12/21/2005

Feliz Natal!

Votos de Boas Festas para os colegas do blog e para todos aqueles que têm colaborado com os seus comentários, ou apenas lido os nossos arrazoados.
Pela minha parte, embora tenha como habitualmente vários assuntos na manga, vou fazer uma pausa natalícia.

12/17/2005

Mulher


Esta é uma foto tirada há algum tempo nas terras nortenhas do Soajo. Não custará a acreditar que fiquei algo estonteado ao ver esta aparentemente franzina mulher a carregar à cabeça um molho de fetos tão volumoso. Não consegui divisar-lhe o rosto para concluir se ia cansada ou a praguejar com a vida. A princípio, tudo o que enxerguei foi o que a objectiva captou: duas pernas magras a sustentarem um corpo que fazia mover ao longo da estrada aquele enorme feixe de fetos. Decidi segui-la. Ao fim de uns dois minutos chegou ao quintal da sua casa, onde alijou a carga. Com grande jovialidade, dispôs-se a falar comigo. Admitiu que não estava fatigada. Fazia aquilo duas ou três vezes no mês. "Mas mesmo assim era melhor não ter que carregar isto, bem entendido!" Falou-me com a resignação da mulher-mãe, que veste invariavelmente de preto, viu os seus dois filhos emigrarem para o Luxemburgo e agora tinha que tratar sozinha da sua vida. "Eles não querem que eu faça isto. Quando cá vêm no verão, não me deixam. Mas agora, até aquece!"
Impressionou-me. Pensei em dizer-lhe qualquer coisa, mas decidi quedar-me como ouvinte. Quem era eu, homem da cidade e apenas ocasional viajante por aquelas paragens, para eventualmente lhe transmitir palavras que, se causassem um sentimento de revolta, poderiam afinal envenenar quem fazia com prazer, por ser útil, tarefas a que há muito se habituara?
A publicação desta foto é uma pequena homenagem, a ela e a tantas outras mulheres que labutam sem cessar, desde o muito cedo da manhã, totalmente ignoradas da esmagadora maioria de nós.

