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4/19/2008

Língua inglesa - Uso e tradução de verbos com preposição

Como todos sabemos por experiência própria, as línguas estrangeiras possuem pontos de vista diversos relativamente às coisas - o que se traduz no vocabulário, especialmente nos substantivos -, maneiras que nos são estranhas de considerar o tempo ou o espaço - algo que as preposições expressam -, e formas que não são iguais às nossas para falar do tempo passado, presente e futuro, aquilo que os verbos com os seus diferentes "tempos" fazem melhor.
A língua inglesa apresenta-se aos olhos e ouvidos de um português com uma característica especial, sobre a qual nos vamos debruçar um pouco: verbos seguidos de preposições. Nesta designação cabem verbos do tipo bring up, bring about, put off - que são às centenas mas que por ora vamos deixar de fora - e outros ainda, que iremos abordar a seguir. Estes são verbos que, se ouvidos ou lidos, são relativamente fáceis de entender mas, e este é o ponto principal, mais difíceis de traduzir (e às vezes é necessário traduzi-los).
Imagine-se pedindo a um português seu conhecido, com conhecimentos razoáveis de inglês, para dizer in English algo como "atravessámos a rua a correr". Previsivelmente, o indivíduo em questão dirá we crossed the street running. Na realidade, ele estará a traduzir a frase bloco por bloco em vez de traduzir a ideia da forma que ela se apresenta normalmente na língua inglesa: we ran across the street. Da mesma forma, "ela saiu da sala a correr" será she ran out of the room. Há claramente uma maneira diferente da nossa de expressar a ideia. O que se nota é que a forma adverbial "a correr" não é expressa em inglês por um advérbio mas sim pelo verbo. Notamos ainda que tanto a ideia de "atravessar" como a de "sair" são expressas em inglês por uma preposição (across e out). Temos a chave. Dado que este processo estrutural é muito comum em inglês, é fundamental que quem esteja a aprender a língua o domine. Com isso, resolverá muitos problemas de tradução para português - frases que parecem evidentes mas depois não se sabe bem como traduzir e anda-se para ali às voltas sem saber bem onde lhe pegar. Como o tempo é dinheiro...
Pensemos então na chave básica: o verbo inglês expressa aquilo que em português é normalmente um advérbio; a preposição inglesa dá-nos a ideia do verbo português.
Vejamos alguns outros exemplos para compreendermos melhor e notemos simultaneamente que a frase portuguesa só excepcionalmente será mais curta que a inglesa; tende mesmo a ser mais longa (a já aludida diferença noutros posts entre línguas sintéticas e analíticas):

1. He was bailed out. – (sabemos que bail é fiança e que to bail é afiançar; tomamos a preposição out como o verbo português, enquanto o verbo inglês será a nossa "maneira como", i.e. o advérbio). Assim, teremos: Ele foi libertado mediante o pagamento de uma fiança.
2. Dogs sniff out the foxes. – Os cães, graças ao seu faro, fazem as raposas sair das tocas.
3. Compare-se com the dogs dig the foxes out – Os cães põem-se a escavar junto às tocas e fazem as raposas sair cá para fora.
4. The game was rained off. – O jogo foi adiado devido à chuva. (a preposição off que conhecemos de to put off - "adiar", funciona como verbo português, enquanto o verbo inglês to rain nos diz porquê - a noção adverbial).
5. Lisbon trams are being phased out. - Os eléctricos de Lisboa estão a desaparecer gradualmente (por fases).
6. During the Spanish war, many tons of coffee were smuggled out of Portugal. (sabendo que smuggle é contrabando, é fácil começar pela preposição e depois pegar no verbo inglês como advérbio) – Durante a guerra de Espanha, houve muitas toneladas de café que saíram de Portugal por meio de contrabando.

É claro que ao aplicarmos esta técnica na tradução de inglês para português, por exemplo num artigo de jornal ou num livro, estamos simultaneamente a alimentar o nosso cérebro com a forma inglesa, pelo que depois, ao falarmos ou escrevermos esta língua, teremos a saudável tendência para estruturarmos as frases à correcta maneira inglesa.

Alguns exemplos mais, só para prática:

1. In China, at least 86 casinos have been forced out of business.
2. The police clubbed the insurgents down.
3. The former Prime Minister was gunned down.
4. Most analysts rule out an abrupt about-face in Brasília.
5. Stock-market investors dip in and dip out.

Faço notar que nunca vi este tema abordado em nenhum livro ou artigo. Contudo, ele é de grande utilidade, facilita o trabalho do tradutor e, ao mesmo tempo, abre outras portas.

12/10/2007

Sobre a aprendizagem de línguas

"O síndroma do –s" (02/12) gerou algumas perguntas, a que tentarei dar resposta. Além dos comentários registados, recebi algumas questões que me foram colocadas por e-mail. Na suposição de que determinadas perguntas carecem de uma resposta que será eventualmente de interesse para mais leitores, permito-me responder com novo texto nesta parte principal do blog. Fica combinado que (1) voltarei ao síndroma do -s devido à questão do apóstrofo, (2) tratarei noutro post o assunto do a ou an em inglês antes de substantivo e, já a seguir, tentarei responder a uma questão mais genérica que me foi colocada por M. Alfacinha: porque é que, embora conheçamos as regras de uma língua estrangeira, continuamos por vezes a cometer erros?

