12/29/2009

Reservado

Nos transportes colectivos, lastima-se que os lugares reservados a pessoas inválidas e a grávidas ou com bebés ao colo sejam frequentemente ocupados por humanos que aparentam óptima saúde. "Pois é! Por fora parece que estou bem. Mas só eu sei como me sinto!" Com mais uns ais de dores contidas, uma senhora de cinquenta e tal anos rapa do seu doloroso historial de três operações, dois panarícios e uma coluna que Deus-te-livre. E, impante no seu sindroma de auto-coitadinha, continua sentada, à espera que seja outro a dar o lugar ao homem que traz o bebé ao colo.
Num país com uma velhice galopante, seria natural que aqueles lugares permanecessem vagos, aguardando que fossem pessoas de muita idade a usá-los. Não parece ser esse o sentido das coisas. E que tal se houvesse multas para quem se sentasse indevidamente nesses lugares, tal como há multas para quem for apanhado a viajar sem bilhete?

12/25/2009

Desejando a todos umas Boas Festas, não resisto a transcrever o poema "Dia de Natal", de António Gedeão. Vale a pena lê-lo, apesar de um bocadinho extenso...


Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes, a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha~se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda~o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

12/24/2009

Boas Festas


Feliz Natal para todos! Para os que estão em Portugal, que 2010 seja um ano que, contra ventos e marés, consiga contrariar as pessimistas previsões que se fazem diariamente.

12/20/2009

Vocês

Há dias recebi um e-mail de um velho amigo, que é inglês mas fala e escreve português praticamente como nós. É alguém que já vive há longos anos na Ásia, tendo no entanto morado alguns anos em Portugal, onde foi professor de línguas. Tem mantido contacto com o nosso país através de familiares e amigos que aqui possui e que visita sempre que lhe é possível. Colocava-me uma pergunta aparentemente simples: o plural de "tu" é "vocês"? O problema dele derivava de uma cartinha que tinha escrito para as suas pequenas netas. "Vós" não lhe soava bem, mas nenhuma das suas gramáticas lhe dizia que a forma correcta era "vocês", a qual no entanto era a que lhe vinha de pronto à mente.
Respondi-lhe que sim e acrescentei-lhe mais alguns pormenores. Mas admito que fiquei a pensar no assunto. O que vou adiante escrever são algumas dessas cogitações, que serão eventualmente confirmadas ou rejeitadas por leitores deste blog, tão portugueses como eu.
Quando nos lembramos dos nossos tempos de escola, recordamos que os pronomes pessoais que nos ensinavam eram: eu, tu, ele, ela – no singular - e nós, vós, eles, elas, no plural. O "você" não aparecia, nem tão pouco o "vocês". Consultei uma gramática da língua portuguesa editada há três anos e constato que não existem alterações relativamente ao que me foi ensinado. Contudo...
Contudo, o "você" é usadíssimo, e o "vocês" não será possivelmente menos. Lembro-me de ouvir os meus familiares dizerem-me que "você" era uma forma algo depreciativa. Por essa razão ou por outra, pessoalmente uso-a muito pouco, eliminando geralmente o pronome pessoal sujeito na conversa. Ao dizer "Como sabe," a uma pessoa, digamos que não a estou a tratar por tu, mas também não utilizo o "você". Elido-o. É o que muitos outros portugueses fazem. Recordo-me que quando passei a ter na família pessoas que não tinha tido até então – sogros - fiquei com um problema: como é que os vou tratar? Pelo nome e por tu pareceu-me abusivo. Por "pai" e "mãe" não me calhava nada. A história da possibilidade de um dia vir a ouvir "Vai chamar pai a outro!" ocorreu-me. Resolvi a questão através da elisão do pronome pessoal e passei a dizer coisas do género de "Como já vos disse", ou, dirigindo-me apenas a um deles, "Como lhe contei no outro dia". Já lá vão quase quatro décadas e devo dizer que não tenho tido quaisquer problemas. Nunca me passou pela cabeça dizer-lhes: "Como vocês sabem,..." Pareceu-me, talvez pela minha educação – também nunca chamei "velhos" aos meus pais – que o termo "vocês" soava algo depreciativamente. Mas será mesmo assim? Entretanto, com outras pessoas que não tutuo (este verbo não existe no meu dicionário com o significado de "tratar por tu", mas deveria existir), digo coisas como "Ó Manuela, não acha que...?" e a questão fica resolvida.
O "você", tal como terei aprendido, deriva de uma forma hoje perfeitamente antiquada: "Vossa Mercê". Daqui terá passado a "vossemecê" e, posteriormente, a "você". De há várias décadas a esta parte, a influência do Brasil telenovelado terá contribuído fortemente para a divulgação do "você" em Portugal.
E será que "você" se usa com a mesma pessoa verbal de “tu”, i.e. a segunda do singular? Não. E não poderia ser de outra maneira, pois sempre que eliminássemos o pronome as formas do verbo sairiam iguais. "Você" usa-se com a terceira pessoa do singular. Por seu lado, "vocês" usa-se com a terceira pessoa do plural. A segunda pessoa do plural, v.g. "sabeis", "sois" está em vias de extinção e só se usa com "vós", que está igualmente moribundo, se exceptuarmos as palavras de membros eclesiásticos e de algumas pessoas do interior do país. (É interessante notar que, no decorrer da missa, se opera entre o padre e a congregação um algo inesperado "vós" e "tu", em latim: Dominus vobiscum (Que o Senhor seja convosco!) Et cum spiritu tuo (e com o teu espírito).
Entretanto, a (con)fusão do plural com o singular é algo que nos faz pensar um pouco na estratificação da sociedade em classes, umas mais elevadas do que outras. Se repararmos em Vossa Majestade e Vossa Alteza, em Vossa Senhoria e na mencionada Vossa Mercê já em desuso, mas também no Vossa Excelência ainda hoje muito frequente, notamos que o "vossa" é pedido emprestado ao pronome possessivo com características de plural – "o vosso pai" ou "a vossa mãe" geralmente implica que se está a falar para mais de uma pessoa. Mas é um facto que poderei estar a dirigir-me apenas a uma pessoa que tenha muita idade e/ou por quem eu nutra muito respeito e tenha alguma hesitação em usar o mais comum "o seu pai" ou "a sua mãe". Isto implica que a consideração que um rei ou uma princesa nos merece, ou alguém que ocupa um importante cargo político pode levar-nos a olhá-los como mais do que uma pessoa. Por isso, Papas, Reis, Presidentes da República e quejandos usarão o plural majestático: "Parece-nos que..." (Se eu, ao dar a minha opinião a um amigo, lhe disser "Parece-nos que..." ele dir-me-á de pronto: "Parece-nos a quem? A ti e à bicha solitária que tens aí dentro?", no que terá toda a razão).
Ora, aqui coloca-se a pergunta: esta estratificação de classes também entrará no uso de "vocês"? Estou em crer que sim. Imaginemos uma casa de gente rica e algo snob que contrata uma empregada para tomar conta da Filipinha e da Inês, meninas pequenas como são as netas do meu amigo inglês. Se a mãe das pequenitas ouve a empregada a repreendê-las "Vocês não podem fazer isso!" poderá chamar-lhe a atenção para que não use o "vocês" (ela não é suposta tratá-las por "tu"), mas sim "A Filipinha e a Inês não podem fazer isso" ou "As meninas não podem fazer isso!"
O que digo aqui para uma casa rica é também verdade, creio eu, em jardins de infância, nomeadamente naqueles em que casais com mais posses depositam os seus filhotes. "Os meninos e as meninas" será a forma correcta. "Vocês" não deve ser usado.
E aqui entramos na última forma que me proponho abordar, que está ligada também ao sentido de superioridade de classe de uma determinada pessoa, um género de "o menino" ou "a menina", mas agora na versão adulta. Quando o menino se forma em Engenharia e a menina em Direito passam a ser, respectivamente, "o senhor engenheiro" e "a senhora doutora". A partir daí, o protocolo continua a exigir que, com excepção de familiares chegados, quando alguém se lhes dirige deva dizer "Como está o Senhor Engenheiro?", ou "A senhora doutora vai de férias em Agosto?", isto é: embora esteja na presença do engenheiro e da advogada, quem se lhes dirige fala com eles como se estivesse por exemplo a falar com a mãe deles. É a grande distância hierárquica que impera na sociedade portuguesa ainda a funcionar. Aliás é a distância hierárquica que leva casais de famílias "bem" a usarem entre si "você" em vez de "tu", para se distinguirem dos mais comuns mortais, como se não fossem para a cama juntos. Mas isso seria outra história.
Já agora, em inglês é tudo you, não é verdade?
Para finalizar, espero que vocês desculpem a lenga-lenga. E Boas Festas para todos vós!

12/17/2009

Uma prenda de Natal emprestada

Ao contrário do que sucede quando nos oferecem uma coisa, sempre que algo nos é emprestado temos obrigação de proceder à respectiva devolução tão depressa quanto possível. Acabo de receber um soit disant "empréstimo" que me alegra e que, dada a quadra que atravessamos, me permito incluir nas minhas prendinhas natalícias.
Leio no título principal do jornal Público que a "entrada em vigor do acordo ortográfico nas escolas não ocorrerá antes de 2011/2012". Sem ser óptima, é uma notícia satisfatória. E satisfatória pelo menos por três motivos: primeiro, porque os responsáveis entendem que deve haver um período de reflexão anterior à entrada do dito acordo, com preparação conveniente por parte dos professores; segundo, porque durante esse período preparatório e de reflexão pode acontecer que finalmente se descortine o tremendo disparate que o acordo representa e a falta de discussão democrática que ele registou; terceiro, porque a notícia não fixa uma data para a entrada em vigor do acordo nas escolas – sabemos apenas que não será antes de 2011/2012. Esperamos que fique adiado para as calendas.
O meu sapatinho de Natal ficou mais confortado.

