6/22/2018

AS SUGESTÕES DO JOÃO MIGUEL

Já tinha fechado esta edição quando espreitei a Mezzo e conheci Catherine Russell. A exemplo dos motoristas de autocarro correctos, abri as portas e inclui-a. Espero que concorde.
A decorrer
Até dia 24, Portas Abertas (detalhes em https://acessocultura.org/portas-abertas-2018/ )
De 23 a 1 de Julho, das 15h às 24h (tasquinhas 12h30 às 24h), na FIL, FIA (Feira Internacional de Artesanato) (5€)
Até 7 de Julho, Cistermúsica ( http://www.cistermusica.com/ )
Até 15 de Julho, Campeonato do Mundo de Futebol (no jardim do Goethe-Institut jogos da Alemanha)
Até 15 de Julho, nos jardins do Instituto Alemão, JiGG (Jazz im Goethe-Garten)
De 6 a 28 de Julho, no largo de S. Carlos, Festival ao Largo
O Museu da Água (Aqueduto das Águas Livres, Reservatório da Mãe d'Água das Amoreiras, Reservatório da Patriarcal e Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos) está aberto, gratuitamente, durante todos os fins-de-semana de 2018
Sexta-feira, dia 22
às 10h45, na Mezzo live HD, Gregory Porter à Jazz Sous Les Pommiers (63’)
às 11h30, na RTP2, Nos Telhados do Mundo - Barcelona (52’)
às 15h30, na Cinemateca, Perdido por Cem …, de António-Pedro Vasconcelos
às 17h00, na Academia das Ciências, Jovens Solistas da Metropolitana (E. Grieg, W. A. Mozart, A. Khachaturian, G. Menotti e R. Schumann)
às 18h00, na ARTE, Tableaux de voyage - Barcelone et Picasso (44’)
às 19h00, no Museu Nacional da Música Museu Nacional da Música, recital de piano (Bach e Rachmaninoff), por Svetlana Rudenko (0 €)
às 21h00, na Biblioteca Nacional de Portugal, Compositores Exilados - Lopes-Graça, K. Weil, com Nuno Abreu (violoncelo) e a Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigidos por Amaury du Closel (7 €)
às 21h00, no Terreiro do Palácio Nacional de Sintra, Concerto de Solstício de Verão (0 €)
às 25h40, na ARTE, Les petits secrets des grands tableaux - Le peseur d'or et sa femme, Quentin Metsys, 1514 (28’)
Sábado, dia 23
às 4h50, na ARTE, Grand'Art - Rosso Fiorentino (25’)
das 10h00 às 26h00, na Casa da Cerca, Almada, Festa da Casa da Cerca (25 anos)
às 11h00, na Museu da Pólvora Negra - Fábrica da Pólvora de Barcarena, visita orientada: A produção industrial da pólvora - O percurso de A a Z (0€)
às 12h00, na Mezzo live HD, Paolo Fresu / Omar Sosa / Trilok Gurtu - Jazz in Marciac (53’)
às 12h10, na TSF, Encontros com o Património: A Cinemateca Portuguesa
às 13h05, na Antena 1, Radicais Livres, com Ruben de Carvalho e J. N. Pinto
às 13h15, na Mezzo, A Swan Lake, chorégraphie d'Alexander Ekman (98’)
às 14h00, na Mezzo live HD, Lisa Simone - Jazz in Marciac (58’)
às 15h30, na Mezzo, Young People's Concerts: Qui était Gustav Mahler, por Leonard Bernstein (53’)
às 15h59, na TV5, 300 Millions de Critiques (magazine; 55’) *
às 19h50, na ARTE, Le Versailles secret de Marie-Antoinette (95’)
às 21h00, no Auditório Senhora da Boa Nova, Galiza – Estoril, Concerto de Verão (P. Vladigerov, A. Khachaturian e P. I. Tchaikovsky), com a Orquestra Sinfónica de Cascais, dirigida por Nikolay Lalov (15€)
às 21h25, na ARTE, Le mobilier de Versailles - Du Roi-Soleil à la Révolution (55’)
às 23h28, na RTP2, Veredas, de J. C. Monteiro
Domingo, dia 24
às 10h00, na ARTE, Grand'Art – Tintoretto  (25’)
às 10h30, no Convento de São Pedro de Alcântara, visita guiada do ciclo Património ao Domingo (0€; inscrição prévia pelo 213 240 869 / 866)
às 10h30, na ARTE, Metropolis: Saint-Pétersbourg (43’) **
às 15h05, na ARTE, Le Versailles secret de Marie-Antoinette (95’)