Todos sabemos que ensinar e aprender estão, pelo menos em princípio, intimamente ligados. A aprendizagem da língua materna é uma das primeiras actividades humanas. O ensino faz-se, regra geral, de pais para filhos. Mãe, pai, avós & Cª são exímios a ensinar e têm nos bebés atentos alunos, conquanto eles pareçam por vezes algo distraídos. Porque as crianças de berço nada sabem, os ensinantes martelam as palavras, como se estivessem a martelar as teclas de um piano. É uma técnica universal. Repetem as sílabas para que as palavras encaixem melhor no cérebro que se está a desenvolver. É dessas repetições que vem a palavra bebé, conjuntamente com mamã, papá, xixi, cocó, papa, teté, popó, e até o tau-tau. A criança vai absorvendo. Um dia acabará por substituir essas palavras por outras mais adultas, mas reservá-las-á no seu cérebro para falar mais tarde com os seus próprios filhos. Os exemplos acima são de substantivos, uma das partes mais simples da língua. Porém, quando uma criancinha começa a ter de construir frases, o caso muda de figura e torna-se mais complexo. A diferença nos verbos entre passado, presente e futuro implica desde logo a assimilação da noção de tempo, algo que não é intuitivo mas que a criança vai assimilando. Na realidade, vai assimilando tão bem que, pouco a pouco, vai apreendendo e construindo para si própria as regras básicas da (sua) língua. Os adultos vão continuando a falar com ela, e quanto mais o miúdo ou a miúda tiverem de compreender, tanto melhor se expressarão quando precisarem de o fazer. A criança criou, entretanto, o seu software linguístico baseado nos padrões de regularidade que foi captando. Previsivelmente, a mesma criança claudicará nas excepções. E não são tão poucas como isso. Um adulto já há muito que passou essa fase porque esteve exposto à língua durante muito mais tempo. Porém, é normalíssimo e até saudável que uma criança se engane nos tempos verbais e diga posi em vez de pus, di em lugar de dei, ou fazi querendo dizer fiz. São coisas que geralmente provocam o riso dos adultos, mas que não são mais do que o reflexo da apreensão da base da língua (ele pôs, logo eu posi; se eu vi, eu di; ela faz, logo eu fazi). Na mesma linha, é natural que as crianças falem em cãos e não digam logo cães. Aprenderam a regra do padrão normal por si próprias, e é agora que vão começar a lidar com as excepções, o que levará o seu tempo.
Ora, na aprendizagem de uma língua estrangeira, uma criança, um adolescente ou um adulto já tem normalmente que contar com o seu próprio substrato linguístico, por si criado e profundamente enraizado. Vamos supor que a língua estrangeira é o inglês. Para aprender de cor expressões como good morning, good night, thank you, good-bye, ou substantivos como school, book, pen, pencil, ball e coisas simples como estas, a criança não necessita de criar outro software, embora entenda que se trata de uma língua diferente da sua. Contudo, quando precisar de usar adjectivos e substantivos, formas verbais ou construir frases negativas ou interrogativas, aí tem mesmo que criar outro software na sua cabeça. Se as novas estruturas lhe forem explicadas de forma simples, em processo gradual e dando-lhe a possibilidade de ela própria começar a aplicar os conceitos, aprenderá com relativa facilidade. E quanto a fazer erros? Recordemos os exemplos dados, reais, de eu posi, eu di, eu já fazi, e outros, que a criança nunca ouviu da boca de um adulto mas que criou à sua maneira, dentro da regularidade padrão que ela própria edificou. Na aprendizagem da língua estrangeira, vai suceder praticamente o mesmo, mas com comparações diferentes: quanto maior for a diferença entre a estrutura da sua língua materna e a do idioma que está a aprender, tanto menos fácil em princípio se torna a aprendizagem.
Paremos aqui um pouco para lembrar que lembrar que, em português, formação é um vocábulo simples, o que normalmente não sucede em inglês. Para este conceito de formação, o inglês usa education and training, o que nos dá uma chave importante. Tomemos education como a explicação teórica e training como a prática. Os dois aspectos completam-se entre si. Quem raramente pratica uma língua tem, logicamente, mais probabilidade de cometer erros. Porquê? Porque não criou as rotinas suficientes. A criação de rotinas é essencial para que, com uma boa base teórica, que estabeleça uma diferença facilmente compreensível entre os dois tipos de software linguístico, o aluno deixe de pensar tanto na forma do que diz e passe a falar ou a escrever com maior fluência. Daí que seja muitíssimo importante, por exemplo, que nas aulas de língua inglesa se use apenas o inglês como idioma, reservando eventualmente o português para o mero significado de um substantivo, adjectivo ou verbo.
Ao longo da minha vida profissional, encontrei alguns óptimos professores de língua inglesa. Para a esmagadora maioria daqueles com quem trabalhei, o inglês era a língua materna. Pessoalmente, aprendi muito com eles, mas também notei que precisavam frequentemente de saber como explicar a estudantes portugueses determinadas questões. Nenhum deles, porém, fazia erros do género de I didn’t knew it, ou It’s twenty miles far from Lisbon ou It’s a five-stars hotel. Por seu lado, os professores portugueses eram geralmente muito bons, sabiam explicar bem, mas podiam de vez em quando ter um slip of the tongue do género de Did he said that?. Acontece a todos. No passado também me aconteceu a mim. É gravíssimo? Não, a não ser que seja frequente. Aí será realmente preciso corrigir urgentemente. Sabe-se a explicação, mas ainda não se conseguiu a automatização total. Eu diria que com a prática muitos dos erros serão eliminados, porque a componente training é essencial. Para adolescentes (e não só), os filmes são um óptimo complemento de aprendizagem, assim como a leitura de peças de teatro modernas (com um diálogo natural e, ainda por cima, escrito) e a participação em programas de intercâmbio como o Erasmus.
Já agora, convém que quem se põe a aprender uma língua não tenha a aspiração de ser cem por cento perfeito. É uma atitude que tende a causar inibição. No fundo, é preferível cometer um deslize linguístico com um sorriso do que falar de forma gramaticalmente correcta com uma cara-de-pau.