12/14/2009

Felicitando o Metro



Sempre gostei do Metro de Lisboa. Depois daquela arrancada já há 50 anos, em que os comboios eram confortáveis e as estações foram decoradas com azulejos geométricos na sua maioria por Maria Keil, veio a fase de expansão e re-decoração de algumas das estações antigas. Passámos a contar com um Metropolitano excepcional. Os anos 90, com a construção da estação da Alameda e depois a linha vermelha até à EXPO’98, hoje Parque das Nações, terão sido o período mais brilhante. Artistas de todo o mundo embelezaram com a sua arte, geralmente através da azulejaria, as novas estações. Entre estas, sobressaem – a escolha é difícil - as do Campo Pequeno, do Parque, Olaias, Oriente, Bela Vista, mas também as da Cidade Universitária, o Campo Grande, Jardim Zoológico, a de Entrecampos com o belo trabalho de Bartolomeu Cid dos Santos, etc. Se na minha listagem me esqueci de alguma mais significativa, creio que me redimo ao dizer que gosto praticamente de todas elas.
Por outro lado, sou há muito um felizardo por morar junto à Alameda Afonso Henriques. Agora ainda mais no que diz respeito a transportes. No final do Verão passado abriu um troço pequeno mas extremamente útil. Parabéns ao Metropolitano de Lisboa por ter avançado com obras que foram morosas, dispendiosas e certamente difíceis. O pequeno troço a que me refiro não criou propriamente nenhuma nova estação, mas ligou três delas que passaram a ser vitais. E, felizmente, muito concorridas – por serem utilíssimas. O número de carruagens aumentou para o máximo, i.e. todas as vastas gares são ocupadas. O conforto no interior das carruagens não diminuiu e as vantagens são notórias.
Contudo, e esta é a razão principal que me levou a deixar aqui umas linhas, muito pouca gente veio elogiar esse facto. Que eu tivesse visto ou ouvido, ninguém gabou a obra. Porquê? Talvez porque aparentemente só se fala do que está mal. Quando se termina uma coisa bem feita, é como se nada tivesse ocorrido. Ignora-se. É uma situação que me lembra aquilo que sucede quando somos miúdos e nos esforçamos por agradar aos adultos, e depois estes apenas nos dizem "Não fizeste mais do que a tua obrigação!". É por estas e por outras que, com justeza, os homens do marketing nos informam que uma acção de melhoria da imagem das empresas ou instituições tem, em regra, um efeito multiplicador de 3. Por seu lado, uma notícia negativa sofre um efeito multiplicador de 11!
Para nos darmos conta da melhoria introduzida por este troço que subterraneamente atravessa o edifício do Instituto Superior Técnico, o Arco Cego, a Avenida da República, a Avenida Duque de Ávila e chega a S. Sebastião da Pedreira, consideremos o caso de uma pessoa que, durante anos, utilizou o Metro para ir da Praça de Espanha para a Alameda. Como a Praça de Espanha fica na linha azul e a Alameda na linha verde, a pessoa em questão fazia o percurso até à Baixa-Chiado, onde tomava então um comboio da linha verde. Ao todo, passava 12 estações. Presentemente, essa mesma pessoa, faz uma estação até S. Sebastião, e aí muda para a Alameda. Em vez das doze estações anteriores, passa apenas três! Do esquema antigo para o actual vai, em matéria de tempo e de comodidade, uma distância muito razoável. Pois disto não se fala!
Este novo troço intercepta em pontos centrais a linha azul, a amarela e a verde. Como esta liga com a linha vermelha, a solução foi notável. Não aumentou a velocidade dos comboios, mas proporcionalmente e ressalvadas as devidas diferenças, os ganhos foram incomparavelmente maiores do que os prometidos pelo muito badalado TGV. No entanto, repito, sobre esta inovação os media não expressaram qualquer regozijo. Embora se saiba que cada um vê a realidade com os seus próprios olhos, sente-se que a generalidade dos portugueses está mais virada para agredir com palavras do que para se congratular pelas obras realizadas. Pessoalmente, sinto que existe uma necessidade urgente de o país mudar de agulha na sua formatação mental e tornar-se mais positivo. Ficará, sem dúvida, menos azedo e mais feliz.
Os metropolitanos de Londres, Paris e Madrid possuem uma rede bem maior do que a do Metro de Lisboa. Mas não os queiram comparar em termos de beleza, conforto e modernidade com o nosso. Seria bom que se reconhecesse isso.

12/12/2009

Pode não ser a mesma coisa, mas é muito bom!


A Casa da Música, do Porto, inaugurou um canal televisivo na Internet, através do qual emitirá regular e gratuitamente os concertos nela realizados, além de disponibilizar outros conteúdos. Sabendo-se que, se considerarmos apenas os melómanos da região do Porto interessados em assistir aos concertos, os lugares que existem são muito disputados, esta constitui uma óptima notícia, na medida em que proporcionará em directo a transmissão dos concertos para todo o país e estrangeiro. Proximamente, segundo um dos administradores, será constituído um arquivo on line. Até lá, se não tem ainda o endereço, anote-o: www.casadamusica.tv
É bom poder saudar o aparecimento desta possibilidade no nosso país. Nos finais do século XIX, só um privilegiado como o rei D. Luís conseguiu que fosse instalada uma linha telefónica directa do S. Carlos para o Palácio Real, a fim de que ele, então de luto, pudesse ouvir a música executada a uns quilómetros de distância. Agora, este é um verdadeiro serviço público, democratizado, que, segundo as palavras do administrador-delegado da Casa da Música, representou um investimento muito pequeno. Quando se quer, conseguem-se coisas interessantes.

O espírito colonizador não desaparecerá tão cedo


A crença na superioridade do homem branco sobre todas as outras gentes do globo ressalta claramente da recentíssima afirmação de Tony Blair aos microfones da BBC: "Teria sido correcto derrubar Sadam mesmo sem provas da existência de armas de destruição maciça."
Mais comentários para quê?

12/09/2009

Comparando

Hoje ao serão tive oportunidade de dar uma vista de olhos no Público e no último número da Newsweek. Houve dois artigos, um no jornal e o outro na revista, que me chamaram a atenção. Se não se importam, partilho um pouco dessa leitura convosco.
No artigo do Público, intitulado "Portugal de cócoras" e assinado por Santana Castilho, li o seguinte, mais ou menos no início: "Os dirigentes da Europa reuniram-se em Lisboa, em Março de 2000, e definiram vários objectivos a serem atingidos pela Estratégia de Lisboa em 2010, visando tornar a Europa na realidade económica mais competitiva do mundo. A educação e a formação ocupavam boa parte dos propósitos. Chegados ao momento da verdade, 2010 está aí, tudo falhado. Desolador! Palavras, propósitos atrás de propósitos incumpridos."
Por sua vez, o director da Newsweek titulou o seu artigo "As raízes da estabilidade". Começa assim: "Há um ano, parecia que o mundo ia desabar. O sistema financeiro mundial, que tinha sido o motor da grande expansão do capitalismo e do comércio, desmoronava-se. O modelo americano parecia não fazer sentido, e as certezas da era da globalização – as virtudes do mercado livre, do comércio e das novas tecnologias – estavam na mira dos cépticos. Os mercados emergentes que tinham anteriormente patenteado grande saúde estavam em queda, o comércio registava os níveis mais baixos desde a década de 30 do século passado, enquanto os analistas começavam a falar de instabilidade política e de violência nas zonas do globo mais atingidas pela crise. Em todo o mundo existia apenas uma firme certeza: nada voltaria a ser como dantes. Ora, um ano depois, contamos com dois bancos a menos na Wall Street (três, se incluirmos o Merril Lynch), e houve alguns bancos regionais falidos. Mas, à parte isso, o mundo parece estar muito na mesma. Garantidamente, não está na situação em que se encontrava nos mencionados anos 30."
O que notamos à primeira vista? Duas formas de comparar o presente com o passado. Só que, enquanto o articulista português se serve da ambiciosa Estratégia de Lisboa do ano 2000 para depois, eu diria "triunfalmente", desaguar no actual panorama "desolador", o americano faz a sua comparação entre as negras perspectivas do ano passado e a situação actual que, afinal, como afirma, não é tão má assim. Quem ler o artigo português assiste ao desancar dos governantes e das suas promessas não cumpridas, concluindo com o "Portugal de cócoras". O leitor do artigo americano alegra-se com o facto de as raízes da estabilidade não terem sido tão sacudidas como a princípio se julgava.
São duas perspectivas bem diferentes de escrever e de olhar o mundo. Numa delas, atiram-se farpas e nada se constrói. Na outra, recorda-se que a maioria das nuvens negras tem uma orla prateada que nos dá esperança.
Longe de mim dizer que todos os artigos portugueses são desancadores e auto-flageladores e que todos os americanos são optimistas. Mas que uns e outros para aí apontam não tenho a mínima dúvida, embora não possua números que me permitam fundamentar a opinião.
Será que os meus amigos, com quem partilho esta leitura, concordam? E quais são os resultados dessa diferença de atitude em termos de satisfação e de produtividade?

12/05/2009

Escrita apócrifa

A notícia de que dois ou três textos que circulavam ontem na rede de e-mails e de blogues eram falsos não pôde deixar de me alegrar. Não exactamente devido às pessoas que neles intervinham, que até poderão ter dito coisas semelhantes, melhores ou piores, mas porque finalmente há algo que serve publicamente de alerta relativamente à veracidade ou falsidade do que aparece escrito na Internet.
Dois dos documentos em questão também chegaram às minhas mãos. Dei-lhes uma vista de olhos e reenviei-os no mesmo mail para apenas duas pessoas que ficariam, em princípio, contentes com a sua leitura. Claro que duvidei da sua autenticidade, principalmente quando li no "Assunto" VERDADEIRA TRANSCRIÇÃO (falar alto, como é escrever em letras maiúsculas, implica muitas vezes o querer ter razão embora não a tendo).
Na realidade, a prática de escrita apócrifa vem de muito longe, incluindo textos religiosos. A invenção da imprensa veio incentivá-la. A existência da Internet disseminou-a com toda a facilidade. Curiosamente, ainda esta semana escrevi a um familiar que me tinha enviado um texto, chamando-lhe a atenção para a grande probabilidade de aquele texto não ser verdadeiro. O facto de uma coisa estar escrita não quer de maneira nenhuma dizer que ela seja verdadeira e, como todos sabemos, pode ser – e é frequentemente – uma forma manipulada de influenciar a nossa opinião.
Que me tenha apercebido, nos e-mails que todos nós ajudamos a polinizar, circulam principalmente três autores com textos que eles nunca escreveram: Fernando Pessoa, Eça de Queirós e Eduardo Prado Coelho. Deste último tem-me chegado de várias fontes um em que o autor castiga exemplarmente os políticos. Ora, EPC era, felizmente, um homem de ideias, as quais adorava debater, e não se imiscuía muito na vida política desta forma. Gostava de ir ao fundo das coisas e não ficar pela superfície avulsa dos personagens que adornam a cena política. Curiosamente, a primeira vez que me chegou esse texto, ele trazia a indicação da data em que EPC tinha falecido mas não mencionava o mesmo relativamente ao jornal ou dia em que o referido texto tinha sido publicado. Na segunda vez que se me deparou o mesmo texto, já vinha acompanhado de uma caricatura do autor!
O sagaz António Aleixo, poeta algarvio do século passado (1899-1949), descreveu, na forma comprimida de quadra que ele tão bem conhecia, a técnica da mentira:

P’rá mentira ser segura
E atingir profundidade
Tem de trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.