às 16h00, na Antena 2, Musica Aeterna – nos 410 anos do nascimento do Padre António Vieira (IV - Luís Miguel Cintra lê o Sermão de Quarta-Feira de Cinzas), por João Chambers
às 16h35, na ARTE, Les grands magasins, ces temples du rêve – Les Galeries Lafayette, Paris (56’)
às 17h30, na ARTE, L'Alhambra en musiques (43’)
às 18h00, no Museu do Oriente, concerto comemorativo do 120º aniversário da independência das filipinas (S. Rachmaninoff, F. Chopin, I. Albeniz, J. Viana da Motta, M. Ravel, F. P. De Leon, R. Wagner, F. Liszt, A. Piazzolla e G. Gershwin), com Raul M. Sunico (piano solo) (0 €; senhas no próprio dia)
às 19h15, na Mezzo e Mezzo live HD, transmissão em directo da Waldbühne, concerto de despedida de Simon Rattle, com Magdalena Kožená (mezzo-soprano) e a Berliner Philharmoniker
às 22h35, na ARTE, 50 ans Montreux Jazz Festival - More than Jazz (58’)
às 23h15, na RTP2, Nos Telhados do Mundo - Tóquio (52’)
às 23h47, na Mezzo live HD, Catherine Russell - Jazz en Tête (47’)
Segunda-feira, dia 25
às 16h00, na Mezzo live HD, Paolo Fresu / Omar Sosa / Trilok Gurtu - Jazz in Marciac (53’)
às 18h00, na Mezzo live HD, Lisa Simone - Jazz in Marciac (58’)
às 19h00, no Auditório do ISEG, Concerto Antena 2: A história do soldado, de Igor Stravinsky, com Paulo Pires (narração) e Ensemble Darcos (0 €)
às 19h30, na Mezzo, Young People's Concerts: deux oiseaux de ballet, por Leonard Bernstein (53’)
às 21h00, na Sala de Ensaio do CCB, ciclo de conversas 2084 Imagine, convidado: José Pedro Serra (3€)
às 21h30, na Casa da Achada, sessão do ciclo Os ofícios do cinema (e de outras artes): One plus one - Sympathy for the Devil, de Jean-Luc Godard (0 €)
às 24h10, na Antena 1, Crónicas da Idade Mídia, com Ruben de Carvalho
às 25h00, na Mezzo live HD, Paolo Fresu / Omar Sosa / Trilok Gurtu - Jazz in Marciac (53’)
às 25h54, na Mezzo live HD, Lisa Simone - Jazz in Marciac (58’)
Terça-feira, dia 26
às 12h25, na RTP2, Visita Guiada
às 14h32, na TV5, # Version Française - Papiers marbrés/Ramdane Touhami/La Pampa (magazine; 26’) *
às 18h30, no Goethe-Institut, Fausto – Um Símbolo Moderno da Europa? (conversa sobre a nova edição dos poemas de Fausto, de Fernando Pessoa e leitura cénica do Fausto), com Carlos Pittella e João Barrento (0 €)
às 21h30, na Cinemateca, Jaime, de António-Pedro Vasconcelos
às 22h45, na Mezzo, Catherine Russell - Jazz en Tête (47’)
às 23h30, na RTP2, João Cutileiro – A Pedra não Espera
às 25h42, na TV5, Baccarat, le cristal des rois ( 52’) *
Quarta-feira, dia 27
às 4h00, na ARTE, L'Alhambra en musiques (43’)
às 14h10, na Mezzo, Young People's Concerts: Qu'est-ce qu'une mélodie ?, por Leonard Bernstein (53’)
às 15h30, na Cinemateca, Oxalá, de António-Pedro Vasconcelos
às 16h24, na Mezzo, Gregory Porter à Jazz Sous Les Pommiers (63’)
às 17h30, na Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos, Rua Barros Queirós 20,1º-E, Chá com Letras: Jorge Afonso - o pintor Régio de D. Manuel, com Vítor Serrão (inscrição 218 885 381)
às 17h30, na Mezzo, Avishaï Cohen New York Division Jazz à Vienne
às 19h00, no Museu Nacional de Arte Antiga, Concerto Antena 2: In Memoriam Guilhermina Suggia (J.S. Bach, L. v. Beethoven e S. Taneiev), por elementos do Moscow Piano Quartet
às 19h00, no Museu Nacional da Música, conferência do ciclo Poesia no Museu: Letras, por Miguel Tamen (0€)
às 19h00, na Cinemateca, Os Imortais, de António-Pedro Vasconcelos
às 19h59, na TV5, Des Racines & des Ailes – En Gironde, des vignobles aux grands lacs (112’)
