3/26/2021

AS SUGESTÕES DO JOÃO MIGUEL

Sugestôes digitais

Das 10h do dia 25, às 23h59, do dia 28, (online) Botticelli – Inferno, de Ralph Loop

No Facebook do Âmbito Cultural de Lisboa do El Corte Inglés, quinta sessão de Música para aqui e agora (uma playlist escolhida e apresentada) por Martim Sousa Tavares (!) – Quatro Sinfonias do Século XIX, dirigidas por George Szell

Está disponível aqui a sessão do Curso Caminhos Cruzados (da Capela do Rato): Casas Pardas, de Maria Velho da Costa, por Isabel Allegro de Magalhães 

Está disponível aqui a sessão do ciclo Palavra Cruzada sobre o livro Cartas de Casanova, de António Mega Ferreira

O MET continua a disponibilizar todos os dias uma nova ópera (das 24h30 às 23h30 do dia seguinte; dito de outro modo: a ópera do dia n, está disponível durante o dia n+1). Temos:

Dia 25, Elektra, de Strauss, com Nina Stemme, Adrianne Pieczonka, Waltraud Meier e Eric Owens, Abril de 2016.

Dia 26, Idomeneo, de W. A. Mozart, com Hildegard Behrens, Ileana Cotrubas, Frederica von Stade, Luciano Pavarotti e John Alexander, Novembro de 1982.

Dia 27, Don Giovanni, de W. A. Mozart, com Renée Fleming, Solveig Kringelborn, Hei-Kyung Hong, Paul Groves, Bryn Terfel, Ferruccio Furlanetto e Sergei Koptchak, Outubro de 2000.

Dia 28, Der Fliegende Holländer, de R. Wagner, com Anja Kampe, Mihoko Fujimura, Sergey Skorokhodov, David Portillo, Evgeny Nikitin e Franz-Josef Selig, Março de 2020

Dia 29, Norma, de V. Bellini’s, com Sondra Radvanovsky, Joyce DiDonato, Joseph Calleja e Matthew Rose, Outubro de 2017.

Dia 30, Capriccio, de R. Strauss, com Renée Fleming, Sarah Connolly, Joseph Kaiser, Russell Braun, Morten Frank Larsen e Peter Rose, Abril de 2011.

Dia 31, Roberto Devereux, de G. Donizetti, com Sondra Radvanovsky, Elīna Garanča, Matthew Polenzani e Mariusz Kwiecień, Abril de 2016.

Dia 1, Il Trovatore, de G. Verdi, com Eva Marton, Dolora Zajick, Luciano Pavarotti, Sherrill Milnes e Jeffrey Wells, Outubro de 1988.

Dia 2, Werther, J. Massenet, com Lisette Oropesa, Sophie Koch, Jonas Kaufmann, David Bižić e Jonathan Summers, Março de 2013.

Dia 3, L’Elisir d’Amore, de G. Donizetti, com Anna Netrebko, Matthew Polenzani, Mariusz Kwiecień e Ambrogio Maestri, Outubro de 2012.

Dia 4, Tristan und Isolde, de Wagner, com Nina Stemme, Ekaterina Gubanova, Stuart Skelton, Evgeny Nikitin e René Pape, Outubro de 2016.

Sexta-feira, dia 26

às 9h01, na TV5, Paname - Autour de la rue Saint-Vincent (28’) 

às 18h00, no facebook do Museu da Farmácia, tertúlia: Exploradores e Literatura de Viagens, com Manuela Cantinho, Rogério Puga e João Neto

às 18h00, no facebook da Fundação Cupertino de Miranda, videoconferência celebração dos 120 anos do tríptico "A Vida: Esperança, Amor, Saudade", de António Carneiro, com Raquel Henriques da Silva, Laura Castro e António Tavares

às 19h00, no site da Gulbenkian, transmissão em diferido, da Sinfonia n.º 3 de Schumann, com a Orquestra Gulbenkian dirigida por Mihhail Gerts

às 20h00, na Mezzo live HD, Madama Butterfly, de G. Puccini (2019, Royal Opera House, maestro Antonio Pappano, encenação Moshe Leiser e Patrice Caurier; elenco: Ermonela Jaho (Cio-Cio-San), Marcelo Puente (Pinkerton), Scott Hendricks (Sharpless), Carlo Bosi (Goro), Elizabeth DeShong (Suzuki), Jeremy White (Bonze), Emily Edmonds (Kate Pinkerton); 137’)

às 20h42, na RTP2, Conspirações por Decifrar (episódio 1/10)

às 24h00, na RTP Memória, Palmira Bastos - Uma Vida no Teatro

às 24h30, na Mezzo, Jamie Cullum – Lotos Jazz Festival (80’)

Sábado, dia 27

às 12h00, na Antena 2, Musica Aeterna - Comemorando o Dia Mundial da Poesia, a recitação de textos e aforismos de Ovídio, Homero, Dante, Ronsard, Aristóteles, Goethe, Voltaire, Camões e Didero, por João Chambers

às 14h00, na Antena 2, O Tempo e a Música, Vozes Negras no Canto Lírico: Leontyne Price (I), por Rui Vieira Nery

às 14h59, na RTP2, Rugby - Qualificação Mundial 2023: Portugal x Espanha

às 15h01, na TV5, Tendance XXI - Best of cuir (magazine; 27’)

às 16h00, na RTP Palco, Conversas com História: Raquel Varela entrevista António José de Barros Veloso

às 16h00, no Facebook da Casa da Música, Concerto de Órgão (J.S. Bach, C. Franck e L. Janácek), por Jonathan Ayerst

às 19h59, na RTP2, João Villaret - O Domador da Voz

às 20h00, na RTP3, GPS, com Fareed Zakaria da CNN.