Uma caricatura, um retrato, uma assinatura, podem ser bons exemplos dessa "qualquer coisa de verdade".
Porque é que se escolhem pessoas conhecidas como Fernando Pessoa ou Eça de Queirós? Porque, tal como nos anúncios de pastas dentífricas que são "recomendadas por 95 por cento dos médicos", é conveniente que esteja alguém respeitável a atestar a veracidade da coisa. Os textos de Fernando Pessoa que circulam de vez em quando nas catadupas de e-mails com que amigos de boa-fé nos bombardeiam com regularidade são geralmente em prosa, como prosaica é a maneira de pensar actual que eles revelam. Com o Eça passa-se o mesmo. E ambos já morreram...
Poderá perguntar-se: qual é o gozo de fazer isso? Imenso! Ser capaz de ludibriar meio-mundo pode dar um gozo extraordinário. Pessoalmente, recordo-me de três histórias em que fui interveniente e que me deram especial prazer. Se me permitem, conto-as aqui abreviadamente. A primeira ocorreu no meu 7º Ano de liceu. Eu adorava Walt Whitman, que lia numa edição baratucha – que ainda hoje conservo – da Pocket Books, Inc. A minha admiração pelo poeta americano era tal que não conseguia resistir a ler vários dos seus poemas em voz altíssima, pelo que sofri uma repreensão na casa onde estava então a morar. Uma vez escrevi o meu primeiro poema em inglês e mostrei-o ao meu professor de então, no final de uma aula. Perguntei-lhe se ele conhecia aquele poema do Whitman. Que não, disse-me ele, mas que tinha gostado muito. Enchi-me de coragem e disse-lhe que eu o tinha escrito na véspera, inspirado no estilo do autor. Não acreditou e repreendeu-me por eu estar a tentar gozar com ele. Avisou-me que era a última vez que isso sucedia. Eu era um dos melhores alunos da aula. Fiquei contente com a sua reacção. Até hoje não a esqueci, como se vê.
Numa outra ocasião, durante a guerra colonial em Angola, resolvi ensaiar uma velha táctica da contra-informação. Espalhei um boato que nos era favorável e que continha variados pontos que o tornavam verosímil. Foi com grande prazer que ouvi o dito repetido meses depois em Nambuangongo (próximo de onde eu estava na altura) e em Luanda, mais tarde.
O terceiro caso que me ocorre foi bastante diferente. Durante a década de 90, a minha actividade profissional levou-me a assistir a vários congressos, simpósios e seminários sobre turismo. Uma vez, num seminário realizado num hotel de Cascais juntei-me, durante a pausa para o café, a um grupo de pessoas que, em frente ao bar, contavam as coisas mais diversas. Uma delas chamou-me a atenção: alguém que eu nunca tinha visto estava a falar sobre a correcta maneira de actuar dos guias-intérpretes. Citou o caso de um guia que, no Palácio do Hermitage, em São Petersburgo, sabendo que no grupo que conduzia havia portugueses, os levou expressamente a uma sala geralmente não visitada onde estava um enorme e impressivo retrato de Inês de Castro,pintado por um francês. Salientou o indivíduo que estava a narrar o caso que aquela era a prova provada de que o guia-intérprete precisa de saber quem tem no seu grupo e falar de acordo com isso. Em suma: deve adequar o discurso ou a visita ao cliente. Pessoalmente, ouvi a história com grande interesse. A pessoa que a contou foi fiel ao que tinha lido num livro saído havia pouco tempo sobre a temática dos guias-intérpretes. A história era verdadeira e, o que é mais, tinha-se passado comigo, que a tinha descrito no dito livro.
Experimentei na altura uma sensação bastante interessante. Senti o poder da divulgação de ideias e como é útil a partilha. Não me dirigi logo à pessoa em questão, mas quando voltávamos para a sala onde se realizava o seminário apresentei-me e dei-lhe os parabéns pela forma como ele relatara o episódio.
Ora bem. Se eu próprio conto aqui estes factos, é porque imagino o enorme gozo que um indivíduo criativo deve sentir quando inventa uma treta qualquer, a despacha por e-mail e vê um sem-número de pessoas a engoli-la. O supremo prazer ocorrerá quando, após um circuito maior ou menor, a referida balela lhe for um dia enviada por um amigo que desconheça em absoluto quem foi o seu autor.
É por este conjunto de razões que aprecio que tenha sido tornada pública em vários jornais, e certamente na televisão, a notícia de que os textos que ontem circularam eram falsos. O aviso fica dado e é bom que sirva de lição. Ajuda a formar aquilo que geralmente se denomina de "massa crítica".

12/02/2009

O nobelizado Obama


De Deus para diabo ou, como se costuma dizer em Portugal relativamente ao futebol, de bestial para besta - nada disto se passa com Obama. Mas dizer que ele está, na presidência dos EUA, a ter o mesmo sucesso que teve como candidato será uma enorme mentira.
No seu próprio país, onde pretende encetar algumas das reformas que fazem parte do seu programa, entende-se, de certo modo, que haja reacção, por vezes forte e acalorada. As reformas agradam quase sempre à maioria, mas geralmente desagradam a uma minoria que se encontrava feliz no seu statu quo. A guerra no Médio Oriente e a questão da saúde são os casos mais importantes. Mas o pior é que os seus opositores aproveitam tudo para o deitar abaixo: fez uma vénia demasiado respeitosa ao imperador japonês; tem gasto pouco do seu tempo com o problema mais agudo do país: o desemprego; regressou da Ásia de mãos a abanar no que respeita a vitórias diplomáticas; não obteve nenhum sinal de respeito por parte dos israelitas; consentiu que os alegados conspiradores do 11 de Setembro de 2001 fossem julgados em tribunal penal e não pelos militares; tem hesitado muito relativamente ao Afeganistão; etc. etc.
Pessoalmente, o que mais me custa em Obama é vê-lo, afinal, a seguir não só a mesma política de Bush relativamente ao Médio Oriente como a usar a mesmíssima argumentação. Que é falsa. Veja-se: We did not ask for this fight. On September 11, 2001, 19 men hijacked four airplanes and used them to murder nearly 3,000 people... Just days after 9/11, Congress authorised the use of force against al-Qaeda and those who harboured them - an authorisation that continues to this day... Estas foram as palavras que ele utilizou. Toda a gente sabe, oito anos passados desde o 11 de Setembro, que já existia toda uma estratégia delineada pelos Estados Unidos relativamente ao Iraque e ao resto. Quanto ao Iraque, foi impressionante, por exemplo, ver como tudo o que dizia respeito ao assalto ao Museu Nacional de Bagdad estava cuidadosamente preparado. O 11 de Setembro que, aliás, continua com alguns enigmas por esclarecer, constituiu o gatilho de que Bush necessitava para desencadear mais uma acção bélica americana. Considerar a destruição das Torres Gémeas do World Trade Center como um ataque ao país (!) foi a decisão imediata dos EUA, para que os seus aliados da NATO pudessem colaborar com eles na aventura do Médio Oriente. Quando houve o atentado de Atocha em Madrid, ninguém falou de ataque de uma potência estrangeira a Espanha. Em Londres, aquando do ataque terrorista no Metro, ninguém se lembrou de pedir o auxílio de países da NATO, como é óbvio.
Ora, o facto de Obama usar os mesmos argumentos é decepcionante. Para muitos americanos, também, que estão fartos de guerra e vêem agora que 30 mil militares irão reforçar as forças que se encontram no Afeganistão a desilusão é grande. É que tudo isso acarreta despesas brutais, num país que está a braços com uma grave crise de desemprego e tem seriíssimos problemas de défice público. É evidente que uma medida como esta nunca poderia ser bem recebida. "Fazer a guerra para alcançar a paz" é o argumento favorito dos falcões. Não foi como tal que Obama foi eleito. E então como Prémio Nobel da Paz...

11/30/2009

Compras


Os almeidas, aqueles funcionários dos municípios que andam a varrer as ruas pejadas de folhas que o Outono faz cair das árvores, não sentem grande apreço por esta estação. Dá-lhes mais trabalho e, no final de contas, o mesmo dinheiro. Mas para um número significativo de mulheres que vivem na cidade, esta altura do ano, o Advento, é de longe a que lhes dá mais prazer. É fácil de entender porquê. As compras. As celebérrimas compras que a mulher, francamente mais do que o homem, adora fazer para variar a roupa que usa, a casa em que habita, ou para mudar objectos de uso pessoal como o bâton, o perfume, relógio, telemóvel e tudo o mais que lhe vier à cabeça e a carteira minimamente suportar.
Pessoalmente, conheço bem três simpáticas amigas que, volta e meia, vão às compras juntas. É um dia de farra, esse. Começam geralmente um pouco antes do almoço, tomam depois uma refeição em conjunto e até se separarem para voltar para as respectivas casas percorrem as várias secções dos grandes armazéns. Duas têm mais posses que uma terceira, o que serve a esta de almofada por só ter comprado "estas coisinhas".
Os homens costumam dizer que o andar de braço dado com a mulher é uma criação deles: para que elas não fujam e se encafuem na primeira loja que lhes agrade. Pode servir como humor, mas de pouco mais. Muitas mulheres sentem um enorme prazer em ver, tocar, comprar. Mesmo assim, a compra às vezes não serve muito de remédio porque "aquela outra coisa ao lado, inacessível em matéria de preço, era tão linda!" Afinal, o preço que fez esta mulher recuar até mostra que ela é comedida, não é como aquelas outras que entram nas lojas e gastam, gastam de uma forma louca.
Maria Pia, que foi rainha de Portugal nos finais do século XIX, casada com o nosso rei Dom Luís, ficou famosa pelos seus gastos. A determinada altura passou a levar discretamente consigo, por imposição do marido, um inspector que muitas vezes era obrigado a anular a compra que Sua Majestade acabava de fazer. Em Portugal ou no estrangeiro. É dela uma frase que ficou célebre: "Quem quer rainhas, paga-as!"
Com casais comuns, porém, as coisas não chegam a esse limite, mas sempre há um detalhe relevante, que é a passagem do cartão. Antigamente, "passar cartão" a uma pessoa significava que se dava a essa pessoa importância suficiente para lhe entregar um cartão de visita com a morada. Hoje, para um homem, passar cartão é entregar, para todos os fins úteis e inúteis, um cartão de débito ou de crédito, com o qual a sua consorte vai às compras e, em alturas como esta do Natal, dá largas à sua criatividade aquisitiva.
O Natal é uma época particularmente oportuna para a mulher mostrar que o acto de comprar não é cheio daquele egoísmo ou narcisismo de que às vezes a acusam. "Trouxe apenas esta prendinha para a Manela" significa que ela fez o gosto ao dedo e adquiriu para a amiga Manuela uma prenda de bom gosto e de preço ainda não revelado. A ofertante não pôde resistir. "Vai mesmo com ela!" Dias mais tarde, já com parte da excitação passada, dirá "Espero que ela goste!" É aí que entendemos que foi o gosto da adquirente que prevaleceu, mais ou menos como se a prenda fosse para ela própria. Afinal, o altruísmo não tinha sido tão grande assim. "Eu guardo sempre o talão, para o caso de haver necessidade de uma troca." A prudência, a virtude omnipresente só terá faltado no acto da compra propriamente dita, mas isso foi o resultado de "uma tentação absolutamente irresistível".
Os filhos e, eventualmente, os sobrinhos, os netos, os pais, e mais este e mais aquele, são outras tantas fontes de prazer para a compradora compulsiva. "A Leonor vai ficar um apetite com este casaco!" "E o Tiago vai adorar este brinquedo que lhe comprámos". Aqui vem a soi-disante coniviência do marido, traduzida no "comprámos". Ele, no entanto, não disse nada, nem foi tido nem achado nessa questão. Mas passou-lhe cartão e, com esse gesto, corresponsabilizou-se.
Novembro, o mês que hoje termina, é o ideal para começar as compras natalícias. Assim, a mulher passa um mês inteiro a comprar coisas. Por vezes mais do que uma, duas ou três para a mesma pessoa, porque se tinha esquecido de que afinal já tinha prendas para ela. "Mas era tão giro que não me consegui conter! Quem não achar isto giro não gosta de nada!" E, pronto, a gireza do presente desculpa tudo, ela está desculpada! Auto-desculpada, entenda-se.
Nada disto é novo. A vida é, afinal, feita destas incongruências, destes dislates bem intencionados, sem os quais a vida seria incrivelmente monótona. O Menino Jesus deu-nos esta enorme prenda de poder oferecer prendas. Aproveitemos a dança e bailemos!

11/29/2009

Uma breve nota

Embora o faça apenas por razões de consciência ética e de respeito por quem passa os olhos pelo "azweblog", sinto que devo uma breve explicação aos poucos mas constantes leitores desta página. Há vários dias que não coloco qualquer post. Os assuntos políticos do meu país, de tão emaranhados que estão por erros humanos sucessivos tanto da parte do governo como da oposição, entristecem-me e revoltam-me de tal modo que, em vez de sentir, como habitualmente, a necessidade de escrever para me libertar de uma pressão que precisa urgentemente de sair cá para fora, agora causa-me verdadeira relutância voltar a assuntos desta ordem.
O país está mal. A confiança que eu deveria, como cidadão eleitor, possuir nos nossos governantes, dissipou-se. Não parece haver uma estratégia definida. Decisões que foram tomadas no anterior governo, da mesma cor, estão a ser revogadas. Ordem mais contra-ordem é igual a desordem. Não há rumo evidente e seguro. Pelo contrário. Por outro lado, aparentemente há tramóias aqui, ali e acolá. A justiça, que está no cerne de qualquer Estado de direito, encontra-se num caos. Uma forte dose de promiscuidade salta aos olhos. Infelizmente, vejo o meu país a caminhar com forte dificuldade, num plano inclinado.
Dado que, em face da situação, nada me pressiona para escrever sobre assuntos desta natureza política, pelo menos nos tempos mais próximos manterei o blogue com outros tópicos: entre o a e o z existe um vasto campo temático.