às 20h00, na Mezzo live HD, Paolo Fresu / Omar Sosa / Trilok Gurtu - Jazz in Marciac (53’)
às 22h00, na Mezzo live HD, Lisa Simone - Jazz in Marciac (58’)
às 23h00, na RTP2, Um Cigarro com Álvaro Siza Vieira
às 23h00, na Mezzo live HD, Avishaï Cohen New York Division Jazz à Vienne
às 24h07, na Antena 1, Radicais Livres, com Ruben de Carvalho e J. N. Pinto
às 10h26, na Mezzo, Young People's Concerts: Qui était Gustav Mahler, por Leonard Bernstein (53’)
às 11h25, na RTP2, Draw Me Saint-Exupéry (momentos da vida de Antoine de Saint-Exupéry) (53’)
às 13h25, na Casa-Museu Medeiros e Almeida, A Pausa do Mês: Tijela de arroz imperial (0€)
às 15h30, na Cinemateca, Je Vous Salue Sarajevo e Le Petit Soldat (O Soldado das Sombras), de Jean-Luc Godard
às 19h14, na TV5, Chic en Version Française: Samuel Gassman/Olivia Putman (magazine; 15’) *
às 19h30, na Mezzo, Esbjörn Svensson Trio au festival JazzTM , Timisoara (98’)
às 21h30, na Cinemateca, Amor Impossível, de António-Pedro Vasconcelos
às 23h00, na RTP2, Veneza, Desafio Tecnológico
às 23h56, na TV5, 300 Millions de Critiques (magazine; 55’) *
às 25h57, na Mezzo, Gregory Porter à Jazz Sous Les Pommiers (63’)
A seguir:
Dia 29, às 21h30, na Cinemateca, Je Vous Salue Sarajevo e Le Petit Soldat (O Soldado das Sombras), de Jean-Luc Godard
Dia 29, às 22h00, na Cinemateca, Das Fräulein (A Senhorita), de Andrea Staka (primeira exibição na Cinemateca)
Dia 29, às 21h00, na Biblioteca Nacional de Portugal, Música na Biblioteca II (C. Marecos e J. Brahms), com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida por Reinaldo Guerreiro (7 €)
Dia 30, às 18h00, no Auditório Municipal Ruy de Carvalho, em Carnaxide, Grande Concerto de Verão (W. A. Mozart, Fr. Schubert, F. Mendelssohn, G. Rossini, G. Bizet  A. Dvorák e E. Elgar), com a Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, dirigida por Nikolay Lalov (3€)
Dia 30, às 21h00, no Reservatório da Mãe d'Água, concerto de Verão da Universidade de Lisboa, com o Coro da Universidade
Dia 30, às 21h30, no O´culto da Ajuda (Travessa da Zebras 25/27, à Calçada da Ajuda), recital de canto e piano, com Inês Simões (soprano) e Daniel Godinho (piano)
Dia 30, às 21h30, na Igreja Matriz de Santiago Maior, Santiago do Cacém, Festival Terras sem Sombra: Fragmentos Vitais - Kurtág e a Sua Circunstância, com Andrea Brassói-Jőrös (soprano), Máté Soós (violino), Péter Kiss (piano) e Péter Szücs (clarinete)
Dia 3, às 18h30, no Museu Bordalo Pinheiro, conversa do ciclo Cerâmica e Azulejaria de Rafael Bordalo Pinheiro: A Cidade e o Campo - Aspectos da Cultura Popular na Obra Cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro, com Pedro Prista
Dia 3, às 19h00, nos jardins do Instituto Alemão, JiGG (Jazz im Goethe-Garten): Gonçalo Almeida, Rodrigo Amado e Marco Franco (5€)
Dia 3, às 25h34, na Mezzo, Catherine Russell - Jazz en Tête (47’)
Dia 4, às 19h00, nos jardins do Instituto Alemão, JiGG (Jazz im Goethe-Garten): Chaosophy (5€)
Dia 4, às 25h49, na Mezzo, Catherine Russell - Jazz en Tête (47’)
Dia 5, às 18h15, no Mosteiro do Jerónimos, conferência do ciclo Diálogos com o Mosteiro dos Jerónimos Entre o mundo que não vivemos e o mundo em que não viveremos: A luxúria ambiental dos Descobrimentos e a biodiversidade de amanhã, com Filipe Duarte Santos e Helena Freitas (0€; inscrições: geral@dialogosjeronimos.pt)
Dia 5, às 19h00, nos jardins do Instituto Alemão, JiGG (Jazz im Goethe-Garten): O.N.G. (5€)