às 25h00, os relógios adiantam 1 hora (passarão a ser 26h00)

às 26h45, na RTP1, Ascensão e Queda: Os Momentos Decisivos da II Guerra Mundial (outra fonte indicava um horário mais tardio)

Domingo, dia 28

às 4h05, na ARTE, Vincent Peirani - Le nouveau souffle du jazz

às 5h00, na ARTE, Rubens l'Européen (52’)

às 10h00, na Antena 2, O Mundo à Minha Procura - Atravessar o abismo: Francesco Tristano, por Martim Sousa Tavares

às 10h10, na TSF, Encontros com o Património: Os Moliceiros

às 10h10, na ARTE, Twist: Sous l’eau - L’art en immersion !

às 11h00, na Antena 2, O Tempo e a Música, Vozes Negras no Canto Lírico: Leontyne Price (II), por Rui Vieira Nery

às 15h02, na TV5, #versionfrançaise - Cité du vin Bordeaux/Bijoux Élise Tsikis/Laine Lafond-Puyo (magazine; 27’)

às 16h05, na TV5, 300 millions de critiques (52’) 

às 17h00, na ARTE, Ernst Ludwig Kirchner - Génie controversé de l’expressionnisme (52’)

às 17h00, no Facebook da Casa da Música, Miles Ahead, com Gileno Santana (trompete) e a Orquestra Jazz de Matosinhos

às 18h00, na RTP2, Belgravia

às 18h00, no Facebook do Museu Rafael Bordalo Pinheiro, palestra do ciclo O Humor em Bordalo: Ter Razão e ter Graça, para uma gramática do humor em Rafael Bordalo Pinheiro, por João Alpuim Botelho

às 18h00, online, Celebrar Bottesini e Saint-Säens, com Rui Cristão (violino), Ana Elisa Ribeiro (violino), Jeanne Antoniuk (viola), Tiago Ribeiro (violoncelo) e Francisco Viana (contrabaixo), Solistas da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras

às 19h35, na RTP2, A Vida Breve de António Fragoso

às 22h00, na Antena 2, Caleidoscópio – O Último Século: Gubaidolina e Eötvos, por Henrique Silveira

às 22h30, na RTP Memória, Iniciação Carnal, de Mike Nichols

às 23h00, na ARTE, Le catalogue Goering - Une collection d'art et de sang (90’)

às 23h10, na RTP2, Maria João Pires com Orquestra Gulbenkian

às 24h35, na ARTE, Astor Piazzolla, tango nuevo

às 25h00, na Mezzo live HD, Les Siècles et François-Xavier Roth : Berlioz à la Philharmonie de Paris (91’)

às 26h30, na ARTE, Messe pour la paix, de Karl Jenkins

Segunda-feira, dia 29

às 8h32, na TV5, Paname - Autour de la rue Saint-Vincent (28’) 

às 11h31, na TV5, Orsay, les grandes métamorphoses (52’) 

às 13h13, na RTP Memória, Vieira da Silva - A Memória do Mundo

às 17h00, na Antena 2, O Mundo à Minha Procura - Atravessar o abismo: Francesco Tristano, por Martim Sousa Tavares

às 20h25, na RTP2, Conspirações por Decifrar (episódio 2/10)

às 22h55, na RTP2, Visita Guiada

às 23h10, na TSF, Encontros com o Património: Os Moliceiros

Terça-feira, dia 30

às 10h30 (repete às 16h30), na Antena 2, Da Costela de Adão: Clotilde Rosa, por Paula Castelar

às 13h30, na Mezzo, Lionel Meunier et Vox Luminis: Haendel (inclui a ode a Santa Cecília) (110’)

às 17h41, na TV5, Décolonisations, du sang et des larmes - La fracture (1931-1954) (82’) 

às 18h00, na RTP Palco, Palavra Cruzada: Helena Vasconcelos conversa com Ana Margarida de Carvalho

às 19h00, no site da Gulbenkian, transmissão da Paixão Segundo São Mateus, de J.S. Bach, com o Coro e a Orquestra Gulbenkian, dirigidos por Michel Corboz

às 20h30, na RTP2, Conspirações por Decifrar (episódio 3/10)

às 23h00, na RTP3, Tudo é Economia

Quarta-feira, dia 31

às 13h00, na Antena 2, Caleidoscópio – O Último Século: Gubaidolina e Eötvos, por Henrique Silveira

