro dos Jerónimos Entre o mundo que não vivemos e o mundo em que não viveremos: Património cultural - diálogos entre Estado e sociedade civil, com Dalila Rodrigues e Diogo Freitas (0€; inscrições: geral@dialogosjeronimos.pt)
às 18h30, na Sociedade Portuguesa de Autores, Grandes Árias e Duetos de Ópera, com os solistas da Metropolitana: Ana Paula Russo (soprano), Marco Alves dos Santos (tenor) e Savka Konjikusic (piano) (0€)
às 19h00, na Sala de Âmbito Cultural de Lisboa (Piso 6) do El Corte Inglés, conferência do ciclo Cinco Homens que abalaram a Europa: Mussolini, por Jaime Nogueira Pinto (0€, inscrição: Ponto de Informação, Piso 0)
às 21h30, na Cinemateca, Othello, de Orson Welles
às 24h52, na TV5, 300 Millions de Critiques (magazine; 55’) *
às 26h57, na Mezzo, Thelonious Monk Quartet – Bruxelles 1963 (26’)
Dia 28, às 15h30, na Cinemateca, Os Amores de uma Loira, de Milos Forman
Dia 28, às 19h00, na Sala de Âmbito Cultural de Lisboa (Piso 6) do El Corte Inglés, apresentação do ensaio Envelhecimento e políticas de saúde, com Teresa Rodrigues (autora), Ribeiro e Rui Portugal (0€, inscrição: Ponto de Informação, Piso 0 ou relacoespublicas@elcorteingles.pt )
Dia 29, às 11h00, na Fundação Eugénio de Almeida, Évora, visita guiada à galeria de Frescos das Casas Pintadas, por Sónia Talhé Azambuja
Dia 29, às 15h30, na Cinemateca, La Visita (Anúncio de Casamento), de Antonio Pietrangeli e À nos Amours (Aos Nossos Amores), de Maurice Pialat
Dia 29, às 16h00, no Palácio da Ajuda, visita guiada à exposição Na Rota das Catedrais – Construções (d)e Identidades, por Marco Daniel Duarte (5 €)
Dia 29, às 21h00, no Teatro São Luiz, Mário Laginha, Julian Argüelles e Helge Norbakken (15€)
Dia 30, às 16h00, na Fábrica da Pólvora de Barcarena, Mafalda e os seus Novos Amigos: (concerto didático para Pais & Filhos), com o Quinteto de Sopros da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras e direção artística e comentários de Nikolay Lalov (0€)
Dia 30, às 17h30, na Igreja do Mosteiro dos Jerónimos, Concerto do 9.º aniversário do Órgão Mathis (J.S. Bach, F. Mendelssohn, V. Petrali, M.E. Bossi e F. Provesi), por Daniele Ferretti (0€)
Dia 30, às 19h00, na Altice Arena, Venham mais 20 (G. Gershwin, A. Dvořák), com Mário Laginha (piano) e a Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigidos por Pedro Amaral (5€)
Dia 1, Dia Mundial da Música:
às 18h00, no Museu da Música, ciclo Um Músico, um Mecenas - concerto (Canções Populares Espanholas) com instrumentos históricos do Museu, com Pavel Gomziakov e Ricardo Barceló (violoncelo Stradivarius Chevillard, 1725) (0€)
18h30, no Largo de São Carlos, Vozes ao largo – evocação de F Lopes-Graça;
Dia 2, às 17h42, na TV5, Christian Dior (episódio 2/2; 95’) *
Dia 2, às 19h00, na Sala de Âmbito Cultural de Lisboa (Piso 6) do El Corte Inglés, conferência do ciclo Cinco Homens que abalaram a Europa: Hitler, por Jaime Nogueira Pinto (0€, inscrição: Ponto de Informação, Piso 0)
Dia 2, às 19h00, no Átrio do Teatro D. Maria II, Clube dos Poetas Vivos, com Jaime Rocha (0€)
Dia 2, às 21h30, no Salão Nobre do Palácio do Marquês de Pombal, Oeiras., ciclo As Grandes Inquietações da Ciência: A ficção vai ser mais forte que a realidade?, com António Câmara
Dia 4, às 19h00, numa sala de cinema UCI no El Corte Inglês e no Arrábida Shopping, La Bohéme, de G. Puccini, gravada num palco flutuante do porto de Sidney (11,70€)
Dia 4, às 21h00, na Basílica do Palácio Nacional de Mafra, Concerto Comemorativo da instalação dos dois orgãos da Capela-mor (0 €, inscrição pelo 261 817 550)

