9/13/2006

A escola e a sociedade

É inegável que a sociedade tem vindo a transformar-se. Deverá a escola acompanhar essa evolução ou manter-se aparte, interessada basicamente na transmissão do conhecimento? Quem manda diz que a escola tem de servir tanto as crianças como o nosso tipo de sociedade. Este tipo é o de uma sociedade de consumo. Para este consumo é necessário o esforço tanto do homem como da mulher (prestação da casa, a 30, 40 ou 50 anos; prestação do carro; viagens; educação competitiva; restaurantes; alimentação, vestuário, etc.). Se 50 por cento das mulheres passassem a ficar em casa para cuidar dos filhos apenas, a economia ressentir-se-ia fortemente. Em vista disso, a escola, que tem uma missão social, ajuda a sociedade e, coerentemente, os pais. Hoje em dia, quando a vida é já muito mais urbana do que rural, a escola mantém-se como centro de aprendizagem mas, em aditamento, transforma-se em depósito de filhos dos pais que trabalham.
Num texto que uma vez aqui coloquei, deixei registado que as minhas aulas da instrução primária eram diárias, mas só da parte da manhã. Apenas excepcionalmente poderíamos ir à tarde (aulas de desenho, se não me engano). No meu 1º ano de liceu, tive aulas privadas e só durante três dias na semana. No 2º ano tive aulas diárias, mas também sempre só numa parte do dia. Na continuação do liceu, tinha geralmente aulas apenas de manhã. Foi assim até ao 7º Ano. Não me recordo, por exemplo, de no D. João de Castro ter tido aulas da parte da tarde. Começava-se cedo, salvo erro às oito ou oito e meia, e ia-se até cerca da 1 hora. Depois, era tempo livre.
A alteração da sociedade está bem espelhada na disposição válida para o 1º ciclo (antiga instrução primária): as escolas têm de manter-se abertas pelo menos até às 17H30 e no mínimo oito horas diárias. Oito horas diárias é o período normal de um horário de trabalho. Aqui entronca também a necessidade de aulas de substituição, a fim de evitar os pontos mortos (como me lembro dos jogos feitos com uma bola-de-trapos comprada à pressa num primeiro andar em frente ao velho Passos Manuel e levada para um terreiro dentro das instalações da escola! Era o nosso aproveitamento da falta do professor, falta que naturalmente abençoávamos.)
Como a estabilidade é considerada um bem, haverá agora cerca de 160 mil docentes do básico e do secundário que vão ficar nos mesmos estabelecimentos de ensino por um período de três anos. Isto significa que quem perdeu o comboio vai poder tirar uma licenciatura-de-Bolonha neste meio-tempo. Os novos licenciados das ESE que entretanto sairão serão igualmente obrigados, na sua maioria, a fazer um compasso de espera.
Correctamente, haverá testes de aferição generalizados a toda a população escolar do 4º ano e do 6º. Só não se entende por que motivo esses testes não contam para efeitos de nota. Contarão para a avaliação dos professores?
A acompanhar a evolução da sociedade, fala-se actualmente em cursos de "educação e formação", o que corresponde, nominalmente, ao education and training anglo-saxónico. Trata-se de cursos de qualificação profissional, que são necessários e há muito vêm sendo recomendados pelo Banco Mundial.
O Ministério está a tentar arrepiar caminho. Não se notam actos de contrição, porém. Corporativamente, os professores ressentem-se. Definitivamente, os tempos não estão para flores.

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