12/16/2005

Périplo livreiro no Chiado


Como antigo morador no bairro de Santa Catarina, aluno do Passos Manuel e, mais tarde, da Faculdade de Letras na Rua da Academia das Ciências, o Chiado sempre foi o meu poiso de livros. Folhear romances, ler capítulos inteiros, dar uma olhadela a poemas, apreciar fotos e hesitar perante o preço foram passos que me habituei a dar nas livrarias do Chiado. Os alfarrabistas da Trindade e da rua do Alecrim também faziam frequentemente parte do meu itinerário, onde invariavelmente encontrava amigos perdidos nas mesmas deambulações.
No final da manhã de sábado passado, resolvi descer o Chiado. Descendo a Garrett, que juntamente com a Rua do Carmo e a Nova do Almada forma um Y invertido, entrei primeiro numa das minhas livrarias favoritas do passado: a Sá da Costa. Era lá que, antes do 25 de Abril, por vezes me arranjavam à sexta-feira à tarde, depois da hora a que terminava a eventual visita da PIDE (17H00), aqueles livrinhos que os bons costumes políticos da altura não consentiam que chegassem ao público em geral. Vinham invariavelmente embrulhados, sem qualquer identificação que permitisse concluir que tinham sido comprados na Sá da Costa. Ora bem, no passado sábado a Sá da Costa surgiu-me, sem remodelações aparentes, com apenas dois clientes no interior para igual número de funcionárias. Dei uma vista de olhos. Mantinha-se tudo sensivelmente na mesma. As estantes ainda são encimadas por quadradinhos de cartão com dizeres manuscritos: Direito, História, Edições Sá da Costa, etc. Quando saí, depois de dar uma volta pelas instalações onde, por falta de dinheiro, namorei durante meses uma enciclopédia que ainda hoje tenho em casa, o número de clientes era igual a zero. A abertura da caixa registadora não se fez ouvir.
Um pouco mais abaixo e do lado oposto, entrei na Bertrand. Um ambiente mais acolhedor, boa iluminação e decorações natalícias permitiam que estivessem uns 20 clientes ao todo na vasta livraria. Não eram muitos, mas não provocavam a horrível sensação de vazio. Mesmo assim, atendendo à quadra do ano, o movimento era relativamente diminuto.
Mais abaixo, entrei na FNAC, de que sou cliente assíduo. Para começar, não se poderá dizer que a FNAC seja apenas uma livraria, mas o certo é que vende incomparavelmente mais do que todas as livrarias do Chiado juntas. Havia um movimento grande, que é aliás frequente. Crianças, jovens e adultos, uns de pé e outros sentados em locais destinados a leitura rápida, folheavam livros, enquanto empregados perfeitamente identificáveis respondiam com prontidão e eficiência, geralmente graças ao sistema informático, a questões levantadas por clientes. Todos sabemos que a FNAC junta à livraria a música, os DVD, os computadores, as impressoras e toda a parafernália afim. E adiciona ainda a isto um café, venda de bilhetes para espectáculos e mais um cartão de membro. De qualquer forma, impressiona o número de pessoas que congrega em comparação com as restantes livrarias da zona.
Desci propositadamente a Rua Nova do Almada. A velha Luso-Espanhola é hoje a Coimbra Editora e, tanto quanto me pude aperceber, especializou-se na área de Direito, o que estará em ligação directa com o grande número de advogados que têm os seus escritórios naquela zona. Com bom aspecto no seu remodelado interior, estava fechada.
Mais abaixo e com o seu charme habitual, a centenária Férin tinha as portas abertas, mas apenas oito potenciais clientes. Coffee-table books decoravam as montras.
Do lado da Rua do Carmo, o panorama foi mais grave. Na Portugal, que foi em tempos uma das livrarias mais concorridas, três funcionários palravam uns com os outros. Não tinham ninguém para atender. Dois ou três visitantes limitavam-se a folhear os livros. Nada mudou na Portugal. Encontrei as obras de referência e as edições em inglês nas mesmas prateleiras em que sempre as consultei e adquiri.
Duas portas abaixo, a Aillaud & Lellos não tinha uma só pessoa lá dentro. O ambiente era soturno. Dois funcionários conversavam.
As conclusões a tirar dos resultados desta breve peregrinação impressionam-me.

12/15/2005

Toda Gente Vê (TGV)


Às vezes chego a pensar que aquilo que tenho escrito contra o TGV não tem qualquer razão de ser. Num país que há anos ainda mantinha sinais de enorme atraso, como é evidenciado por este pequeno comboio de mercadorias que fotografei numa ida a Trás-os-Montes, como poderá ainda haver pessoas contra o progresso?
Façamos com que essas vozes anti-progressistas e reaccionárias sejam só fumaça, como a que sai da chaminé desta locomotiva! P'rá frente é que é!