Esta informação está disponível, e é actualizada, no blog http://azweblog.blogspot.com e no facebook ( https://www.facebook.com/pages/Sugestôes/582224458542163 )
Bom fim de semana!
JMiguel          


* Depois da emissão talvez fique disponível em http://www.tv5mondeplus.com/toutes-les-videos , mas um dos operadores de cabo já disponibiliza a gravação automática de sete dias deste canal
** Depois da emissão talvez fique disponível em http://www.arte.tv/guide/fr/plus7/?country=PT

6/17/2014

Forma e Substância

          Creio que mesmo se Antero de Quental tivesse vivido um século mais tarde, ele não iria em futebóis. Para o malogrado escritor e pensador, possivelmente o actual Campeonato do Mundo que se está a realizar no Brasil passaria praticamente ao lado. No entanto, o que há dias sucedeu no Espanha-Holanda e hoje ocorreu no Portugal-Alemanha não pôde deixar de me fazer lembrar as teses de Antero expostas na sua famosa comunicação sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. É que a Espanha, aureolada com o pesado título de campeã do mundo, se viu destroçada por uma Holanda voluntariosa e combativa que logrou o espantoso resultado de 5-1. No jogo que Portugal disputou há horas com a Alemanha, o que aconteceu não foi tão diferente assim. O resultado final de 4-0 não tem discussão.

          E assim os dois povos peninsulares foram copiosamente batidos por dois países do Norte da Europa. Na sua famosa comunicação sobre o atraso peninsular, Antero referia-se, como todos sabemos, à Contra-Reforma, que comparou desfavoravelmente com a Reforma Protestante, à Monarquia Absoluta castradora de liberdade e de espírito de iniciativa, e ao sistema económico que derivou dos Descobrimentos e respectivas colónias (há bens que vêm por mal). 

          Pergunta-se: e o que é que isto tem a ver com o futebol? Nada, pelo menos aparentemente. Mas há um ponto, que creio ter sido também intuído por Antero, que é a diferença entre o primado da forma e o primado da substância. Geralmente, os países do Sul continuam a defender muito o primado da forma, o que os faz falarem e escreverem muito – e no futebol gesticular e discutir as decisões dos árbitros -, prestando menos do que a atenção devida à substância. No jogo de Portugal, conforme transmitido e relatado pela RTP1, foi notória a constante intervenção do locutor sobre um programa do canal que ninguém deveria perder, onde a posteriori se discutiria tudo sobre o jogo, com as melhores declarações, entrevistas e comentários. Bla, bla, bla, bla. O que é isto senão a forma? Entretanto, usando a mesma atitude de apreço primordial pela substância, os alemães iam impiedosamente caminhando para a nossa baliza, coleccionando golos. Originalmente, “goal”, de onde deriva a palavra portuguesa “golo”, significa “objectivo”, e esta é a substância da questão.

          Como português e também como cidadão ibérico custou-me muito ver os dois países da Ibéria serem estrondosamente derrotados por dois países do Norte europeu, mas sou forçado a reconhecer que a superioridade dessas duas equipas foi inegável. Todos sabemos que no futebol podem existir grandes surpresas, mas nos dois encontros em apreço foi menos o milagre e mais a realidade que se impôs. 

5/16/2014

Fugir do Paraíso?