Esta informação está disponível, e é actualizada, no blog http://azweblog.blogspot.com e no facebook ( https://www.facebook.com/pages/Sugestôes/582224458542163 )
Bom fim de semana!
JMiguel          


* Depois da emissão talvez fique disponível em http://www.tv5mondeplus.com/toutes-les-videos , mas um dos operadores de cabo já disponibiliza a gravação automática de sete dias deste canal
** Depois da emissão talvez fique disponível em http://www.arte.tv/guide/fr/plus7/?country=PT

6/17/2014

Forma e Substância

          Creio que mesmo se Antero de Quental tivesse vivido um século mais tarde, ele não iria em futebóis. Para o malogrado escritor e pensador, possivelmente o actual Campeonato do Mundo que se está a realizar no Brasil passaria praticamente ao lado. No entanto, o que há dias sucedeu no Espanha-Holanda e hoje ocorreu no Portugal-Alemanha não pôde deixar de me fazer lembrar as teses de Antero expostas na sua famosa comunicação sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. É que a Espanha, aureolada com o pesado título de campeã do mundo, se viu destroçada por uma Holanda voluntariosa e combativa que logrou o espantoso resultado de 5-1. No jogo que Portugal disputou há horas com a Alemanha, o que aconteceu não foi tão diferente assim. O resultado final de 4-0 não tem discussão.

          E assim os dois povos peninsulares foram copiosamente batidos por dois países do Norte da Europa. Na sua famosa comunicação sobre o atraso peninsular, Antero referia-se, como todos sabemos, à Contra-Reforma, que comparou desfavoravelmente com a Reforma Protestante, à Monarquia Absoluta castradora de liberdade e de espírito de iniciativa, e ao sistema económico que derivou dos Descobrimentos e respectivas colónias (há bens que vêm por mal). 

          Pergunta-se: e o que é que isto tem a ver com o futebol? Nada, pelo menos aparentemente. Mas há um ponto, que creio ter sido também intuído por Antero, que é a diferença entre o primado da forma e o primado da substância. Geralmente, os países do Sul continuam a defender muito o primado da forma, o que os faz falarem e escreverem muito – e no futebol gesticular e discutir as decisões dos árbitros -, prestando menos do que a atenção devida à substância. No jogo de Portugal, conforme transmitido e relatado pela RTP1, foi notória a constante intervenção do locutor sobre um programa do canal que ninguém deveria perder, onde a posteriori se discutiria tudo sobre o jogo, com as melhores declarações, entrevistas e comentários. Bla, bla, bla, bla. O que é isto senão a forma? Entretanto, usando a mesma atitude de apreço primordial pela substância, os alemães iam impiedosamente caminhando para a nossa baliza, coleccionando golos. Originalmente, “goal”, de onde deriva a palavra portuguesa “golo”, significa “objectivo”, e esta é a substância da questão.

          Como português e também como cidadão ibérico custou-me muito ver os dois países da Ibéria serem estrondosamente derrotados por dois países do Norte europeu, mas sou forçado a reconhecer que a superioridade dessas duas equipas foi inegável. Todos sabemos que no futebol podem existir grandes surpresas, mas nos dois encontros em apreço foi menos o milagre e mais a realidade que se impôs. 

5/16/2014

Fugir do Paraíso?