11/24/2009

Direitos e deveres

Há tempos recebi por e-mail o anúncio de um Curso de Migrações e Direitos Humanos, organizado conjuntamente pelo Fórum Pela Paz e pela Biblioteca e Museu República e Resistência (BMRR). Resolvi inscrever-me. O curso, que esgotou as inscrições e decorre num dia da semana ao fim da tarde, consta de umas seis ou sete conferências, seguidas de debate com a assistência. Os oradores são pessoas com experiência no terreno, ou com bons conhecimentos de Direito, ou sem estas qualificações mas com grande vontade de elucidar aspectos interessantes do problema das migrações.
Foi o facto de o tema incidir sobre Direitos Humanos que mais me interessou. Basicamente, porquê? Porque oiço tão frequentemente falar em direitos que me pergunto onde estão os deveres. Não foi surpresa para mim verificar a existência de dois planos: o plano do desejável e o outro do realizável. A maioria, se não a totalidade, das Declarações de Direitos situa-se no plano do desejável, um pouco à maneira dos Mandamentos cristãos. Depois, a distância que separa o desejável do realizável varia consoante os países e os tempos. Tudo se assemelha à diferença entre os conceitos de forma e de substância. Enquanto o primeiro formula o desejável, a substância foca aquilo que, ao fim e ao cabo, é verdadeiramente aplicado. E as divergências não são nada pequenas!
Muitas vezes, onde se lê "direito ao trabalho" encontramos, afinal, um direito a ser explorado, o que é uma diferença abissal. Passa-se do mundo ideal para aquele em que a economia impõe as suas regras e a perversidade humana igualmente as suas. Antigamente, não havia tantas cartas de direitos, mas havia códigos de conduta, muitas vezes não escritos. Prefiro a situação actual, mas vejo-a cheia de buracos. Exemplos? Imigrantes que estão ilegais num país como Portugal e que, em razão dessa ilegalidade, são barbaramente explorados por empresários com poucos escrúpulos. Ou imigrantes que estão legais mas que recebem bastante menos do que os trabalhadores nacionais, embora assinem papéis em que declaram auferir montantes que de facto existem apenas no papel. Perguntar-se-á: então, e a fiscalização não actua? Actua, mas pouco. Por um lado, existe insuficiência de inspectores; por outro, são os próprios imigrantes que não querem arranjar problemas e preferem não denunciar o caso às autoridades. Não se sentem defendidos por um Estado de direito.
Da Alemanha chegam agora notícias sobre imigração: direitos e deveres dos imigrantes, algo que irá muito provavelmente entrar em vigor durante a presente legislatura. A Alemanha, que possui uma população de 82 milhões, conta com uma percentagem elevada – 18 por cento – de imigrantes (15 milhões). O maior grupo é de origem turca, que só pelo seu lado totaliza três milhões. Ora, quais são algumas das disposições que o governo alemão se propõe incluir na legislação? Os candidatos a viver no país têm de prometer respeitar a liberdade de imprensa e a existência de direitos idênticos entre mulheres e homens. A Comissária para a Integração foi clara: "Quem queira viver na Alemanha e aqui queira trabalhar a longo prazo, terá de dizer "sim" ao nosso país. Isto significa saber falar a nossa língua e ter vontade de participar na nossa sociedade." Usando uma frase sobejamente conhecida, o que a Comissária diz lembra a vox populi "Em Roma, sê romano".
Entretanto, isto não quer dizer que os imigrantes tenham que mudar de religião, por exemplo, mas que deverão estar, pelo menos parcialmente, integrados na cultura alemã. Neste sentido, propõe-se que os imigrantes assinem "contratos de integração".
A pergunta que se coloca é simples: estarão os alemães a ser demasiado exigentes para com os imigrantes no seu país?

11/22/2009

A outra face oculta

Bem, esta face oculta, devo desde já dizê-lo, nada tem a ver com aquela outra que faz vender jornais há algum tempo e que tem ocupado montes de noticiários nos media ultimamente. Mas aqui existe também uma face oculta, como veremos.
Para a descobrirmos, temos de recuar a tempos já antigos do turismo em Portugal, até ao início dos anos 70 do século passado, numa altura em que os autocarros de turismo ainda eram conduzidos por motoristas de cultura reduzida em matéria linguística, embora fossem não só bons profissionais como excelentes mecânicos. Recordo-me que, dentro da sua boa-vontade de aprender línguas à pressa, houve um motorista, experiente e delicado com os turistas estrangeiros que, depois de ter passado bem mais do que uma década a conduzir autocarros de carreira, se viu tentado a aprender as suas primeiras palavras na língua inglesa. Goodbye, ele aprendeu bem. Thank you, também, mais ou menos. Só o Good Morning é que não lhe saía muito bem. Dizia só morning e de uma maneira tal que havia turistas, algo surpresos, a darem-lhe dinheiro perante o seu sorriso e a palavra: é que a pronúncia dele não fazia grande distinção entre morning e money. Como era um erro rentável, ele ainda insistiu na má pronúncia durante algum tempo.
Mas a história da face oculta vem de outro caso e de um outro motorista que, tal como o seu colega do morning!, era um bom profissional. Só que... Quando os radares apareceram nas estradas a controlar a velocidade dos veículos, os motoristas tiveram que aprender a afrouxar um pouco em determinados locais para não serem autuados. Ora, na recta de Carcavelos estava frequentemente instalado um radar escondido, com polícias à coca. Ao entrar nessa recta, vindo do Estoril para Lisboa depois de fazer o costumeiro tour de Sintra, Cabo da Roca e Cascais, eis que o motorista em questão surpreendia o guia-intérprete que acompanhava o grupo. Tirava o boné que usava em serviço e, com ele, tapava o velocímetro do tablier. "Porquê?" perguntaram-lhe um dia. "Para eles não me tirarem a fotografia ao tablier." "Mas a polícia não tira fotografias dentro do carro!" "Tira, tira! Não sei como é que eles fazem, mas eu já vi um colega meu a ser multado e lá estava a rodinha com o ponteiro a marcar a velocidade a que ele ia. Por causa das coisas, tapo sempre o mostrador com o boné..."
Era a face oculta. Um pouco à maneira da outra, se ele de um lado tapava, do outro continuava a ver-se tudo.

11/18/2009

A droga de que raramente se fala



Ouvir alguém falar de heroína ou de cocaína como droga é normal. O vinho em excesso é igualmente considerado uma droga viciante. O tabaco idem. Intoxicante. No entanto, a droga mais recente, da qual raramente se fala como droga, é o uso excessivo do telemóvel. Sim, já sei que o telemóvel não é em si uma droga, mas o falar ao dito pode tornar-se tão viciante para determinadas pessoas que cedo verificamos que se tornaram dependentes do aparelho. Mais mulheres do que homens? Sim, certamente. E de longe! Há muita mulher que detesta o silêncio. Precisa de ouvir-se a falar. Vai daí, volta e meia enceta conversa ao telefone com uma amiga. Cheia de banalidades, no geral.
Experimente-se analisar o comportamento de mulheres sozinhas a viajarem num comboio. Um número significativo delas, mais jovens ou menos jovens, volta e meia rapa do seu telemóvel e aí vai embalada, debitando conversa de encher minutos enquanto o comboio vai papando mais uns tantos quilómetros. A certa altura, finalmente desliga. Mais duas estações passadas e ei-la que volta a abrir a mala para tirar de lá a sua droga e dar-lhe mais uma passa. Se anteriormente tinha falado com a Marina, agora é com a Teresa. Ficam ainda em stock a Olga e a Vanda.
Com a vinda de brasileiras para Portugal aumentou a frequência dessas conversas. Falam, falam, falam. Por seu lado, não é nada raro que a pessoa com quem um homem está numa determinada ocasião passe mais tempo a falar com alguém de fora, que lhe ligou, do que propriamente connosco. Essa pessoa está ali e não está. Depois, pedirá desculpa. Se ela recorreu a uma amiga anteriormente, agora não vai deixar de ouvi-la também. Homem ao lado pega no jornal e lê. Se for homem de negócios, talvez ligue a um colega a planear qualquer coisa, mas não é normal que faça a ligação apenas para dizer olá.
A experiência mais longa que me foi dado ver do uso do telemóvel por alguém foi uma vez que tomei parte num passeio pedestre nocturno. Andámos durante cerca de duas horas. Durante esse mesmo tempo, uma das participantes que se tinha inscrito sozinha foi sempre andando com o telemóvel junto ao ouvido, andando e falando. Quando chegámos ao fim, naturalmente desligou. E disse que tinha sido muito interessante calcorrear caminhos que tinham como iluminação apenas a luz da lua.
Que estupendo negócio que as várias empresas do ramo arranjaram!

11/16/2009

Justiça e Partidos

Fala-se muito, e justamente, no financiamento dos partidos políticos, que pode ser um verdadeiro cancro para a democracia, beneficiando uns tantos, poucos, em detrimento de muitos. Então, e a partidarização da justiça? Por que motivo haveremos de ter tanta justiça partidarizada, com vários dos seus agentes indigitados pelos partidos? Ou bem que a justiça depende da competência e honestidade dos juízes, ou bem que temos juízes que estão claramente enfeudados a partidos. Nenhum partido deveria poder indigitar este ou aquele magistrado para órgãos de justiça, fossem estes quais fossem. É um enorme contra-senso do regime democrático e de uma justiça que se quer isenta. Mas quem sabe o que é isso de justiça isenta em Portugal?

11/14/2009

Justiça célere

Vai hoje a leilão uma série de objectos pessoais do confesso burlão americano Bernard Madoff e de sua mulher. É um leilão algo estranho, onde estarão, lado a lado com peças de arte, pranchas de surf, casacos, blazers, malas e jóias, num total que ronda as 200 peças. A empresa que vai conduzir o leilão estima que conseguirá arrecadar perto de meio milhão de dólares. Não é muito, e é certamente muito pouco para indemnizar as vítimas da maior fraude financeira de todos os tempos. Calcula-se que Madoff recebeu, ao longo de 20 anos, 65 biliões de dólares.
Seja como for, o que me interessa salientar neste caso é a relativa celeridade com que tudo se está a processar em termos de justiça. Madoff foi preso a 11 de Dezembro de 2008. Menos de 365 dias depois, a mulher de Madoff já concordou em entregar bens no valor de 80 milhões de dólares ao Estado. Só uma casa que o financeiro possuía numa praia está avaliada em 9 milhões.
Entretanto, Madoff não mais sairá da situação de preso em que se encontra. Foi condenado a um cúmulo de 150 anos. É possível que algumas das suas vítimas financeiras tenham já recebido alguma compensação pelos danos sofridos. Sabem, pelo menos, que alguma coisa irão receber. A isto chama-se justiça rápida, principalmente se compararmos com o andamento da justiça no nosso país. Estamos perante uma questão de boa governação, algo que naturalmente se reflecte na produtividade da vida no seu geral. Fica o registo.