            No final da década de ’60 e no início dos anos ’70 do século passado, houve uma enorme vaga de emigração portuguesa para a Europa. Para o Brasil já tinha sido comum. Para os Estados Unidos e Canadá era algo mais recente. Mas para a Europa e com tal força aquela onda emigratória era inédita. Os anos ’60 e início dos ’70 coincidiram com a Guerra Colonial, mas esta esteve longe de ser a grande força motriz por trás da debandada de portugueses para França, Alemanha, Luxemburgo e outros países da Europa. Os baixos salários que os trabalhadores auferiam em Portugal quando comparados com os que eram pagos no estrangeiro falaram mais alto e levaram muitos e bons braços da terra portuguesa para fora da pátria.
            Curiosamente, essa foi também a altura em que o Portugal turístico, que era então em imagens publicitárias “o segredo mais bem guardado da Europa” atingiu (em 1964) o seu primeiro milhão de visitantes estrangeiros, número largamente superado anos depois.
            De entre os locais descobertos para o turismo sobressaía, como alguns se lembrarão, o nosso Algarve. O Algarve era publicitado como um paraíso de sol e de tranquilidade para visitantes endinheirados. Porém, mesmo do Algarve saíam centenas de emigrantes para os países europeus. Este facto levou a certa altura o Bispo do Algarve a comentar ironicamente que podia imaginar o gosto de alguém em largar o Inferno, mas que lhe era extremamente difícil entender que alguém estivesse interessado em abandonar o Paraíso. Tinha a sua lógica o comentário do Bispo.
            Embora a História, como se sabe, não se repita, é um facto que ela muitas vezes rima. Presentemente, os arautos do Governo português proclamam que a sua governação tem sido um sucesso; que a economia está a dar a volta e a recuperação já começou; que as exportações têm aumentado substancialmente; que, ao contrário do que muita gente esperava, o Governo se decidiu por uma “saída limpa”, calando assim as calhandras que só falavam de desastres. Voltámos à narrativa do Paraíso português!
            Ora, parece que de maneira algo semelhante àquela que levou tantos trabalhadores algarvios a emigrarem do seu Paraíso nas décadas atrás mencionadas, também agora é do Paraíso português propalado pelo actual Governo que duas conceituadas instituições financeiras decidem cessar a sua actividade em Portugal, i.e. abandonar o Paraíso. As duas instituições são sobejamente conhecidas. Uma delas é o Banco Barclays, a outra o BBVA (Banco Bilbao Vizcaya Argentaria). O primeiro está em Portugal há pelo menos 40 anos; o segundo está entre nós há um número inferior de anos: apenas há 23. Segundo o jornal espanhol El País, a operação portuguesa não oferece a rentabilidade esperada. É talvez um pouco mais do que isso, diga-se: nos últimos três anos de actividade em Portugal, o BBVA registou perdas que chegaram aos 133 milhões de euros. Para paraíso não está mal.
            Será que tanto os trabalhadores algarvios de há décadas como os bancos internacionais aqui referidos são insensíveis aos encantos do Paraíso?

5/06/2014

"A gente" e "as pessoas" serão uma e a mesma coisa?


O dicionário de língua portuguesa que geralmente uso diz-me, entre outras acepções do termo, que “gente” é um conjunto de pessoas, o género humano, a humanidade, o povo. É de facto esta a noção que a maioria de nós tem relativamente à palavra. Logo, pode parecer à primeira vista que “as pessoas” e “a gente” são a mesmíssima coisa. Talvez não seja bem assim.  

Na utilização linguística que vemos e ouvimos todos os dias, “a gente” surge-nos geralmente em expressões positivas, desculpantes ou vitimizadoras para quem fala. Há, portanto, uma tendência para nos incluirmos no “a gente” a que nos referimos. Exemplificando:

“Se a gente não é informada da razão do atraso na partida do avião, como é que podemos saber o que se passa?”
“Se não houver saída por esta rua, a gente vai lá por trás, por umas travessas, e sai na mesma.”
“O Governo precisa de dinheiro e a gente é que paga.”
“A gente” é geralmente sinónimo de “uma pessoa”, expressão que é também positiva e na qual igualmente tendemos a incluir-nos.
“Como é que uma pessoa pode decorar isto tudo – duzentas páginas - para um exame?”
“E depois querem que uma pessoa não proteste!”
“Como é que querem que uma pessoa possua sentido crítico, se na escola não nos ensinam a pensar criticamente, a pôr as coisas em dúvida?”