12/14/2005

Resultados finais sem totalidade de dados

Num exame que uma vez me calhou vigiar numa escola de Contabilidade, um aluno pediu-me a certa altura para chamar um professor da cadeira. Segundo ele, na questão 3 do ponto faltavam dados, pelo que não conseguia chegar à solução. Chamei de pronto o regente da cadeira, que olhou para o ponto e, depois de um minuto de reflexão, disse: "Você tem razão. Faltam aqui pelo menos umas duas linhas, que quem passou o ponto terá inadvertidamente saltado. Agradeço-lhe o reparo." Terá ido depois às várias salas onde o exame se estava a realizar e, no quadro, escreveu, com as suas desculpas, as linhas em falta. De facto, admitiu que não se podia chegar a resultados concretos sem possuir aqueles dados.
Vejo agora que professores deste género não estão no governo. Se estivessem, só por "artes mágicas de político" conseguiriam saber, já, que o preço final dos bilhetes do TGV iria em 2015 ficar em cerca de 80 euros no trajecto Lisboa-Porto, que o número de empregos (temporários) que se vão criar é da ordem das muitas dezenas de milhar e que o custo final de todo o processo de construção da via, carruagens, etc. é de 4,7 mil milhões de euros. É que, segundo os media, o governo ainda não decidiu se a entrada em Lisboa será feita pelo norte se pelo sul. Outra incógnita diz respeito às estações que vão servir a linha de alta velocidade. Daqui depende, obviamente, a articulação a fazer com a rede convencional. Também não se sabe como vai ser desenhado o modelo de financiamento,o qual tem evidentes reflexos no custo. Igualmente se desconhece se a terceira ponte de Lisboa sobre o Tejo (Chelas-Barreiro) irá ser só ferroviária ou servirá simultaneamente o trânsito automóvel. Enfim, ninharias... para mágicos. Gostaria apenas de saber se os membros do governo tomariam decisões deste tipo se o dinheiro saísse do seu próprio bolso, em vez de do bolso dos contribuintes.
Duas notas, a findar. A primeira é sobre o impacte previsto do TGV sobre o avião nas ligações Lisboa-Porto-Lisboa. O avião é clarissimamente perdedor, o que naturalmente deveria ser um ponto importante a favor da manutenção do aeroporto na Portela. Mas não é. E não é porque o outro assunto está arrumado. Magister dixit. O país é o mesmo, o pagante é o mesmo, mas o novo aeroporto de Lisboa na Ota nada tem a ver com o TGV.
A segunda: lembram-se das realidades virtuais que foram programadas para a gigantesca barragem do Alqueva? Comparem-nas com as realidades actuais.

12/12/2005

Harold Pinter

Embora, por razões literárias e sentimentais, eu tenha apreciado mais a alocução proferida por Saramago aquando da cerimónia de entrega do Prémio Nobel de Literatura em 1998, não posso deixar de chamar a atenção aqui neste blog para o texto muito interessante, tanto do ponto de vista literário como político, que Harold Pinter enviou há dias para idêntica cerimónia em Estocolmo. Questionando-se sobre a natureza da verdade e a distinção entre o verdadeiro e o falso, Pinter descreve o processo criativo de algumas das suas peças de teatro e passa depois, como cidadão, a abordar a grande mentira: o posicionamento dos Estados Unidos nas últimas décadas. Considera a política dos Estados Unidos um perigoso mas inteligente bluff à escala global, que embora não seja tradicionalmente comparada às criminosas políticas soviéticas, essas sim, muito badaladas, não lhes fica atrás em real sofrimento para a humanidade. Cita um Pablo Neruda denunciante literário de bombardeamento de civis como Picasso fez pictoricamente com Guernica. Diz, quase no final: "Quando olhamos para um espelho, pensamos que a imagem que se nos depara é exacta. Contudo, se nos movermos um milímetro, a imagem muda. Estamos na realidade a olhar para uma série infinita de visões reflectidas. O escritor tem por vezes necessidade de quebrar o espelho - pois é do outro lado desse espelho que a verdade nos contempla."
Para quem estiver interessado, o http://www.swedishacademy.org contém a versão integral (nove páginas). No dia em que Bush fala da necessidade de prosseguir a implantação da democracia no Iraque, ao mesmo tempo que refere os 2040 americanos mortos no conflito e os 30000 civis iraquianos que já perderam a vida, este discurso é uma leitura muito a propósito.