às 13h00, na TV5, La maison France 5 - Penne d'Agenais (90’)

às 16h30, na Mezzo, Les Siècles et François-Xavier Roth : Berlioz à la Philharmonie de Paris (91’)

às 18h00, conferência do ciclo Portugal sob o signo das pandemias - História e Artes: Pandemia, emoções e literatura, com Júlio Machado Vaz, Bruno Vieira Amaral e Lídia Jorge (em directo via zoom, depois no Youtube da Academia das Ciências)

às 19h58, na TV5, Des racines & des ailes: Terres de Bretagne, du pays rennais à la presqu´île de Crozon (115’)

às 20h30, na RTP2, Conspirações por Decifrar (episódio 4/10)

às 26h15, na ARTE, Twist: La diversité nourrit la culture ! Comment lutter contre le racisme

Quinta-feira, dia 1

às 11h20, na ARTE, Des monuments et des hommes: La cathédrale de Chartres (26’)

às 14h00, na RTP Memória, Mário Viegas... e Tudo

às 14h25, na Mezzo live HD, Les Siècles et François-Xavier Roth : Berlioz à la Philharmonie de Paris (91’)

às 16h30, na Mezzo, Raphaël Pichon dirige la Passion selon Saint Matthieu de Bach (172’; Versailles; 2016)

às 19h30, na Mezzo, Jazz legends – Lionel Hampton

às 20h30, na RTP2, Conspirações por Decifrar (episódio 5/10)

às 24h26, na TV5, 300 millions de critiques (52’) 

às 25h18, na TV5, Décolonisations, du sang et des larmes - La fracture (1931-1954) (82’) 

às 25h45, na Mezzo, Jamie Cullum – Lotos Jazz Festival (80’)

A seguir:

Dia 2, às 9h00, na Mezzo, Jazz legends – Lionel Hampton

Dia 2, às 10h00, no facebook do Município de Oeiras, Culto - nono episódio: Diogo Dória diz Mário Cesariny, Rui Cinatti, Ricardo Reis e Carlos de Oliveira e João Fiadeiro revisita uma criação sua

Dia 2, às 14h00, na RTP Memória, Manoel de Oliveira, o Arquitecto

Dia 2, às 16h05, na ARTE, Invitation au voyageL’Algarve de Lídia Jorge / Turquie / Sénégal / Bois de Vincennes

Dia 2, às 18h00, online, Concerto de Páscoa (J. Haydn e G. F. Handel), com João Fatela (barítono), Coro de Câmara do Instituto Gregoriano de Lisboa e a Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, dirigida por Nikolay Lalov

Dia 2, às 19h30, na Mezzo, Raphaël Pichon dirige la Passion selon Saint Matthieu de Bach (172’; Versailles; 2016)

Dia 2, às 20h30, na RTP2, Conspirações por Decifrar (episódio 6/10)

Dia 2, às 23h00, na ARTE, L’art de peindre la nuit

Dia 2, às 23h55, na ARTE, La Passione - Bach par Castellucci

Dia 3, às 12h59, na TV5, Des racines & des ailes: Terres de Bretagne, du pays rennais à la presqu´île de Crozon (115’)

MIUDAGEM

Sábado, dia 27

às 11h00, no facebook da Biblioteca Municipal de Torres Vedras, Hora do Conto: Chiu, estou a ler, de John Kelly

às 15h00, Atelier Educativo Online do Museu da Farmácia (3€; mais de 5 anos; inscrição museudafarmacia@anf.pt)

no website e nas redes sociais do Museu Coleção Berardo, ciclo Frame  a Frame pela Coleção Berardo: Informalismo | Pop Art (7-12 anos)

Domingo, dia 28

às 11h00, online, ABC da Música – Letra C (Concerto Didático dirigido e comentado por Nikolay Lalov), com solistas da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras (estará disponível durante 24h)

às 11h00, no facebook da Metropolitana, Histórias da Formiga Rabiga: A Inspiração de Debussy (Petite Suite, L. 65; arranjo para quinteto de sopros), com solistas da Metropolitana

às 11h00, no Facebook da Casa da Música, Brincar com Mozart (Especial)

Quinta-feira, dia 1

no website e nas redes sociais do Museu Coleção Berardo, ciclo Frame  a Frame pela Coleção Berardo: Minimalismo (7-12 anos)

às 10h30, no facebook da Biblioteca Municipal de Torres Vedras, Hora do Conto: Este livro comeu o meu cão, de Richard Byrne

Esta informação está disponível, e é actualizada, no blog http://azweblog.blogspot.com e no facebook ( https://www.facebook.com/pages/Sugestôes/582224458542163 )

Bom fim de semana!