            No final da década de ’60 e no início dos anos ’70 do século passado, houve uma enorme vaga de emigração portuguesa para a Europa. Para o Brasil já tinha sido comum. Para os Estados Unidos e Canadá era algo mais recente. Mas para a Europa e com tal força aquela onda emigratória era inédita. Os anos ’60 e início dos ’70 coincidiram com a Guerra Colonial, mas esta esteve longe de ser a grande força motriz por trás da debandada de portugueses para França, Alemanha, Luxemburgo e outros países da Europa. Os baixos salários que os trabalhadores auferiam em Portugal quando comparados com os que eram pagos no estrangeiro falaram mais alto e levaram muitos e bons braços da terra portuguesa para fora da pátria.
            Curiosamente, essa foi também a altura em que o Portugal turístico, que era então em imagens publicitárias “o segredo mais bem guardado da Europa” atingiu (em 1964) o seu primeiro milhão de visitantes estrangeiros, número largamente superado anos depois.
            De entre os locais descobertos para o turismo sobressaía, como alguns se lembrarão, o nosso Algarve. O Algarve era publicitado como um paraíso de sol e de tranquilidade para visitantes endinheirados. Porém, mesmo do Algarve saíam centenas de emigrantes para os países europeus. Este facto levou a certa altura o Bispo do Algarve a comentar ironicamente que podia imaginar o gosto de alguém em largar o Inferno, mas que lhe era extremamente difícil entender que alguém estivesse interessado em abandonar o Paraíso. Tinha a sua lógica o comentário do Bispo.
            Embora a História, como se sabe, não se repita, é um facto que ela muitas vezes rima. Presentemente, os arautos do Governo português proclamam que a sua governação tem sido um sucesso; que a economia está a dar a volta e a recuperação já começou; que as exportações têm aumentado substancialmente; que, ao contrário do que muita gente esperava, o Governo se decidiu por uma “saída limpa”, calando assim as calhandras que só falavam de desastres. Voltámos à narrativa do Paraíso português!
            Ora, parece que de maneira algo semelhante àquela que levou tantos trabalhadores algarvios a emigrarem do seu Paraíso nas décadas atrás mencionadas, também agora é do Paraíso português propalado pelo actual Governo que duas conceituadas instituições financeiras decidem cessar a sua actividade em Portugal, i.e. abandonar o Paraíso. As duas instituições são sobejamente conhecidas. Uma delas é o Banco Barclays, a outra o BBVA (Banco Bilbao Vizcaya Argentaria). O primeiro está em Portugal há pelo menos 40 anos; o segundo está entre nós há um número inferior de anos: apenas há 23. Segundo o jornal espanhol El País, a operação portuguesa não oferece a rentabilidade esperada. É talvez um pouco mais do que isso, diga-se: nos últimos três anos de actividade em Portugal, o BBVA registou perdas que chegaram aos 133 milhões de euros. Para paraíso não está mal.
            Será que tanto os trabalhadores algarvios de há décadas como os bancos internacionais aqui referidos são insensíveis aos encantos do Paraíso?

5/06/2014

"A gente" e "as pessoas" serão uma e a mesma coisa?


O dicionário de língua portuguesa que geralmente uso diz-me, entre outras acepções do termo, que “gente” é um conjunto de pessoas, o género humano, a humanidade, o povo. É de facto esta a noção que a maioria de nós tem relativamente à palavra. Logo, pode parecer à primeira vista que “as pessoas” e “a gente” são a mesmíssima coisa. Talvez não seja bem assim.  

Na utilização linguística que vemos e ouvimos todos os dias, “a gente” surge-nos geralmente em expressões positivas, desculpantes ou vitimizadoras para quem fala. Há, portanto, uma tendência para nos incluirmos no “a gente” a que nos referimos. Exemplificando:

“Se a gente não é informada da razão do atraso na partida do avião, como é que podemos saber o que se passa?”
“Se não houver saída por esta rua, a gente vai lá por trás, por umas travessas, e sai na mesma.”
“O Governo precisa de dinheiro e a gente é que paga.”
“A gente” é geralmente sinónimo de “uma pessoa”, expressão que é também positiva e na qual igualmente tendemos a incluir-nos.
“Como é que uma pessoa pode decorar isto tudo – duzentas páginas - para um exame?”
“E depois querem que uma pessoa não proteste!”
“Como é que querem que uma pessoa possua sentido crítico, se na escola não nos ensinam a pensar criticamente, a pôr as coisas em dúvida?”