12/10/2005

Ética e Sobrevivência

Em meados de Novembro, coloquei aqui um texto a que dei o título de "Contradições". Tratava de casos de aparente falta de ética. No seu comentário, M. Tulipa chamou-me a atenção para um facto: quando se trata de sobrevivência, o nosso instinto animal pode mandar mais do que a razão e redundar em puro egoísmo social. Gostei de ler o comentário e felicitei a sua autora. Permito-me prosseguir o (perigoso) curso desse pensamento.
Todos conhecemos cães fidelíssimos, nossos amigos, que nos acompanham por todo o lado, obedecem ao nosso chamamento e abanam a cauda em sinal de satisfação sempre que nos vêem. Somos os seus donos, tratamos bem deles, afeiçoaram-se a nós. Se, porém, colocarmos a nossa mão no prato em que eles estão a comer, rosnarão imediatamente. Ameaçadoramente. Poderão mesmo morder-nos. Porque se viram os cães contra nós? Porque estamos a ameaçar a sua sobrevivência.
Quando, há umas semanas, a conflitualidade social rebentou em França com extraordinária força, houve naturalmente quem se perguntasse: "Porquê agora?" Bem, em grande medida porque Sarkozy tinha nas semanas anteriores lançado acções policiais sobre gangs que operavam naqueles bairros. O ministro causou situações de ruptura no abastecimento de droga e de contrabando. Ameaçou a sobrevivência de cabecilhas e de todos os que satelizavam o seu mundo. O conflito estoirou. (Terá depois passado para outros bairros e para outras cidades, numa compita, ainda por cima mostrada na TV, "a ver quem faz pior".)
Não se peça a todas as famílias deste país, desde sempre honestas e bem comportadas, que se portem da mesma maneira quando se vêem confrontadas pelo desemprego, pelo despejo da casa, pelo futuro sem rosto que assoma à sua frente. É a sua sobrevivência que está em jogo. Se a sociedade os despreza e lança na valeta, para quê e porquê respeitar os valores éticos que aprenderam e sempre cultivaram, pensarão vários indivíduos. A criminalidade tende a aumentar como puro reflexo da conflitualidade social. Às vezes ocorre-me uma visita à América Latina do Papa João XXIII, em que ele, de forma politicamente incorrecta, admitiu o recurso à violência quando não haja outras maneiras de resolver questões de justiça social. "Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém considera violentas as margens que o apertam", lembrou Bertolt Brecht.
Os ricos que cuidem dos pobres para que não sejam estes a cuidar deles.