            Pelo contrário, quando utilizamos – e fazemo-lo com grande frequência – a expressão “as pessoas”, colocamo-nos geralmente de fora e tendemos a expressar uma crítica, na qual nos incluímos apenas como bom elemento observador e não como alvo da opinião geralmente negativa que é expressa. Exemplificando:
          
                “As pessoas estão a ficar cada vez mais porcas. Agora nem põem o lixo nos contentores.”
            “As pessoas estão todas a monte aqui à frente no autocarro, quando há tantos lugares vagos lá atrás!”
            “As pessoas agora não sabem nada de História ou de Geografia de Portugal. No meu tempo sabíamos tudo de cor e salteado.”
            “As pessoas agora não querem trabalhar. Preferem receber subsídio de desemprego.”
          
           Como no nosso país criticar há muito que se transformou numa instituição nacional, quando ouvimos alguém usar “as pessoas” como sujeito de uma oração sabemos antecipadamente que vamos ter algo reprovativo. Em princípio não ofende ninguém em particular ou, visto de outro ângulo, atinge toda a gente, com clara e óbvia excepção de quem formula a censura, que se arvora em professor ou professora do povo: se pudesse, endireitaria este mundo e o outro. Infelizmente, não pode. À guisa de compensação, invectiva tudo e todos.
            
          
Se prestarmos atenção, encontraremos este quadro em muitos lados e em variadíssimas ocasiões. E se a nossa atenção for implacável, talvez nos encontremos também nós próprios a pintar esse quadro de “as pessoas”.

4/20/2014

AGUENTAR OU NÃO, EIS A QUESTÃO


          Num dos pelotões militares que, como oficial miliciano, me atribuíram para a obrigatória recruta, encontrei um soldado que era na altura campeão nacional de 5 000 metros. Nas boas instalações que tínhamos no quartel, ele treinava diariamente ao ar livre a sua corrida, de uma maneira que para mim constituiu alguma novidade: corria 100 metros para um lado, descansava uns segundos, corria 100 metros em sentido contrário, e ali estava um ror de tempo exercitando-se sem cansaço aparente. Eu tinha na altura uma razoável preparação física e, falando com ele, admiti que não aguentaria treinar durante tanto tempo. “É preciso praticar”, dizia-me ele. “Depois aguenta-se melhor.” Era o clássico conceito de Practice makes perfect aplicado à corrida. “Mas há uns que aguentam melhor e outros que não aguentam mesmo”, contestei eu. O soldado, que corria por um dos grandes clubes do país, admitiu naturalmente que isso também era verdade e confessou-me, a meu pedido, onde é que arranjara aquela resistência toda: “Fiz muito contrabando lá na minha terra. Tinha que percorrer grandes distâncias.”

          De facto, a prática é muito importante, mas só testando as pessoas se vê se elas aguentam ou não um determinado esforço. Mudando de agulha neste discurso, quero lembrar que o Governo do nosso país nos tem aplicado doses maciças de impostos e de cortes nos rendimentos que vêm testando a nossa capacidade de suportar esses esforços. 

        Aumentou a pobreza no país, o desemprego tornou-se uma praga, foi reduzida a assistência na doença mas, melhor ou pior, o povo tem na generalidade aguentado o sacrifício. Tem crescido o número de suicídios e divórcios, tem diminuído o número de crianças nascidas, morre-se em Portugal mais do que se nasce. Mas há ainda muita gente que vem aguentando, gente que parece ser em número demasiado elevado na óptica do Governo. O ideal era que desaparecessem mais pessoas, através de morte natural ou auto-infligida, ou através da emigração para outras paragens.

          Todavia, o Governo, que se preocupa primordialmente com as contas públicas e tem os seus alvos fiscais preferidos, já pode dizer agora, após três anos de experiências agravadamente repetidas, que os esforços apodados de temporários vão passar a definitivos. A prática mostrou que há muita gente que os aguenta, pelo que não há argumentos que possam destruir os factos.

          O “aguenta, aguenta!”, que se tornou célebre depois de saído da boca de um conhecido banqueiro português, não consistiu apenas em palavras. Foi todo um processo para verificar as reacções e os respectivos resultados.

          O antigo soldado do meu pelotão tinha razões de sobra para confiar na prática do treino.