            Pelo contrário, quando utilizamos – e fazemo-lo com grande frequência – a expressão “as pessoas”, colocamo-nos geralmente de fora e tendemos a expressar uma crítica, na qual nos incluímos apenas como bom elemento observador e não como alvo da opinião geralmente negativa que é expressa. Exemplificando:
          
                “As pessoas estão a ficar cada vez mais porcas. Agora nem põem o lixo nos contentores.”
            “As pessoas estão todas a monte aqui à frente no autocarro, quando há tantos lugares vagos lá atrás!”
            “As pessoas agora não sabem nada de História ou de Geografia de Portugal. No meu tempo sabíamos tudo de cor e salteado.”
            “As pessoas agora não querem trabalhar. Preferem receber subsídio de desemprego.”
          
           Como no nosso país criticar há muito que se transformou numa instituição nacional, quando ouvimos alguém usar “as pessoas” como sujeito de uma oração sabemos antecipadamente que vamos ter algo reprovativo. Em princípio não ofende ninguém em particular ou, visto de outro ângulo, atinge toda a gente, com clara e óbvia excepção de quem formula a censura, que se arvora em professor ou professora do povo: se pudesse, endireitaria este mundo e o outro. Infelizmente, não pode. À guisa de compensação, invectiva tudo e todos.
            
          
Se prestarmos atenção, encontraremos este quadro em muitos lados e em variadíssimas ocasiões. E se a nossa atenção for implacável, talvez nos encontremos também nós próprios a pintar esse quadro de “as pessoas”.

4/20/2014

AGUENTAR OU NÃO, EIS A QUESTÃO


          Num dos pelotões militares que, como oficial miliciano, me atribuíram para a obrigatória recruta, encontrei um soldado que era na altura campeão nacional de 5 000 metros. Nas boas instalações que tínhamos no quartel, ele treinava diariamente ao ar livre a sua corrida, de uma maneira que para mim constituiu alguma novidade: corria 100 metros para um lado, descansava uns segundos, corria 100 metros em sentido contrário, e ali estava um ror de tempo exercitando-se sem cansaço aparente. Eu tinha na altura uma razoável preparação física e, falando com ele, admiti que não aguentaria treinar durante tanto tempo. “É preciso praticar”, dizia-me ele. “Depois aguenta-se melhor.” Era o clássico conceito de Practice makes perfect aplicado à corrida. “Mas há uns que aguentam melhor e outros que não aguentam mesmo”, contestei eu. O soldado, que corria por um dos grandes clubes do país, admitiu naturalmente que isso também era verdade e confessou-me, a meu pedido, onde é que arranjara aquela resistência toda: “Fiz muito contrabando lá na minha terra. Tinha que percorrer grandes distâncias.”

          De facto, a prática é muito importante, mas só testando as pessoas se vê se elas aguentam ou não um determinado esforço. Mudando de agulha neste discurso, quero lembrar que o Governo do nosso país nos tem aplicado doses maciças de impostos e de cortes nos rendimentos que vêm testando a nossa capacidade de suportar esses esforços. 

        Aumentou a pobreza no país, o desemprego tornou-se uma praga, foi reduzida a assistência na doença mas, melhor ou pior, o povo tem na generalidade aguentado o sacrifício. Tem crescido o número de suicídios e divórcios, tem diminuído o número de crianças nascidas, morre-se em Portugal mais do que se nasce. Mas há ainda muita gente que vem aguentando, gente que parece ser em número demasiado elevado na óptica do Governo. O ideal era que desaparecessem mais pessoas, através de morte natural ou auto-infligida, ou através da emigração para outras paragens.

          Todavia, o Governo, que se preocupa primordialmente com as contas públicas e tem os seus alvos fiscais preferidos, já pode dizer agora, após três anos de experiências agravadamente repetidas, que os esforços apodados de temporários vão passar a definitivos. A prática mostrou que há muita gente que os aguenta, pelo que não há argumentos que possam destruir os factos.

          O “aguenta, aguenta!”, que se tornou célebre depois de saído da boca de um conhecido banqueiro português, não consistiu apenas em palavras. Foi todo um processo para verificar as reacções e os respectivos resultados.

          O antigo soldado do meu pelotão tinha razões de sobra para confiar na prática do treino.