 JMiguel  

6/17/2014

Forma e Substância

          Creio que mesmo se Antero de Quental tivesse vivido um século mais tarde, ele não iria em futebóis. Para o malogrado escritor e pensador, possivelmente o actual Campeonato do Mundo que se está a realizar no Brasil passaria praticamente ao lado. No entanto, o que há dias sucedeu no Espanha-Holanda e hoje ocorreu no Portugal-Alemanha não pôde deixar de me fazer lembrar as teses de Antero expostas na sua famosa comunicação sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. É que a Espanha, aureolada com o pesado título de campeã do mundo, se viu destroçada por uma Holanda voluntariosa e combativa que logrou o espantoso resultado de 5-1. No jogo que Portugal disputou há horas com a Alemanha, o que aconteceu não foi tão diferente assim. O resultado final de 4-0 não tem discussão.

          E assim os dois povos peninsulares foram copiosamente batidos por dois países do Norte da Europa. Na sua famosa comunicação sobre o atraso peninsular, Antero referia-se, como todos sabemos, à Contra-Reforma, que comparou desfavoravelmente com a Reforma Protestante, à Monarquia Absoluta castradora de liberdade e de espírito de iniciativa, e ao sistema económico que derivou dos Descobrimentos e respectivas colónias (há bens que vêm por mal). 

          Pergunta-se: e o que é que isto tem a ver com o futebol? Nada, pelo menos aparentemente. Mas há um ponto, que creio ter sido também intuído por Antero, que é a diferença entre o primado da forma e o primado da substância. Geralmente, os países do Sul continuam a defender muito o primado da forma, o que os faz falarem e escreverem muito – e no futebol gesticular e discutir as decisões dos árbitros -, prestando menos do que a atenção devida à substância. No jogo de Portugal, conforme transmitido e relatado pela RTP1, foi notória a constante intervenção do locutor sobre um programa do canal que ninguém deveria perder, onde a posteriori se discutiria tudo sobre o jogo, com as melhores declarações, entrevistas e comentários. Bla, bla, bla, bla. O que é isto senão a forma? Entretanto, usando a mesma atitude de apreço primordial pela substância, os alemães iam impiedosamente caminhando para a nossa baliza, coleccionando golos. Originalmente, “goal”, de onde deriva a palavra portuguesa “golo”, significa “objectivo”, e esta é a substância da questão.

          Como português e também como cidadão ibérico custou-me muito ver os dois países da Ibéria serem estrondosamente derrotados por dois países do Norte europeu, mas sou forçado a reconhecer que a superioridade dessas duas equipas foi inegável. Todos sabemos que no futebol podem existir grandes surpresas, mas nos dois encontros em apreço foi menos o milagre e mais a realidade que se impôs. 

5/16/2014

Fugir do Paraíso?


            No final da década de ’60 e no início dos anos ’70 do século passado, houve uma enorme vaga de emigração portuguesa para a Europa. Para o Brasil já tinha sido comum. Para os Estados Unidos e Canadá era algo mais recente. Mas para a Europa e com tal força aquela onda emigratória era inédita. Os anos ’60 e início dos ’70 coincidiram com a Guerra Colonial, mas esta esteve longe de ser a grande força motriz por trás da debandada de portugueses para França, Alemanha, Luxemburgo e outros países da Europa. Os baixos salários que os trabalhadores auferiam em Portugal quando comparados com os que eram pagos no estrangeiro falaram mais alto e levaram muitos e bons braços da terra portuguesa para fora da pátria.
            Curiosamente, essa foi também a altura em que o Portugal turístico, que era então em imagens publicitárias “o segredo mais bem guardado da Europa” atingiu (em 1964) o seu primeiro milhão de visitantes estrangeiros, número largamente superado anos depois.
            De entre os locais descobertos para o turismo sobressaía, como alguns se lembrarão, o nosso Algarve. O Algarve era publicitado como um paraíso de sol e de tranquilidade para visitantes endinheirados. Porém, mesmo do Algarve saíam centenas de emigrantes para os países europeus. Este facto levou a certa altura o Bispo do Algarve a comentar ironicamente que podia imaginar o gosto de alguém em largar o Inferno, mas que lhe era extremamente difícil entender que alguém estivesse interessado em abandonar o Paraíso. Tinha a sua lógica o comentário do Bispo.
            Embora a História, como se sabe, não se repita, é um facto que ela muitas vezes rima. Presentemente, os arautos do Governo português proclamam que a sua governação tem sido um sucesso; que a economia está a dar a volta e a recuperação já começou; que as exportações têm aumentado substancialmente; que, ao contrário do que muita gente esperava, o Governo se decidiu por uma “saída limpa”, calando assim as calhandras que só falavam de desastres. Voltámos à narrativa do Paraíso português!
            Ora, parece que de maneira algo semelhante àquela que levou tantos trabalhadores algarvios a emigrarem do seu Paraíso nas décadas atrás mencionadas, também agora é do Paraíso português propalado pelo actual Governo que duas conceituadas instituições financeiras decidem cessar a sua actividade em Portugal, i.e. abandonar o Paraíso. As duas instituições são sobejamente conhecidas. Uma delas é o Banco Barclays, a outra o BBVA (Banco Bilbao Vizcaya Argentaria). O primeiro está em Portugal há pelo menos 40 anos; o segundo está entre nós há um número inferior de anos: apenas há 23. Segundo o jornal espanhol El País, a operação portuguesa não oferece a rentabilidade esperada. É talvez um pouco mais do que isso, diga-se: nos últimos três anos de actividade em Portugal, o BBVA registou perdas que chegaram aos 133 milhões de euros. Para paraíso não está mal.
            Será que tanto os trabalhadores algarvios de há décadas como os bancos internacionais aqui referidos são insensíveis aos encantos do Paraíso?