11/10/2009

Taxas do Multibanco

Há anos que oiço falar da apetência da banca portuguesa pela imposição de taxas pelo uso do Multibanco. Sempre me custou a acreditar que essa medida fosse avante, dado que o sistema permitiu uma substancial redução do número de funcionários por agência, com o consequente aumento de produtividade. As simples operações de levantamento ou de depósito, além das transferências e dos muito usados pagamentos das compras nos supermercados e outras lojas tornaram-se imensamente comuns e obrigam, naturalmente, à existência de uma conta bancária com saldos que, somados, dão quantias razoáveis, o que favorece a banca, a qual cobra às empresas pela instalação e uso do Multibanco.
Agora, contudo, começo a acreditar que a medida vai mesmo ser posta em vigor. Por um lado, porque já foi publicada a legislação correspondente, por sinal mais permissiva para os comerciantes e a banca do que sucede na maioria dos países europeus. Mas o que me atemoriza verdadeiramente é a garantia (verbal) do Ministro das Finanças de que vai fazer todo o possível para que a situação não se altere. É que me vem imediatamente à cabeça um dos mais famosos conselhos de Sir Humphrey na clássica série Sim, Sr. Ministro: "Nunca devemos acreditar numa coisa até ouvirmos o respectivo desmentido oficial."

11/08/2009

Alcateias

Costuma dizer-se, a respeito dos filhos de um casal, que não são tanto as palavras de recomendação e conselho que os seus progenitores lhes dão as que verdadeiramente contam, mas sim o exemplo prático que os pais lhes revelam através dos seus actos. Traduzido em sabedoria popular, temos o "Bem prega Frei Tomás: faz o que ele diz, não o que ele faz."
Ora, o facto de esta situação se encontrar na sabedoria popular ilustra bem a frequência do abismo que não raramente existe entre as palavras e os actos das pessoas. Quando essas pessoas ocupam lugares de poder, a distância entre aquilo que lhes sai dos lábios e a sua acção concreta tende a aumentar. A revelação pública de actos pouco próprios é sempre chocante, pelo que constitui inegavelmente uma boa notícia. Um elevado número de leitores da notícia ou de ouvintes regozija-se por duas razões principais: (1) eles não estão envolvidos, o que lhes dá alguma superioridade moral e um posicionamento de juízes a distância e (2) os indivíduos que são postos em causa não são membros do seu grupo social, entendendo-se este "social" no sentido lato de família política, empresarial ou clubista (os leitores e ouvintes que são do mesmo grupo sentem-se chocados e tristes).
O que se tem registado em Portugal, à semelhança de outros países,é que os agentes de poder envolvidos actuam em cadeia de ética de favores, a qual tem a sua lógica mas está em clara oposição com a muito mais recomendável ética de valores. Por seu lado, constituindo o segredo a alma do negócio, todos os praticantes da ética de favores tendem naturalmente a confiar mais no amigo do seu próprio agrupamento social do que em qualquer outra pessoa não arregimentada. Daí surgirem escândalos que, quando são de natureza política, não só incidem sobre indivíduos como abrangem os partidos ao mostrarem a natureza dos tentáculos que unem os seus elementos.
Praticamente todos os partidos que em Portugal têm sido poder foram alvo de escândalos desta ordem a vários níveis, mas invariavelmente com aspectos de negócios materiais englobados. Infelizmente, as correspondentes punições ficaram geralmente adiadas para as calendas. Ora, pancadas em número excessivo no edifício democrático provocam naturais fissuras, que tendencialmente alastram a brechas e depois a buracos maiores que podem causar a queda de toda a estrutura. Para o público que é governado, as palavras dos seus governantes passam a soar a falso e a tentação de fugir aos impostos aumenta na exacta medida em que os cobradores desses impostos não se revelam exemplares no seu comportamento.
Se a justiça não actuar inexorável e celeremente, ou, pior ainda, se ela se mostrar envolvida na rede tentacular de interesses, a corrupção alastrará descontroladamente e o Estado de Direito passará a ser uma farsa. Res non verba é o que, mais uma vez, se pede. Antes que seja demasiado tarde.

11/02/2009

Sucata

Chegou hoje mesmo à cidade de Nova Iorque um novo navio, baptizado com o nome da cidade. Trata-se de um vaso de guerra que possui a curiosidade de ter sido construído com sete toneladas e meia do aço recolhido dos salvados das Torres Gémeas da cidade, destruídas pelo atentado de 11 de Setembro de 2001. Do rio Hudson, o barco fez disparar uma salva de 21 tiros em memória das vítimas.
Menciono esta notícia fresquinha a pensar que, se fosse no nosso país, todas aquelas toneladas de aço iriam provavelmente parar às mãos do maior sucateiro cá do sítio. Qual barco, qual carapuça! A carapuça seria de muitos de nós, contribuintes, veneradores e obrigados.

10/31/2009

Pode o trabalho matar?

A resposta à pergunta do título é, certamente, afirmativa. Sempre o foi. Há trabalhos tão perigosos que bastarão pequenos descuidos para que um ou mais trabalhadores percam a vida: desabamento de terras, queda de pontes em contrução, explosões em minas, etc. São acidentes, uns mais fortuitos do que outros, uns com elevada responsabilidade de quem dirige, outros com responsabilidade diminuta.
E pode o trabalho conduzir trabalhadores à morte através do suicídio? Embora aqui o número dos que perdem a vida seja muito inferior, bastaria o muito propalado exemplo da France Telecom, empresa na qual nos últimos 20 meses 25 trabalhadores não conseguiram resistir a pôr termo à sua própria vida, para obtermos uma resposta igualmente afirmativa. O stress sob o qual trabalham pode atingir proporções tais que a única saída entrevista por aqueles a quem os gestores contabilisticamente chamam "recursos humanos" é o de terminar com uma existência que ainda teria um longo caminho a percorrer, com direito a bons momentos de felicidade. Porque é que isso está a suceder na France Telecom - e igualmente noutras empresas em que os casos são menos mediáticos mas também extremamente stressantes?
Neste mesmo blog elogiei há tempos o livro de João Ermida intitulado Verdade, Humildade e Solidariedade. Os meus encómios não foram para o pendor literário revelado pelo autor, mas sim para a franqueza como expõs a sua experiência de gestor com a responsabilidade global da Tesouraria e Mercados Financeiros do Grupo Santander. O livro, como o autor afirma, terá sido a sua melhor terapia contra o stress que continuamente experimentava, ele que decidiu abandonar o seu trabalho aos 38 anos. Não é propriamente contra o Grupo que João Ermida se revolta, mas sim contra a metodologia usada pelas cúpulas naquela e noutras empresas semelhantes. É a este propósito que transcrevo um passo do seu livro: "Vivemos num mundo onde é exigido aos homens e mulheres que não adormeçam em nenhum momento, pois se não estiverem preparados para o próximo desafio, este pode passar por eles sem que eles reajam. É esse medo da oportunidade perdida que nos leva a sermos cada vez mais egocêntricos, e é precisamente este egocentrismo a causa de tanto desespero no mundo actual, levando-nos a viver duas vidas bem distintas: a profissional e a pessoal. Na primeira, tudo nos é exigido e exigimos tudo de todos; na segunda, ansiamos por chegar a casa para viver segundo o código de valores que aprendemos. Na nossa vida profissional, somos chamados a desenvolver capacidades de resposta a problemas e situações onde a nossa ética tem de ser posta de lado. Somos treinados para sermos ambiciosos, gananciosos e deixar de lado qualquer tipo de comportamento que revele complacência. Quando saímos do trabalho, tentamos recuperar os valores éticos que nos ensinaram desde crianças, mas esses já dificilmente conseguem aparecer. Disto se ressente cada vez mais o nosso casamento e as relações com os nossos filhos."
Noutro passo, que considero também significativo, João Ermida elucida-nos: "Aquilo de que me apercebo é que, no mundo de hoje dos negócios, a verdade foi perdendo interesse. É mais importante fazer promessas que nunca serão cumpridas do que tentar vender a realidade dura em que se vive. Este facto leva a que empregados sejam postos em situações de total insegurança no seu trabalho, devido aos enormes objectivos que lhes são impostos, os quais só por sorte serão cumpridos."
Peço desculpa pela extensão das citações, mas sei que elas dizem mais do que aquilo que eu, felizmente sem esta experiência, poderia alguma vez descrever. Flexibilidade no trabalho e adaptabilidade a novas funções são dois conceitos muito comuns na gestão dos dias de hoje. Eles destroem equipas de trabalho como se isso fosse insignificante para os trabalhadores. Estes sentem-se obrigados pelas circunstâncias a entrar em concorrência com os seus colegas para evitar um despedimento que pode chegar a qualquer hora. Um ambiente inquisitorial é propício a denúncias pouco leais da parte de colegas. É o salve-se quem puder, "a corrosão do carácter", como Richard Sennet lhe chamou. O trabalhador não sabe geralmente quais são os verdadeiros objectivos da empresa em que labora, embora de antemão compreenda que o aumento dos lucros é o objectivo número um. Sabe também que é controlado nas suas pausas de trabalho e admoestado – ou alvo de delação – se eventualmente as excede por necessidade de descanso cerebral. Sabe também que existe no ar um clima de medo, de ausência de solidariedade, de humilhação. Sabe que a sua liberdade desapareceu. A auto-estima de que os livros teoricamente falam esvaiu-se também. Se ele sente que é a sua própria identidade que está em jogo, que apego pode ter à vida?
Apercebemo-nos de que muitos gestores de topo esqueceram a maior parte dos valores da sua cultura. Semelhantemente à maneira como vêem capitais serem aplicados de forma quase esclavagista em países asiáticos como a China, a Índia, o Paquistão e a Indonésia, pretendem impor na Europa sistemas que são por demais aviltantes para quem há muito deixou a selva para viver na urbe. Estamos a voltar a tempos e práticas que se julgavam mortas, enterradas pelo tempo e para sempre ultrapassadas pela civilização. Que tudo isto seja aceite sem grandes movimentos de revolta é também claramente um sinal dos tempos.
Os ricos devem tratar dos pobres, para que não sejam os pobres a tratar dos ricos.

10/30/2009

Desemprego na União Europeia

Aqui em Portugal ouvimos todas as semanas – quando não é em dias seguidos – notícias de grandes, médias ou pequenas empresas que encerram as suas portas, ou dispensam fatias maiores ou menores do seu pessoal. Numa comparação que é chocante mas por isso mais reveladora da realidade, se hoje sentássemos todos os desempregados nas bancadas dos vários estádios de futebol do nosso país em que se jogou o EURO2004 há pouco mais de cinco anos, todos os lugares estariam preenchidos com desempregados portugueses. É impressionante imaginarmos esse conjunto de homens e mulheres, jovens e velhos, que perderam os seus empregos e agora procuram o auxílio de um Estado também ele depauperado pelos muitos milhões concedidos a empresas, principalmente da área financeira.
"O dia-a-dia de um desempregado é como estar preso em liberdade" foi a cruciante mensagem que um desempregado transmitiu a um jornalista que recolhia depoimentos sobre o desemprego.
Curiosamente, há mais de 15 anos (12 de Fevereiro de 1994), Ernâni Lopes escrevia o seguinte no semanário Expresso: "Há, no mundo actual, um bilião e 200 milhões de pessoas dispostas a trabalhar por 45 contos/mês, em média, enquanto na Europa e nos Estados Unidos existem 250 milhões de pessoas que, em média, não aceitam trabalhar por menos de 150 contos/mês." Hoje em dia, diz-vos alguma coisa esta informação de um dos nossos melhores economistas?
As últimas notícias indicam-nos que na União Europeia-27 há países como a Letónia e a Espanha que se aproximam perigosamente dos 20 por cento de desempregados (19,7% e 19,3%, respectivamente). A Lituânia, a Estónia e a República da Irlanda encontram-se também num escalão bem alto (entre 13 e 14 por cento). Os países com taxas de desemprego mais baixas são a Holanda (3,6%) e a Áustria (4,8%). Portugal aproxima-se dos 10 por cento, se é que não atingiu já essa marca.
Se contabilizarmos exclusivamente a zona onde o euro circula como moeda (16 países), encontramos 15,3 milhões de desempregados, enquanto na UE27 esse número sobe para 22,12 milhões. Na zona euro, o desemprego entre os jovens situa-se em 20,1 por cento!
Estes são números respeitantes a pessoas. Tal como ao ouvirmos uma ambulância não nos devemos impressionar com o som da sirene que a ambulância lança para o ar mas sim com o doente que segue lá dentro, aqui também é essencial que pensemos em termos humanos e não em estatísticas. São vidas que estão em jogo!