12/08/2005

O canto da cigarra

Caro António:
Sei que existem padrões laborais à luz dos quais trabalhar 50 ou 60 horas por semana é considerado coisa normal. São sem dúvida, também por essa razão (mas não só), padrões mais empreendedores do que o da função pública. Aproveito para lhe dizer que tenho alguns colegas que trabalham por sistema muito mais do que as famigeradas 35 horas semanais. Ninguém os obriga a tal, são simplesmente «workoholics»... Eu, que sou muito mais contemplativa do que empreendedora (coisas do temperamento!), trabalho sensivelmente as 35 horas, por vezes menos, por vezes bastante mais (esta semana e a próxima, por exemplo, em que tenho as provas de Filosofia de 4 turmas para corrigir, além das aulas para preparar). Mas de facto não me sinto nada motivada para dilatar o meu horário laboral e estou genuinamente persuadida de que a hipótese de vir a trabalhar mais horas, sobretudo no «minimalista» espaço físico da minha escola da era do achaque tecnológico (e não é, nem de longe nem de perto, das piores!), não fará de mim uma professora substantivamente melhor. O luxo supremo, na minha contemplativa (talvez demasiado aristocrática...) bitola, chama-se TEMPO - trocaria de bom grado dinheiro por tempo. Por exemplo, tento sempre (por acaso este ano sem sucesso mas com a correspondente compensação venal) furtar-me à obrigação de fazer horas extraordinárias.
Como vê, aquilo que nos separa é muito mais do que a diferença, admito que abissal, entre as respectivas realidades laborais... É toda uma concepção de vida que está em jogo - cigarras versus formigas! Mas eu, cigarra intempestiva destes anos de apocalipse anunciado, procuro ainda assim interagir honestamente com as laboriosas formiguinhas, suando de facto (não apenas picando o ponto nas aparências) o suficiente para obter resultados que me colocam por vezes, na linha de chegada, à frente das formigas (que as há também, insisto, na escola pública).
Além disso, dado o meu relativo desprendimento no que toca a retribuições materiais, não me importo nada de auferir um ordenado com certeza muito inferior, apesar de já me encontrar no topo da carreira, aos de boa parte da «legião de quadros voluntaristas» a que se refere. Sem pôr em dúvida o sentido de responsabilidade ou o amor «à camisola» desses quadros, imagino que eles não serão completamente imunes à força atractora do vil metal (eu, displicente cigarrinha, não o seria se estivessem em jogo determinadas remunerações estratosféricas ou mesmo só a expectativa realista de recebê-las no futuro).
Decerto já percebeu, neste ponto da nossa conversa, que não é o meu doloroso caso pessoal (as cigarras não cultivam chagas) que me anima a responder-lhe. Convenhamos que ele não é assim tão doloroso - jogo por natureza bem à defesa e, além do mais, nesta fase já adiantada do meu campeonato, tenho o usufruto (parcimonioso!) do posto que a antiguidade dá. É o meu tenaz, talvez um tanto obsessivo, fraquinho pela coerência (valor tão degradado, ultimamente, pela tutela da Educação) que me anima a exibir na blogosfera a minha politicamente incorrecta alma de cigarra até hoje tão cuidadosamente «encapuchada». Que pensa o António da condição laboral da «legião» (também ela em grande parte esforçada) de colegas meus - sem vínculo estável ao sistema de ensino e com fraquíssimas expectativas de o obterem - que por mês recebem, ilíquidos, 1058,60 (os licenciados tout court) ou 1268,64 (os profissionalizados) euros? Muitos deles condenados a fazer uma pipa de quilómetros casa/escola, nisso «investindo», sem recurso a qualquer subsídio mitigador, boa fatia do seu ordenado! Acha sensato que se lhes peça que trabalhem mais de 35 horas semanais?! Assumo que concordará que esta questão não é apenas de direito(s) mas sobretudo, flagrantemente, de justiça (comparativa e absoluta). Ou, se preferir, uma básica questão de moral.
E, para terminar, permita - ainda em abono da coerência (o que me torna, pensando bem, uma cigarra um bocadinho atípica) - que tire algumas singelas ilações de uma notícia ainda fresca: provavelmente vão acabar os exames nacionais de Português (no 12º ano) e Filosofia (no 11º ano). O de Filosofia, aliás, não chegou sequer a começar.
Sem me deter nos pressupostos economicistas de mais esta opção da tutela (trata-se de exames obrigatoriamente feitos pela totalidade dos alunos do secundário, sendo curial inferir que a sua extinção, além de cativar politicamente muitos encarregados de educação, permite ao Estado poupar umas valentes massas), desejo confessar o seguinte a todas as formigas deste país:
Os impostos que vocês pagam para sustentar o meu dolce far35 em nada contribuem para a certificação da putativa qualidade do meu desempenho. Aqui declaro solenemente que nunca fui objecto, tirando o episódio do estágio, de qualquer tipo de avaliação externa (a interna, poupo-vos os pormenores obscenos, tem sido uma anedota). Se, por mero acaso, alguma valia tenho como docente, isso deve-se acima de tudo à excelência de alguns colegas e alunos com quem me cruzei, talvez ligeiramente ao parco talento dispensado pelo meu modesto ADN. Também terá contribuído alguma coisa a vergonha na cara incutida pela educação que recebi...
Numa palavra, vocês têm passado, e vão continuar a passar, cheques em branco a esta cigarra que se assina Capuchinho! Ainda por cima uma cigarra das bandas da Filosofia, cujos alunos nunca foram (e tudo indica que nunca serão) submetidos a exame nacional! Concluindo: o Ministério da Educação, ao pretender eliminar um instrumento crucial de avaliação externa (ainda que indirecta) do meu desempenho, prepara-se para matar no ovo a única boa oportunidade de vocês, caras formigas, poderem finalmente, como é vosso direito inalienável, pedir-me contas. Enfim, malhas que o «eduquês» tece...

12/05/2005

Comentando um comentário...