5/06/2014

"A gente" e "as pessoas" serão uma e a mesma coisa?


O dicionário de língua portuguesa que geralmente uso diz-me, entre outras acepções do termo, que “gente” é um conjunto de pessoas, o género humano, a humanidade, o povo. É de facto esta a noção que a maioria de nós tem relativamente à palavra. Logo, pode parecer à primeira vista que “as pessoas” e “a gente” são a mesmíssima coisa. Talvez não seja bem assim.  

Na utilização linguística que vemos e ouvimos todos os dias, “a gente” surge-nos geralmente em expressões positivas, desculpantes ou vitimizadoras para quem fala. Há, portanto, uma tendência para nos incluirmos no “a gente” a que nos referimos. Exemplificando:

“Se a gente não é informada da razão do atraso na partida do avião, como é que podemos saber o que se passa?”
“Se não houver saída por esta rua, a gente vai lá por trás, por umas travessas, e sai na mesma.”
“O Governo precisa de dinheiro e a gente é que paga.”
“A gente” é geralmente sinónimo de “uma pessoa”, expressão que é também positiva e na qual igualmente tendemos a incluir-nos.
“Como é que uma pessoa pode decorar isto tudo – duzentas páginas - para um exame?”
“E depois querem que uma pessoa não proteste!”
“Como é que querem que uma pessoa possua sentido crítico, se na escola não nos ensinam a pensar criticamente, a pôr as coisas em dúvida?”

            Pelo contrário, quando utilizamos – e fazemo-lo com grande frequência – a expressão “as pessoas”, colocamo-nos geralmente de fora e tendemos a expressar uma crítica, na qual nos incluímos apenas como bom elemento observador e não como alvo da opinião geralmente negativa que é expressa. Exemplificando:
          
                “As pessoas estão a ficar cada vez mais porcas. Agora nem põem o lixo nos contentores.”
            “As pessoas estão todas a monte aqui à frente no autocarro, quando há tantos lugares vagos lá atrás!”
            “As pessoas agora não sabem nada de História ou de Geografia de Portugal. No meu tempo sabíamos tudo de cor e salteado.”
            “As pessoas agora não querem trabalhar. Preferem receber subsídio de desemprego.”
          
           Como no nosso país criticar há muito que se transformou numa instituição nacional, quando ouvimos alguém usar “as pessoas” como sujeito de uma oração sabemos antecipadamente que vamos ter algo reprovativo. Em princípio não ofende ninguém em particular ou, visto de outro ângulo, atinge toda a gente, com clara e óbvia excepção de quem formula a censura, que se arvora em professor ou professora do povo: se pudesse, endireitaria este mundo e o outro. Infelizmente, não pode. À guisa de compensação, invectiva tudo e todos.
            
          
Se prestarmos atenção, encontraremos este quadro em muitos lados e em variadíssimas ocasiões. E se a nossa atenção for implacável, talvez nos encontremos também nós próprios a pintar esse quadro de “as pessoas”.

4/20/2014

AGUENTAR OU NÃO, EIS A QUESTÃO


          Num dos pelotões militares que, como oficial miliciano, me atribuíram para a obrigatória recruta, encontrei um soldado que era na altura campeão nacional de 5 000 metros. Nas boas instalações que tínhamos no quartel, ele treinava diariamente ao ar livre a sua corrida, de uma maneira que para mim constituiu alguma novidade: corria 100 metros para um lado, descansava uns segundos, corria 100 metros em sentido contrário, e ali estava um ror de tempo exercitando-se sem cansaço aparente. Eu tinha na altura uma razoável preparação física e, falando com ele, admiti que não aguentaria treinar durante tanto tempo. “É preciso praticar”, dizia-me ele. “Depois aguenta-se melhor.” Era o clássico conceito de Practice makes perfect aplicado à corrida. “Mas há uns que aguentam melhor e outros que não aguentam mesmo”, contestei eu. O soldado, que corria por um dos grandes clubes do país, admitiu naturalmente que isso também era verdade e confessou-me, a meu pedido, onde é que arranjara aquela resistência toda: “Fiz muito contrabando lá na minha terra. Tinha que percorrer grandes distâncias.”

          De facto, a prática é muito importante, mas só testando as pessoas se vê se elas aguentam ou não um determinado esforço. Mudando de agulha neste discurso, quero lembrar que o Governo do nosso país nos tem aplicado doses maciças de impostos e de cortes nos rendimentos que vêm testando a nossa capacidade de suportar esses esforços. 