10/28/2009

A atracção da água

Embora sem sol forte, o penúltimo sábado deste Outubro esteve bonito. Fui-me a ver o mar, que é como quem diz apenas o rio Tejo, que de mar apenas tem o sal que entra por ele adentro. O Parque das Nações, com a sua passarela de madeira entre o Tejo e o laguinho do Oceanário, é um dos meus passeios favoritos. Daí, o rio é suficientemente largo para me dessedentar do Atlântico e a zona é no geral muito aprazível. A temperatura estava um pouco mais elevada do que eu esperava, o que me levou a sentar uns minutos à sombra na bancada de pedra que corre ao longo do laguinho. Pus-me a ler um artigo interessante da Newsweek. Pouco tempo depois, sentou-se no mesmo muro uma moça de 19 ou 20 anos, que trazia pela trela um cão preto, peludo, de tamanho médio. Retirou a trela da coleira do bicho e deixou-o andar à solta por ali. Gostei do gesto. Porém, ela não demorou a levantar-se de um salto. “Núria!”, gritou. Percebi que afinal ela era dona não de um cão mas de uma cadelita. “Núria!” A moça não conseguia descobrir o animal. Correu entretanto para a direita e para a esquerda, até que divisou a sua Núria... dentro de água. (Está ali postado um aviso informando que é proibido tomar banho, mas não está escrito em linguagem que cão perceba. E, se for um cão de água, como Núria era, então a atracção do elemento líquido pode ser fatal.)
A rapariga sentia-se perdida. O que fazer? Ligou o telemóvel para casa, mais a contar a sua aflição do que a pedir auxílio. Implorou a uma pessoa que passava por ali para avisar os responsáveis do Parque. Entretanto, a sua Núria já tinha nadado por debaixo da passarela de madeira e passado para o rio aberto. Crescia a angústia da rapariga, talvez na razão inversa do prazer que a sua Núria sentia por se poder deliciar naquelas águas. Estava no seu elemento. Os chamamentos "Núria!", "Núria!" mantinham-se incessantes. O bicho virava a cabeça de vez em quando, mas continuava no seu feliz vaivém. Até que, passados uns largos minutos, resolveu chegar-se de novo à amurada. Sucede que esta amurada, relativamente alta e bem construída para resistir às marés mais elevadas, possui uma notória inclinação e corre ao longo de mais de um quilómetro. A Núria tentou subir. Em vão. As patas não aderiam devidamente ao escorregadio da pedra. Em busca de um sítio mais acessível para trepar, o animal foi nadando ao longo do muro, sempre com a dona, que entretanto saltara o gradeamento para o lado do rio, a chamá-la. Após mais uma tentativa infrutífera, o bicho regressou, sempre a nado, à zona da passarela de madeira. Aí, a rapariga pensou em atirar-lhe a trela para que o animal a abocanhasse e conseguisse subir. O bicho pegou-lhe, de facto, mas depressa a largou. Então a moça, sempre do lado de fora do gradeamento, agarrou-se a uma das barras deste e tentou chegar-lhe. Estava muito longe. Veio então o bonito socorro. Um rapaz brasileiro que passeava na zona com um amigo saltou depressa o gradeamento e, como era alto, agarrou na mão da moça para descer mais perto da água. Nem mesmo assim lá chegou. Só que a cadeia humana aumentou. Uns terceiros braços estenderam-se ao rapaz, enquanto a moça descia ela própria já para bem perto da água, segura por um braço. Aí, o cão de água fez um grande esforço para sair do seu elemento natural e a dona logrou apanhá-lo pela coleira. Depois de um enorme abraço e beijos num pêlo molhado, ela passou a cadelita para a pessoa acima e um outro rapaz colocou o bicho em terra firme. A dona estava exausta: depois daquela auto-injecção de adrenalina, teve literalmente que ser içada por braços solidários. Tinha tido uma pequena aventura e um enorme susto. Ficou, além disso, a saber o que é isso de crença natural de uma cadelinha como a sua Núria. No restante, foi bom ver a solidariedade activa das pessoas. Nem sempre tudo é mau na vida, nem acaba mal.

10/26/2009

Puxando a brasa à minha sardinha...

Eis-me a demonstrar a minha alegria pelo número de mulheres no novo Governo!

Assim mesmo: pelo valor de cada uma, pela competência, não por quotas.

É cedo para dizer se foram bem ou mal escolhidas, se irão cumprir bem a sua missão. Para já, o que me traz grande satisfação é a chegada progressiva de cada vez maior número de mulheres às várias sedes de poder. O que significa, por um lado, o acesso à formação profissional (não esqueçamos que no tempo das nossas avós as mulheres “não precisavam” de estudar) e, por outro lado, as condições familiares mais facilitadoras da disponibilidade das mães de família que também são.

Devagarinho, mas de modo irreversível, uma metade da humanidade vai-se colocando a par da outra metade, como é normal.

Como diria o Zé Mário Branco, “o que eu andei para aqui chegar!”

10/23/2009

A Igreja Católica e a liberdade de interpretação

O último livro de José Saramago tem desencadeado uma inegável celeuma na sociedade portuguesa. O próprio autor tem proferido umas tantas frases características de livre-pensador, que chocam com o marasmo de pensamento de uma cultura católica tradicionalista – a qual foi, aliás, a que Saramago teve a rodeá-lo como criança.
Curiosamente, um vasto número de pessoas que se vêem apanhadas na sua crença sem terem lido a Bíblia acusam Saramago de estar meramente a fazer publicidade ao seu livro. Pessoalmente, não vejo grande mal nisso, numa sociedade de consumo que gosta de identificar a existência de publicidade com a existência de liberdade. Mas se é um facto que as intervenções de Saramago acabam na realidade por publicitar o livro, não é menos verdade que são as televisões que o convidam para entrevistas e debates – porque isso atrai audiências (o que permite maior publicidade nesse canal). Entretanto, porque é que quem diz, com certo cinismo, que Saramago está a fazer publicidade do seu livro, o qual ainda por cima se lê num dia ou dois, não diz também que Saramago acaba por incentivar muitas pessoas a, finalmente, lerem a Bíblia, o tal livro que poucos portugueses leram? Quantas pessoas mais não irão comprar a Bíblia para lerem várias das estórias que lá estão? Convinha que quem falasse de publicidade a uma obra, que consideram má, lembrasse também a publicidade a uma outra obra, que decerto consideram boa.
Da Igreja Católica tem vindo, como grande argumento contra a interpretação de Saramago da história de Abel e Caim, a afirmação de que a Bíblia não é para ler literalmente. Isso significa o quê? Que cada um pode interpretar a Bíblia à sua maneira? Se sim, como se concilia essa possibilidade com a existência de um Papa, que é infalível, como todos os que frequentaram aulas de catequese aprenderam?
Porque este problema não é novo, decidi fazer copy&paste de alguns itens de uma colectânea que eu próprio elaborei há pouco tempo. Os autores das citações vão devidamente assinalados.

"Desde cedo a Igreja decidiu que apenas pessoas qualificadas, certos clérigos, por exemplo, deviam conhecer a Bíblia, que, com as suas leis e moral igualitárias e reprimendas proféticas ao poder e exaltação dos humildes, convidava à indisciplina entre os fiéis e ao desentendimento com as autoridades seculares. Só depois de censurada e suavizada poderia a Bíblia ser dada a conhecer aos leigos. Foi assim preciso aguardar o aparecimento de seitas heréticas, tais com os Lolardos (Wiclif, ca. 1376), os Luteranos (a partir de 1519) e os Calvinistas (meados do século XVI), com a sua ênfase na religião pessoal, e a tradução da Bíblia para vernáculo, para que a tradição judaico-cristã ingressasse explicitamente na consciência política europeia, ao lembrar aos soberanos que era de Deus que recebiam a riqueza e o poder, mas na condição de se portarem bem. Uma doutrina inconveniente." David S. Landes, A Riqueza e a Pobreza das Nações (1998)

"Os ensinamentos de Cristo, tal como aparecem nos Evangelhos, tiveram pouco que ver com a ética dos cristãos. A coisa mais importante sobre o Cristianismo do ponto de vista social e histórico não é Cristo mas sim a Igreja, e, se quisermos considerar o Cristianismo uma força social, não é nos Evangelhos que devemos procurar o nosso material; Cristo ensinou que deveríamos dar os nossos bens aos pobres, que não deveríamos fazer guerra, que não deveríamos ir à igreja e que não deveríamos punir o adultério. Nem os católicos, nem os protestantes demonstraram qualquer desejo forte de seguir os Seus ensinamentos a qualquer destes respeitos.
(...) Nada há de acidental quanto à diferença entre uma Igreja e o seu fundador. Logo que se supõe que a palavra de certos homens contém a verdade absoluta, surge um corpo de especialistas para interpretar os seus ensinamentos, e esses especialistas adquirem infalivelmente poder, já que possuem a chave da verdade. Como qualquer outra casta privilegiada, usam do seu poder em seu próprio benefício." Bertrand Russell (1872-1970)

"O que realmente leva os indivíduos a acreditar em Deus não é nenhum argumento intelectual. A maioria das pessoas acredita em Deus porque lhes ensinaram, desde tenra infância, a fazê-lo. Essa é a principal razão." Bertrand Russell (1872-1970)

"Como queres tu tirar com argumentos da razão ideias que o povo aprendeu sem razões?" F. Nietzsche (1844-1900)

"Gostaria de ver um mundo em que a educação tivesse por objectivo antes a liberdade mental do que o encarceramento do espírito dos jovens numa rígida armadura de dogmas, que tem em vista protegê-los ao longo da vida contra os dardos das provas imparciais. O mundo precisa de corações e de cérebros abertos, e não é mediante sistemas rígidos, quer sejam velhos ou novos, que isso pode ser conseguido." Bertrand Russell (1872-1970)

"Os católicos e os comunistas são parecidos ao acreditarem que o seu opositor não pode ser honesto e inteligente." George Orwell (1903-1950)

10/19/2009

Quando Puxe significa Empurre


Em Penafiel, Saramago insurgiu-se há poucos dias contra a onda de americanismos que, traduzidos ou não, entraram de súbito na língua portuguesa. Ele tem razão. Quem é que diz consola de jogos e não playstation? Quem é que diz eliminatória – que foi palavra usada durante muitos anos – em vez de playoff? E como é que layoff entrou tão rapidamente no nosso vocabulário? Bem, isto daria pano para mangas, mas admito que é assunto que eu próprio já tratei extensamente noutros posts (foi propositadamente que usei a palavra, em vez de textos ou escritos).
Tive oportunidade de encontrar há três ou quatro dias mais um caso interessante de uso da língua inglesa. Foi numa unidade hoteleira onde estive pela primeira vez. Local paradisíaco, no campo, serviço de primeira, é natural que não só os menus estejam em português e em inglês (pelo menos), como também que haja nos corredores e outras dependências os sinais convencionais indicativos de saídas e outras direcções ou então as palavras correspondentes em português e em inglês. Na manhã seguinte à minha chegada, resolvi dar uma mirada à piscina exterior. Desci umas escadas que indicavam o caminho para a swimming pool, abri uma porta e, passados dois minutos ou três, cheguei à dita piscina. Como a temperatura às oito da manhã não estivesse óptima para dar umas braçadas, limitei-me a tirar umas fotografias e regressar. Ao chegar à porta que mostro na foto acima, deparei com uma indicação algo embaraçante: Empurre Puxe. Aí, hesitei. Deveria empurrar a porta ou puxá-la? São movimentos exactamente opostos. Uma segunda mirada fez-me crer no entanto que devia empurrar a porta: não havia maçaneta nem outro puxador. Então, o que estava aquele "Puxe" ali a fazer?
Na recepção confirmaram as minhas suspeitas. Na realidade, o portuguesíssimo "Puxe" pretendia ser o Push inglês, que de facto significa empurrar. O que eu não acredito é que muitos britânicos ou americanos cheguem imediatamente a essa conclusão, mas não deixa de ser curioso querer obrigar estrangeiros a ler as suas próprias palavras através da nossa ortografia.
Enfim, é um pormenorzito, facilmente corrigível. Mais importante foi sem dúvida verificar que, na generalidade, a unidade hoteleira tem todo o conforto que possamos esperar e é servida por pessoas afáveis e competentes.