...do António.
Vou cingir-me ao universo cujos meandros conheço bem - o do ensino ensino secundário.
1- A sua componente lectiva sem reduções traduz-se numa carga horária de 20 horas semanais, podendo esta carga emagrecer, em virtude do desgaste que leccionar provoca, até às 12 horas. O desvio relativamente às 35 horas que um funcionário público trabalha por semana corresponde justamente às 15 horas que, na minha opinião, devem na totalidade ser agregadas à componente não lectiva individual, abusivamente considerada tempo livre. Acho ainda que a componente não lectiva dada à escola deve integrar apenas as diversas tarefas «volantes» não registadas no horáro dos docentes (por exemplo, reuniões), as quais, naturalmente, não devem em circunstância alguma beliscar o calendário lectivo propriamente dito, sobrepondo-se-lhe. A especificidade associada à componente lectiva da docência manifesta-se, entre outras coisas, na flagrante diferença entre uma hora de trabalho burocrático e o mesmo tempo passado dentro de uma sala de aula com 26/28 alunos por norma indisciplinados - sei do que falo, pois fui funcionária pública durante alguns anos.
2- Mas concedo que o tempo liberto pela redução da componente lectiva deva estar ao serviço da componente não lectiva dada à escola. A minha carga horária lectiva encontra-se actualmente reduzida a 14 horas e era apenas esse o tempo, quando não havia também reuniões, que eu passava na escola há um ano atrás, antes da revolução burocrática em curso. Assim, acho absolutamente justo dar à escola as 6 horas de redução a que por lei tenho direito. Mas de facto passo, além dessas 6, mais 5 horas por semana na escola - sem outro «benefício», juro, além do dano que isso repercute na qualidade do meu trabalho em casa. Acrescente-se, em abono da verdade, que não me importaria nada de passar 35 horas por semana numa escola que me proporcionasse metade das condições de trabalho de que disponho em casa. Sem contar com o dinheiro que pouparia em livros, papel, tinteiros de impressora e outros recursos...
3- Acresce que, mesmo trabalhando apenas 35 horas por semana (as 14 da componente lectiva + as 6 da componente não lectiva que acho justo dar à escola + as 15 por cuja gestão responderia individualmente), trabalharia decerto sempre mais do que o funcionário público em que a tutela tenciona converter-me. A unidade de tempo lectivo, mesmo com o prazer que dar aulas proporciona, é muito mais desgastante, insisto, do que a equivalente burocrática. Aceito que seja normal o esforço de actualização de conhecimentos exceder a órbita das 35 horas. O que já não me parece tão normal é que, somado às horas que tenho de estar na escola, o tempo dispendido, entre mais tarefas, a preparar/planificar aulas, a elaborar testes e outros materiais, a corrigir testes e restantes trabalhos dos alunos, extravase frequentemente a referida órbita, comprometendo com frequência a disponibilidade - objectiva e subjectiva - para pôr em prática essa actualização! E já que se chama à liça o exemplo de médicos, advogados, mecânicos e carpinteiros, convém não esquecer que se trata de profissões: cujo horário de trabalho, em grande parte flexível, não é honestamente comparável à rigidez total do meu; cujo esforço de actualização pode em muitos casos coabitar com o horário «formal» de trabalho, ao passo que eu sou obrigada a actualizar-me (basicamente lendo) fora da escola - a natureza das minhas tarefas e as condições medíocres que as escolas portuguesas proporcionam não toleram outra opção.
4- Quanto à disponibilidade dos professores (pelos vistos, um privilégio) para frequentarem livrarias entre as 9 e as 18 horas, ela decorre tão só do facto de em muitas escolas a mancha horária da componente lectiva se distribuir variavelmente por 2 turnos: diurno (8 a 10 horas) e nocturno (6 horas). Começo, muito sinceramente, a ter inveja de quem, como os funcionários públicos e certos livreiros, trabalha 8 horas por dia - com o pormenor aliciante de não levarem, a não ser excepcionalmente, trabalho para casa!
5- Aproveito para eslarecer que me repugna um sistema de ensino centrado, como o nosso, no aluno. Reflecte, no seu populismo, prioridades bem típicas do estilo cunhado «eduquês» e é largamente responsável pelo actual insucesso escolar. Aluno e professor são duas faces da mesma dialéctica moeda - a degradação de um infecta irremediavelmente o outro. O único referencial legítimo de qualquer sistema de ensino é, penso eu, precisamente o ensino. Apenas a sua qualidade, desígnio verdadeiramente nacional, deve nortear as opções estratégicas da tutela, não os interesses particulares de professores, alunos ou encarregados de educação! Mas também não será grande pecado, julgo, ter e defender interesses particulares, dos professores ou outros, desde que compatíveis com o superior interesse público. E não é ferindo arbitrariamente o interesse dos docentes (executando cegamente escolhas por sinal correctas no essencial) que a Ministra da Educação vai conseguir melhorar a qualidade do ensino. Apenas vai conseguir com isso o que já conseguiu em parte: desmotivar e deprimir. Ora - e aqui atingimos o coração do problema - um bom professor desmotivado e deprimido é uma contradição nos termos, mesmo que o obriguem a passar 35 horas na escola! Os medianos, bons ou excelentes professores sentir-se-ão, em grau variável, acossados e isso reflectir-se-á negativamente no seu desempenho; os medíocres ou maus continuarão impunemente, «motivados» pela inoperância cúmplice da tutela, a fazer a greve de zelo que sempre fizeram.
6- Haja moralidade... mas que não paguem todos! Não é burocratizando indiscriminadamente heróis e vilões que o Ministério da Educação vai conseguir inflectir o desempenho dos docentes prevaricadores. O facto de passarem a «picar o ponto» não os impedirá, garanto, de continuar a prevaricar! E o «nivelamento por baixo» do corpo docente, seguramente um dos cancros que corrói as nossas escolas, tornar-se-á ainda mais rasteiro. Acontece que os decretos são necessários mas não suficientes para fabricar bons professores...
Que fazer? Para mim a resposta é obvia: promover, a montante de qualquer outra medida, uma credível avaliação externa do desempenho dos docentes e disso extrair corajosamente as dolorosas consequências práticas (que vão onerar, hélas, os cofres do Estado). Mas isso é outra conversa e esta já vai demasiado longa.