        Aumentou a pobreza no país, o desemprego tornou-se uma praga, foi reduzida a assistência na doença mas, melhor ou pior, o povo tem na generalidade aguentado o sacrifício. Tem crescido o número de suicídios e divórcios, tem diminuído o número de crianças nascidas, morre-se em Portugal mais do que se nasce. Mas há ainda muita gente que vem aguentando, gente que parece ser em número demasiado elevado na óptica do Governo. O ideal era que desaparecessem mais pessoas, através de morte natural ou auto-infligida, ou através da emigração para outras paragens.

          Todavia, o Governo, que se preocupa primordialmente com as contas públicas e tem os seus alvos fiscais preferidos, já pode dizer agora, após três anos de experiências agravadamente repetidas, que os esforços apodados de temporários vão passar a definitivos. A prática mostrou que há muita gente que os aguenta, pelo que não há argumentos que possam destruir os factos.

          O “aguenta, aguenta!”, que se tornou célebre depois de saído da boca de um conhecido banqueiro português, não consistiu apenas em palavras. Foi todo um processo para verificar as reacções e os respectivos resultados.

          O antigo soldado do meu pelotão tinha razões de sobra para confiar na prática do treino. 

4/12/2014

A banca portuguesa como centro de decisão nacional?

Há dias, Cunha e Silva, vice de Alberto João Jardim e candidato à sucessão de presidente do PSD/Madeira, rematou o discurso da sua candidatura criticando o actual primeiro-ministro com uma frase lapidar: “para salvar Portugal não era preciso matar os portugueses.” Basta olhar para a nossa vizinha Espanha para verificar que isso teria sido possível.
Porém, quando em 2011 o actual primeiro-ministro concorreu às eleições e as venceu com a língua cheia de falsas promessas, a banca estava por detrás dele pressionando-o para pedir a intervenção da troika. Porquê? Endividadíssima na sua tremenda ganância de anos e anos a financiar construtores de imóveis por todo o país e posteriormente a financiar os compradores desses imóveis, a banca, que tinha recebido fartos empréstimos dos alemães e dos franceses e também de instituições de outras nacionalidades, necessitava urgentemente de dinheiro para pagar as suas dívidas. Pressionou assim a saída de Sócrates e apoiou a entrada de Passos Coelho.
Três anos depois, ao ouvir Passos Coelho falar de uma eventual “saída limpa”, a mesma banca portuguesa que se viu obrigada a pedir empréstimos ao BCE através do Estado português, que aliás lhe cobra juros elevados por esse empréstimo, está contra essa hipótese. Para o primeiro-ministro, uma saída limpa daria imenso jeito para as legislativas, graças à almofada de segurança que entretanto logrou constituir através dos impostos cobrados aos portugueses e de um maior endividamento externo e interno a juros substancialmente mais baixos do que os iniciais. Para a banca, no entanto, seria mau. Porquê? Porque continuando o país cotado como junk pelas principais agências de rating e tendo importantes bancos que operam em Portugal – BCP, BPI, CGD e Banif - recebido do Estado muitos milhões de euros, a credibilidade destes bancos passou igualmente a ser considerada “lixo”. Como tal, não são em princípio passíveis de se financiarem junto do BCE, o que lhes dificulta tremendamente a vida.
Pode suceder que, tal como há 3 anos, seja agora em 2014 a banca a ter a última palavra? É uma hipótese perfeitamente verosímil. A confirmar-se, constituiria um óptimo exemplo da prioridade da economia e das finanças sobre a política. Não custa a crer que venha a ser assim. 