10/17/2009

Arejando




Uma breve escapada da cidade pode ser extremamente salutar. Em Lisboa, rotinamo-nos por demais em vistas curtas e conversas só aparentemente longas e profundas. Limitados que estamos por ruas e corredores do Metro, encafuados que vivemos em escritórios, centros comerciais, cafés ou bares, esquecemos frequentemente a outra vida que não é assim. Na tradicional província que todos conhecemos, metade rural, metade urbana, o tempo tende a assumir uma outra dimensão, a correria é mais suave, embora muitas das tarefas não sejam menos duras. Respira-se um outro ar. Ao citadino sabe-lhe bem variar e encontrar um outro mundo em que se fala a mesmíssima língua, se ouvem provérbios que por vezes já tínhamos esquecido e, principalmente se vêem usos e costumes que podem parecer de outros idades do tempo. Contudo, o calendário é o mesmo, o ano, o mês e o dia não são diferentes. Nem diferentes são as pessoas. Mas têm outros pontos de vista. Se o hábito faz o monje, também a terra faz a mente.
Na minha curta saída da cidade por três dias, fui dar um pulinho até à Beira Interior. Por um lado, interessava-me rever coisas que já conhecia, por outro estava curioso relativamente a algumas novidades. Nada foi decepcionante, embora nem tudo tivesse agradado, como é natural. O saldo final foi claramente positivo.
Dias depois da realização das eleições para as autarquias, foi um prazer encontrar tantas melhorias na maior parte das povoações que visitei. Democraticamente, a concorrência entre vilas funciona mesmo e faz com que o nível geral de qualidade do equipamento à disposição das populações esteja muito mais elevado do que num passado não muito distante. Estive em Miranda do Corvo, na Lousã, em Góis, Arganil, Côja, Mangualde, Penalva do Castelo e Viseu. Curiosamente, encontrei muitos pontos comuns. Digamos que toda a povoação que se preze possui, para condicionamento do trânsito, um número maior ou menor de rotundas mas, certamente mais interessante do que isso, é a constatação de que praticamente todas as vilas possuem zonas pedonais, o que, para além de representar um enorme alívio para quem está saturado do mundo dos escapes dos automóveis, permite compras descontraídas ou um almoço ao ar livre numa esplanada quando o tempo está bom, como foi o caso. Para além de possuírem edifícios modernos ou restaurados na Câmara Municipal e no Domus Justitiae, frequentemente alindados com fontes ou repuxos nas proximidades, quase todas estas povoações dispõem de uma biblioteca municipal, museus com características diversas, amplas áreas reservadas para escolas básicas e secundárias – geralmente equipadas com bons campos de jogos e ginásios -, um posto de informação turística que funciona, jardins floridos, higiene nas ruas e, ainda, Centros de Dia, Lares para Idosos e parques infantis. Nalguns casos encontrei teatros restaurados. Algumas das povoações possuem curiosos painéis de azulejos com a heráldica respectiva e os pontos de maior interesse na terra e zonas circundantes. Fontes e lavadouros públicos restaurados também são frequentes. Em terras que são de montanhas e ficam a alguma distância do mar, algo que me chamou a atenção foi a existência de praias fluviais, geralmente com acolhedores jardins relvados à beira-rio. (Tenho pena de não poder incluir aqui alguns dos muitos slides que fiz, mas terei muito gosto em enviá-los a quem lhes queira dar uma mirada.)
Como seria previsível, nesta altura encontrei múltiplos cartazes dos diversos partidos políticos, predominantemente dos principais (PSD e PS). Atendendo aos bons resultados que os partidos-ampulheta CDS e BE alcançaram nas legislativas, talvez se esperasse proeza semelhante nas autárquicas. Existe, no entanto, uma enorme diferença não só entre a estrutura tanto do PSD como do PS, mais o PCP, e os outros dois acima referidos. Estes, CDS e BE, farão uma decente oposição palavrosa no Parlamento, mas quanto a obras verdadeiras, à criação do bem-estar acima descrito, os eleitores parecem preferir claramente os fazedores aos faladores: res non verba. A obra conta.
Por último, gostaria obviamente de recomendar a zona para quem eventualmente a não conheça ainda. As aldeias de xisto da Lousã e de Góis, a excepcional aldeia do Piódão (tomar a estrada Vide-Piodão, 11 quilómetros apenas, em vez da mais moderna que não é recomendável a quem sofra de vertigens), em Penalva do Castelo a Casa da Ínsua recentemente inaugurada como hotel de charme com os seus belos jardins e solar, o Santuário de Nossa Senhora das Preces a uns quilómetros da Ponte das Três Entradas, a casa tristemente em ruínas da família de Aristides de Sousa Mendes em Cabanas de Viriato, a igreja moçárabe de Lourosa e outros pontos de interesse são recomendáveis, sempre em locais muitos florestados, com rios e arroios a ziguezaguearem por ali. Quanto à comida, é farta e bem cozinhada. E é sempre bom trazer para casa umas tantas garrafas de vinho do Dão, preferencialmente compradas nas Adegas Cooperativas, onde são mais em conta.

10/12/2009

Obama nobelizado


Foi com uma certa surpresa que eu, admirador confesso da inteligência e do estilo de Barack Obama, ouvi o anúncio da distinção do Nobel para a Paz que o comité norueguês lhe atribuiu. Não pude deixar de considerar algo extemporânea esta distinção. Quando esse mesmo prémio foi conferido a Nelson Mandela, certamente que achei absolutamente justo. Toda a vida do dirigente da África do Sul e o modo sereno mas firme como saiu do seu longo cativeiro em prisões estatais constituíam um hino à paz. Quando os líderes de Timor-Leste receberam idêntica distinção, houve uma "lição política para o mundo", tal como no caso de Mandela, mas existia muita obra feita, e também muita por fazer. O prémio constituiu um reconhecimento pelo passado e um incentivo para o futuro.
No caso de Obama é diferente. É certo que ele restituiu a América ao mundo, quebrando muito do anti-americanismo que se sentia em todo o lado, mas está muito longe de ter resolvido problemas graves na própria América e de ter encontrado soluções efectivas noutros locais do globo em que os americanos se atolaram ao longo dos anos. É natural, aliás: tem pouco mais de um ano de governação.
O principal dos problemas situa-se, sem sombra de dúvida, nas intermináveis disputas bélicas entre Israel e os palestinianos, com evidente superioridade militar da parte de Israel, país que tem repetidas vezes desrespeitado as decisões da ONU. Ainda recentemente Obama expressou, brilhantemente como sempre, as suas ideias sobre o conflito. Os israelitas deixariam de construir mais colonatos em terra palestina. Pouco tempo depois, o parlamento de Israel aprovou a construção de mais umas centenas de colonatos. Qual foi a reacção da Administração americana? Silêncio, tanto quanto me recordo. E não se pode dizer que a América se coíbe de intervir num estado soberano; de facto, já o fez tanta vez noutros países! Que se saiba, o governo americano não cortou quaisquer apoios a Israel. Terá sido este um notável contributo para a paz?
Gostei do que Obama fez relativamente às bases anti-mísseis projectadas em dois países do leste europeu. Mas isso dará para Nobel?
Pagar uma obra antes que ela seja feita não é geralmente visto como boa política. A atribuição daquele que é o maior prémio mundial do género não deve ser encarado como mero incentivo para o Presidente dos EUA. Ele tem mostrado à evidência que é uma pessoa extremamente consciente, que defende valores que são partilhados por milhões de pessoas em todo o mundo. Portanto, não é de incentivos que ele precisa. Pergunte-se, entretanto, se Obama mandou retirar as tropas americanas estacionadas no Iraque? Ainda não. Não é um facto que pensa reforçar os efectivos que estão a lutar no Afeganistão? É. E envolver-se mais no Paquistão? Parece que sim. Tudo somado, digamos que encontramos um novíssimo estilo, uma pessoa muito carismática com a qual, se não somos conservadores americanos, simpatizamos a sério, mas faltam concretizações dos seus planos e declarados anseios. Vamos aceitar, justificadamente, que um ano é um tempo curtíssimo para fazer muita obra. Em que medida é que o que já fez será suficiente para a atribuição do Prémio Nobel da Paz? Este pode soar como homenagem ao primeiro presidente não-branco dos Estados Unidos, mas também pode surgir como o oposto do res non verba. Ora, numa instituição que estuda cuidadosamente obras já realizadas, como fez este ano por exemplo no campo da Física e da Medicina, o que Barack Obama concretamente já fez, se descontarmos o importante desanuviamento através do diálogo que tem praticado com algum sucesso, é demasiado pouco para um Nobel. Mas esta é apenas uma opinião.

10/11/2009

Vícios e Virtudes

Tem sido mil vezes repetida a frase de John F. Kennedy dirigida aos cidadãos americanos "Não perguntem O que é que o Estado pode fazer por mim?, mas sim O que posso eu fazer pelo meu país?" Porém, não creio que, apesar da insistência, ela tenha sido interiorizada em Portugal. É frequentíssimo encontrarmos portugueses que adoram dizer mal daquilo que vêem ser feito no seu país. Tipicamente, diz-se que eles encontram defeitos em tudo. O alvo das suas críticas situa-se principalmente ao nível daqueles que os governam, seja a nível nacional, seja municipal ("a culpa é do...").
Quem pretenda analisar o seu posicionamento, reparará que essas pessoas se comprazem em estabelecer um cotejo entre o que acham à sua volta e aquilo que as suas utópicas expectativas desejariam. Às vezes, mau-grado a sua idade e experiência de vida, esses indivíduos mantêm um discurso perfeitamente ingénuo relativamente à natureza humana. Embora saibam que não é assim, partem do princípio de que a natureza do homem é perfeita e acreditam que é possível moldar os homens para padrões de rectidão de princípios e práticas. Com essa alteração, tudo se transformaria num paraíso terreno. Ora, se uma parte significativa do seu desagrado provém da sua sã e bem intencionada imaginação, uma outra parte advirá duma impaciência natural da idade, que os faz desesperar pelo pouco tempo que têm para ver concretizados os seus anseios. Quanto mais tiverem a sensação de que o seu tempo está perigosamente a encurtar, tanto mais cresce a sua angústia e mais se encarniçam na sua luta feroz.
Há muito de naïveté nesta atitude. Ao não quererem admitir que a natureza humana inclui perversidade q.b. e ao não julgarem com objectividade o efeito do poder sobre quem o detém, incorrem nas suas investidas, geralmente bem sucedidas, de encontrarem erros na governação, as quais depois, ventilam com sinceridade para os outros.
Esquecem, natural e humanamente, todas as facetas boas. Ignoram as comparações com países ou regiões que estejam bem piores em termos de desenvolvimento. Não é para baixo que o seu pensamento se debruça. Os termos de comparação que procuram são sempre não só mais elevados, como estão utopicamente mitificados e perfeitos, como se isso fosse humanamente possível. Foi daqui que nasceram os grandes crentes na China maoista, na União Soviética estalinista, no Portugal de Salazar ou na imaculada América. Um conhecimento in loco destas paragens e desses tempos cedo dissiparia convicções profundamente arreigadas. Por todo o lado há homens e, como o ditado diz, "onde o homem põe a mão, tira Deus a virtude". Principalmente quando essa mão está no poder.
Logo que se contacta materialmente o sonho sonhado descobrem-se nuvens que nos sonhos não cabiam. Quanto mais aprofundamos os nossos conhecimentos, mais notamos que onde algo se tapa, há sempre uma parte que se destapa.
Ora, quem conhece bem o seu país se só o seu país conhece? Quem pode falar do seu Portugal sem conhecer os pontos negros, que também os há, da Holanda, da Suiça ou da Alemanha? Se Portugal é tão mau, por que motivo haverá alguns suecos que adoram viver neste país? Dir-se-á: porque levam uma vida boa. Porque são, por exemplo, engenheiros, e para eles não há dificuldade em comprar boa comida e óptima bebida, em ter uma casa aprazível e um bonito automóvel. De que se podem queixar?
Pois sim, mas os insatisfeitos, os que estão constantemente à espera de um Messias redentor, de um político salvador, desesperam invariavelmente e expressam o seu descontentamento com desusada frequência. Geralmente não notam, tão enebriados que estão no seu fundamentalismo, que ao dizerem repetidamente mal do seu país e ao fazerem pouco ou nada para corrigir esse mal, outra coisa não fazem do que contribuir para uma atitude negativa, algo que se dispensa em Portugal, que precisa mais de gente que o levante e faça coisas úteis.