Números mágicos

Quer queiramos quer não, temos a cabeça formatada no sistema decimal. Tudo o que cheire a 10, ½ de 10, 10 x 10, ¼ de 10 x 10, ½ de 10 x 10, ou número relacionado com múltiplo de 10 é objecto de um determinado tipo de celebração.
Há dias, um velho amigo meu fez oitenta anos. Telefonei-lhe a dar-lhe os parabéns. Recordou-me, orgulhosamente, que tinha trabalhado como professor exactamente 50 anos. Número mágico.
Os casais celebram os seus 25 anos de casamento, 50 e 75, que são respectivamente as bodas de prata, ouro e diamante. Ninguém pensa em 100 anos neste caso, por razões que se entendem. A conotação diamantina colou-se aos 75. (É possível que hoje em dia já se estejam já a festejar os primeiros 5 anos.)
Um desportista que comemore o seu 100º jogo como profissional, a sua 100ª vitória, o seu 100º golo, a sua 100ª taça, a sua 100ª internacionalização, faz disso uma celebração especial.
Indivíduos ricos são considerados milionários quando possuem activos em carteira no valor de um milhão de dólares.
Também o sucesso de discos e outras obras se ordena por classificações baseadas em dez, de que se popularizou a fórmula Top Ten.
Duas notícias recentes mostraram como a opinião pública reage mais acaloradamente quando números deste tipo são atingidos. Os Estados Unidos -- país em que tradicionalmente se quantificam as coisas o mais possível, o que em certa medida é de aplaudir -- registaram nos últimos tempos dois destes números mágicos. O primeiro foi o número de 2 mil mortos nas forças americanas em guerra no Iraque. A popularidade do governo americano desceu significativamente e levou ao anúncio de retirada de tropas mais cedo do que se esperava. O segundo foi o de 1000 execuções desde que a condenação à morte foi restaurada nos EUA (em 38 dos 50 estados), há 29 anos. Dos números complementares, é de salientar que só um estado -- o petrolífero e bushiano Texas -- contribuiu com 355 (o segundo, a Virgínia, ajudou à festa com 94). São dados que impressionam.
Gostaria basicamente de chamar a atenção para estas duas últimas notícias. O resto pode ser visto como mera conversa introdutória.

12/03/2005

VERGONHA

No domingo passado, a conversa amena que eu estava a ter com um amigo não-citadino que há anos não via enveredou a certa altura para um tema clássico: desonestidades praticadas por certas pessoas. Foi então que o ouvi relembrar um provérbio, que eu não conhecia de todo. Para mim, foi a frase da semana:
"A vergonha é como a virgindade. Perdê-la uma vez é perdê-la para sempre."
Anotei.