2/25/2014

O Nicolau



Imagine quem lê estas linhas um daqueles indivíduos supinamente chatos que parece só se preocuparem com torneiras que pingam, televisores que são deixados a funcionar sem ninguém a olhar para eles, luzes da casa de banho que são acendidas por alguém à entrada mas completamente ignoradas à saída, máquinas de café ligadas longas horas depois do café ter sido feito e bebido, esquentadores com a chamazinha acesa 24 horas por dia, ou mesmo tubos de pasta de dentes ou esferográficas sem as respectivas tampas. Indivíduos desses não deviam existir no mundo. Chateiam os outros e complicam mais do que resolvem. Se pensam que vão conseguir emendar os outros, levá-los a ser como eles, estão redondamente enganados. Características profundas dos seres humanos, tais como distracção, desleixo e coisas quejandas, se nasceram com a pessoa com ela hão-de morrer.
Este breve intróito serve para apresentar um caso que nada tem de incomum e que ocorreu ontem à noite com o meu amigo Nicolau. Foi ele próprio que mo contou. O Nicolau, é conveniente referi-lo aqui, é precisamente um desses indivíduos que se preocupam com montes de coisas. Na sua vinda para o apartamento de praia que possui num condomínio, notou que a porta ao lado da sua tinha por cima a luz acesa. Sabendo que o seu vizinho Gomes estava ainda em Lisboa e não viria tão cedo ao prédio, ficou preocupado e desgostoso com aquele gasto inútil. Um verdadeiro desperdício! Mesmo que o filho do Gomes viesse ocupar o apartamento durante o fim-de-semana, como era seu hábito, ainda faltavam três dias. Mais três dias com a luz acesa!
A primeira coisa que ocorreu ao Nicolau foi telefonar ao seu vizinho a dizer-lhe que tinha deixado a luz acesa. Mas para quê? Será que o Gomes viria de Lisboa até ali, de carro, a gastar gasolina? Seria maior o custo do que o benefício. E, por outro lado, teria sido mesmo o Gomes a deixar a luz acesa? Por que não a mulher-a-dias? Se não tivesse sido o Gomes, com que cara ficaria ele, Nicolau, a acusar o seu amigo de uma coisa que ele, afinal, não tinha feito?
E se não lhe dissesse nada? Pensando bem, o Gomes não sabia o que se passava, não fazia a mínima ideia de que a luz estava acesa, logo não estaria agora nem preocupado, nem a sofrer. O total desconhecimento de um facto desagradável impede que a dor se manifeste. Ele, Nicolau, que tinha consciência de tudo, é que estava a sofrer. E não era ele que iria ter que pagar aquele consumo inútil de luz!
Mas, prosseguiu o Nicolau nas suas divagações, por que razão teria o Gomes de ser exactamente como ele, a sofrer com coisas como aquela? O Nicolau sabia por experiência pessoal que as pessoas diferem entre si e que ele próprio, infelizmente, não era metro-padrão que se aplicasse à maior parte das pessoas. Afinal, era bem possível e até provável que o Gomes, quando finalmente viesse a casa e encontrasse a luz acesa a apagasse, tout court, limitando-se a premir o interruptor que estava dentro de casa, junto à porta. E estava agora, ele, Nicolau, para ali aflito, testa enrugada de tanto pensar...
Galgando a escada a dois degraus de cada vez, surgiu entretanto o seu filho Luís, 11 anos desenvoltos. O que estava ali o pai a fazer, especado a olhar para a luz? O pai explicou-lhe em pormenor a sua angústia e concluiu: “Sabes como detesto ver uma lâmpada a gastar electricidade sem necessidade nenhuma!”
“Oh pai”, disse-lhe o miúdo, “ponha-me às suas cavalitas!” O pai fez-lhe a vontade. Já à altura da lanterna, o miúdo preparava-se para a abrir e desatarrachar a lâmpada quando o pai, atento e solícito, lhe passou rapidamente para as mãos o lenço que acabava de tirar do bolso: “A lâmpada está com certeza muito quente.” 
Com toda a facilidade, o Luís fez com que a luz, antes acesa, passasse a conversa do passado. Desceu das costas do pai, que entretanto ficou e orgulhoso com a perspicácia do filho. Deu-lhe os parabéns. Mas para si próprio, o Nicolau ficou confuso. E, para não variar, preocupado. Como é que ele não tinha pensado naquela solução, tão simples? Com uma cadeira, teria num ápice resolvido a situação. Concluiu, com forte dose de honestidade para consigo mesmo, que demasiados pensamentos e hipóteses em excesso acabam por ser teorias sobre teorias e não têm nada de prático. O seu catraio tinha resolvido a questão num abrir e fechar de olhos!
           Creio que a luz, agora apagada, tinha feito acender uma outra luzinha no cérebro do Nicolau. Afinal, aquela lâmpada acesa talvez não tivesse sido de todo inútil.