P.S. Entretanto, parafraseando Benjamin Franklin, admito que a maioria dos portugueses procura nos outros mais os vícios do que as virtudes. E em si próprios, procuram os vícios? Também eu já me tenho apanhado a verberar impiedosamente contra uns tantos governantes. Desculpo-me, como todos nós afinal nos desculpamos, por estar a defender valores que vejo corrompidos. Ergo-me, mais do que contra pessoas, contra o mau exemplo que dão, contra a prática do compadrio, da fraude, da mentira – numa palavra, contra a sua falta de ética. É difícil, e até nefasto, ficar calado em casos desses. Serei também um desses ingénuos e bem-intencionados utopistas, apesar do que atrás escrevi?

10/07/2009

Migração com E- e com I-

Apesar de todos sabermos que as migrações são de todos os tempos – por exemplo, por que razão têm os índios americanos o mesmo tipo de olhos dos asiáticos?, porque há tantos brancos em terras primitivamente habitadas por índios (v.g. Estados Unidos e Brasil)? – nunca a migração de pessoas atingiu as proporções dos dias de hoje. Em Portugal, qualquer dia começamos a habituarmo-nos a distinguir as pronúncias brasileiras de Minas Gerais das de Goiás ou de Mato Grosso.
Para nós, portugueses, é algo de estranho encontrarmos tantos estrangeiros a residirem em Portugal. Porquê? Porque o nosso hábito foi sempre o de emigrar. Comunidades portuguesas em Toronto, Montreal, New Jersey, Newark, San Diego, Rhode Island, na Venezuela, na África do Sul, em França, na Alemanha, no Luxemburgo, na Holanda, na Suiça, em Inglaterra é coisa que não falta. Emigra-se em busca de melhores condições de vida, emigra-se para fugir à pobreza, ao recrutamento para a guerra, a uma prisão iminente. Com três milhões de braços válidos a deixarem Portugal na década de 60 e início da de 70 do século passado, temos plena consciência do fenómeno.
Os anos 90 apresentaram-nos um pouco do reverso da medalha: a imigração. A guerra que se manteve em África no pós-1974 trouxe-nos largas quantidades de angolanos e angolanas. A seca e uma generalizada falta de trabalho em Cabo Verde fizeram desembarcar nestas paragens muitos caboverdianos. A desintegração da União Soviética e a situação precária de várias economias que entretanto procuravam mudar de agulha fizeram com que muitos ucranianos, moldavos e romenos arribassem a Portugal. Deu-se uma notória hemodiálise humana nos principais centros, grandes estaleiros de obras. De 0,4 por cento de emigrantes com que contávamos em 1960 passámos para 7,2 por cento em 2005. A percentagem já deve ter subido entretanto. As últimas levas têm sido de brasileiros, que hoje constituem já a comunidade estrangeira mais numerosa em Portugal. Do leste europeu, muitos regressaram aos seus países de origem, outros assentaram arraiais nesta terra, talvez para sempre.
Mas significará isto que parou a nossa emigração? De modo nenhum. Por cada 15 novos imigrantes que chegam, saem 100 portugueses para o exterior, informa-nos o Instituto Nacional de Estatística. (A situação é bem diferente daquela que o saudoso Raul Solnado costumava parodiar: "Nasci numa aldeia que tinha sempre a mesma população. Quando nascia uma criança, fugia um homem!")
Entretanto, a notícia chega-nos trazida pelo Relatório do Desenvolvimento Humano (RDH): "Portugal é o mais generoso entre todos os países do mundo em matéria de políticas de integração dos imigrantes." Distinção algo inesperada, sem dúvida, mas bem-vinda. Isabel Pereira, especialista em políticas do Gabinete do citado RDH, é franca e explica que a análise foi feita basicamente sobre o quadro jurídico. Muitas das iniciativas adoptadas datam 2007. "Como são muito recentes, é cedo ainda para avaliar a sua aplicação e a sua eficácia."
Fez bem Isabel Pereira em dizer o que disse. Foi honesta. É que as associações de emigrantes continuam a falar de um tipo de escravatura moderna que afectaria cerca de 50 mil imigrantes não legais. O grande Montesquieu (1689-1755) era um homem avisado. Legou-nos uma importante mensagem: "Quando visito um país, não verifico se nele existem boas leis, mas sim se as que existem são implementadas. Boas leis há-as em toda a parte." Ele aplaudiria as reservas de Isabel Pereira.
De facto, muito embora eu conheça pessoalmente imigrantes que estão perfeitamente integrados no nosso país e que se sentem felizes por viverem aqui, há outros que são francamente explorados. Recebendo, quando recebem, pouco dinheiro pelo seu trabalho, sem segurança social e com total precariedade, eles fazem a delícia de múltiplos empresários portugueses. Estes, conseguindo escapar-se de várias formas a uma fiscalização que é insuficiente ou pouco actuante, sentem-se orgulhosamente integrados no grandioso movimento conhecido por globalização e acabam por praticar o inverso da deslocalização das suas pequenas empresas para o estrangeiro. No seu caso, são os trabalhadores baratos que vêm até eles. E proporcionam-lhes bons lucros.

10/04/2009

Pensando melhor? - Uma experiência


Um artigo incluído no último número da revista TIME chamou-me a atenção pela novidade do assunto. Diz respeito a um dos estados norte-americanos menos conhecidos dos europeus em geral: Utah. Se fosse a Califórnia, a Florida, Nova Iorque, ou mesmo o grande enrodilhador de língua que é Massachusetts, chegaríamos lá com relativa facilidade. Mas Utah? Onde fica isso?
No mapa dos Estados Unidos, Utah fica mais para Oeste do que para Leste, entre o Colorado e Nevada, a norte do Arizona e a sul de Idaho e Wyoming. Zona índia que foi, o nome Utah deriva da língua nativa e tem o significado de "povo das montanhas". Hoje em dia, como seria previsível, já não se pode falar em povo que vive nos montes, entre eles as Montanhas Rochosas. Oitenta por cento dos 2 milhões e setecentos mil habitantes do Estado concentram-se à volta de Salt Lake City, que é a capital. Em termos de superfície, ocupa uma área equivalente a cerca de duas vezes e meia o território de Portugal. Sob o ponto de vista religioso, Utah é um dos estados mais homogéneos dos EUA, com cerca de 60 por cento da população a pertencer à Igreja Mórmon. Curiosamente, o Utah foi durante o ano passado o Estado que registou maior crescimento em termos de população nos Estados Unidos.
O povoamento de Utah data de 1847, sob a liderança do mórmon Brigham Young. Durante os 22 anos seguintes, mais de 70 mil pioneiros atravessaram as planícies e assentaram arraiais na região, como vários filmes western nos mostram. É uma terra inóspita, que os novos colonos foram tentando melhorar. "Trabalho" é o lema do Estado. Especialmente devido à sua poligamia, os mórmons tiveram problemas com o governo dos Estados Unidos, que enviou tropas para sanar a situação. A chegada de imigrantes não pertencentes à Igreja Mórmon só se concretizou com a entrada de mineiros vindos de outras partes para explorar as minas existentes no território. Em 1869, foi inaugurada a primeira linha de caminho de ferro transcontinental, com o seu terminal em Utah. O comboio trouxe muitos novos imigrantes e deu azo a grandes fortunas. Em 1890, os Mórmons aboliram oficialmente a poligamia. Hoje em dia, 95 por cento da população é branca, predominantemente de origem europeia (Inglaterra, Alemanha, Dinamarca, Suécia). Politicamente conservadoras, as famílias continuam a ter um elevado número de filhos, e de entre os costumes mais arreigados salientam-se as severas restrições existentes ao álcool e ao jogo.
Nos anos 50 e 60 do século passado, a construção da rede de estradas interestatais permitiu a descoberta de locais paradisíacos no Utah, que se tornaram famosas atracções turísticas. Por exemplo, o Utah gaba-se de possuir a melhor neve do mundo para a prática de ski. Recordaremos talvez que, há sete anos, os Jogos Olímpicos de Inverno se realizaram na zona de Salt Lake City. Hoje em dia, questões que envolvem o ambiente, como os transportes e o ordenamento do território, constituem temas prioritários em matéria de política, na medida em que o desenvolvimento consome terrenos agrícolas e afecta áreas protegidas.
Após este breve intróito sobre o Utah, que considerei necessário para melhor se entender o tema do título, eis a experiência. Há exactamente um ano, os serviços públicos, preocupados com a preservação do meio ambiente e com a poupança de energia, decidiram pôr em prática uma experiência inédita. Criaram a semana de trabalho de 4 dias, com 10 horas diárias, de molde a perfazer as mesmas 40 horas de atendimento público da semana tradicional. Assim, desde 2008 que as repartições públicas trabalham apenas de 2ª a 5ª feira, deixando livres aos 17 mil funcionários a sexta-feira, o sábado e o domingo. O horário é aquele que a foto, tirada do mencionado artigo, mostra. O lema do estado é respeitado, continua a trabalhar-se bem, não houve qualquer redução de salários e, ao fim de um ano de experimentação, foi possível chegar às seguintes conclusões principais: 1. Registou-se uma redução nos custos energéticos por parte do governo da ordem dos 13 por cento. 2. Os funcionários públicos terão poupado qualquer coisa como 6 milhões de dólares em custos de gasolina. 3. No geral, a iniciativa terá reduzido a emissão de gases com efeitos de estufa em mais de 12 mil toneladas métricas/ano. 4. Oitenta e dois em cada cem funcionários declarararm-se satisfeitos com os resultados obtidos (as objecções levantadas pelos restantes 18% tiveram que ver com dificuldades de horário devido a escolas ou creches para os filhos). 5. O horário de 10 horas diárias não pareceu excessivo aos trabalhadores, em parte devido ao incentivo da sexta-feira livre. 6. Graças ao horário alargado, muitos clientes dos serviços públicos deixaram de perder horas de trabalho para irem às repartições resolver os seus assuntos.
A concluir, diga-se que há outras cidades, tanto nos Estados Unidos como noutros países, interessadas em conhecer os resultados e em obter mais pormenores sobre a experiência.