1/06/2014

Manipulação de nomes


            Uma das mais famosas citações de Shakespeare é a que nos pergunta e logo nos responde: What’s in a name? That which we call a rose by any other name would smell as sweet. Realmente, com o nome de “rosa” ou com qualquer outro, aquilo que designamos por “rosa” teria exactamente o mesmo perfume. Por outras palavras: a sua essência permaneceria igual; só o seu nome se alteraria. 
            Num exemplo que costumava ser-nos fornecido na escola secundária, não foi pelo facto de o original Cabo das Tormentas ter passado a designar-se Cabo da Boa Esperança que o mar naquele lugar deixou de ser menos tormentoso. Mas suavizou a sua imagem. É um eufemismo típico.
            Os eufemismos são tão comuns na linguagem que, muitas vezes, a forma quase se torna tão importante como a substância. Se falarmos em spread em vez de “margem de lucro do banco” há uma clara suavização do sentido, quanto mais não seja pela aura de mistério que para muitas pessoas a palavra inglesa spread envolve.
            E se em lugar de chamarmos “empréstimo financeiro tripartido” ao dinheiro que foi acordado emprestar a Portugal sob condições devidamente estipuladas e lhe chamarmos “ajuda financeira”, teremos o facto encarado sob outro ponto de vista, embora se trate do mesmíssimo empréstimo.
            E se transformarmos aquilo que, na prática, é um “imposto” no termo “contribuição”, não estaremos a alterar a substância mas sim a adoçar a forma.
            A palavra “imposto” é feia. Whatever is imposed is opposed, diz-se em inglês. E de facto existe uma tendência para reagir a uma imposição com uma oposição. É humano que assim suceda. Daí que, não só para simplificar mas, principalmente, para atenuar a ideia, o termo “imposto” seja cada vez menos usado. Como? Usa-se o “I” inicial da palavra e o resto é uma sigla. É o que encontramos em IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis), em IA (Imposto Automóvel), em IRS, IRC e também no nosso bem conhecido IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado).
            Deve ter sido por estas e por outras que o Governo decidiu chamar ao novo imposto a incidir sobre os reformados Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES).
            Dentro da manipulação de nomes que os governantes gostam de fazer, o pagamento das pensões de reforma é visto apenas como uma despesa do ponto de vista do Estado. É-o, de facto. Mas é também uma parte integrante da Dívida Pública (Interna). E, como tal, cortar as pensões de reforma já contratualizadas traduz-se num haircut, o qual tradicionalmente significa um perdão da dívida por parte do credor. Porém, a posição do Estado neste caso não é a de credor mas sim de devedor. Logo, se o devedor se outorga a si mesmo o direito de não pagar, torna-se naturalmente faltoso e incorre em óbvias penas, como todo o devedor que não paga as suas dívidas. Ou será que a dívida pública é apenas a externa e a interna não conta?
            Na era do escudo, existiram várias crises financeiras em Portugal, como todos sabemos. Estas crises resolveram-se basicamente através da desvalorização da moeda. Por duas vezes que me lembre, houve desvalorizações da ordem, cada uma delas, de 14 por cento. Se não se colocavam tantos problemas como agora e a situação não originava um tão grande sentimento de revolta era por uma razão muito simples: a desvalorização do escudo afectava toda a gente. É evidente que os mais ricos sentiam menos a subida do custo de vida do que os mais pobres – é um pouco como as cheias, em que estas não chegam geralmente aos andares de cima -, mas não havia excepções. Agora, com o euro como moeda de várias nações, nenhum país pode per se efectuar a desvalorização cambial. Resta-lhe, portanto, a desvalorização fiscal. 
            Apropriadamente, é esta desvalorização fiscal que tem sido levada a cabo pelo Governo. Esqueceram-se, porém, os governantes de a fazer aplicar a todos, isentando apenas “os mais vulneráveis”, como aliás consta do memorando assinado entre os representantes dos emprestadores internacionais e de três partidos políticos portugueses. Injustamente, há numerosas excepções, que criam o terrível precedente, o qual, como sói dizer-se, pode ser numa organização mais importante do que o presidente.
            E é aqui que voltamos à assim-chamada Contribuição Extraordinária de Solidariedade. Em primeiro lugar, a designação é falsa por não se tratar de uma contribuição (voluntária, como o nome parece indiciar), mas sim de um imposto puro e duro. Em segundo lugar, a CES fere o princípio da equidade ao incidir apenas sobre uns tantos portugueses e não sobre todos.
            Na realidade, se a questão essencial é a obtenção de cerca de 400 milhões de euros para o Orçamento de Estado de 2014, existe uma solução bem mais simples e mais tolerável, na medida em que constitui um esforço menor para cada um dos portugueses: criar um Imposto de Solidariedade Nacional (ISN) – chamemos os bois pelos nomes -, que abranja todos os portugueses, com excepção das classes mais vulneráveis acima referidas. Este ISN, que incluiria uma progressividade de acordo com os rendimentos declarados dos cidadãos, atingiria facilmente os 400 milhões que são requeridos e evitar-se-ia a ideia, negada pelos governantes mas confirmada pelos factos, de que existe uma verdadeira obsessão por parte do Governo com os cortes das pensões dos pensionistas e reformados. 

3/19/2013

Dois casos


           Este mês de Março de 2013 teve, até ao dia em que escrevo estas linhas, dois factos muito salientes. O primeiro foi a eleição de um novo Papa da religião cristã e católica. O segundo consistiu na recente intervenção da Europa da finança em Chipre através da banca. Embora não exista qualquer relação directa entre estes dois factos, eles acabam, em minha opinião, por estar ligados. São, porém, de sinais opostos. Para lá de reais, ambos são simbólicos e estão associados à noção de poder. Como se pode supor, existe maior espiritualidade na eleição do Papa e maior materialidade – se é que há alguma espiritualidade – no caso da intervenção financeira de Chipre.
            Brevemente, comecemos por analisar a questão do Vaticano, que é interessante e também algo intrigante, já que existem segredos e meios-segredos relativamente à Igreja Católica. É hoje praticamente impossível chegar a uma conclusão definitiva. O anterior Papa, Bento XVI, alemão de nascimento, renunciou em Fevereiro ao seu cargo, após alguns anos de papado. Alegou cansaço físico e mental, do qual resultaria a sua incapacidade para desempenhar cabalmente a missão. É fácil de admitir, pelo aspecto actual do ex-Papa Ratzinger, que o motivo que ele alega é real. O peso que recai sobre os ombros do mais alto representante da Igreja Católica é grande. Por outro lado, existem razões sérias para acreditar que motivos de saúde estiveram longe de ser os únicos que levaram o Papa a renunciar ao seu cargo. Questões graves, como o escândalo da pedofilia por parte de membros do clero, desinteligências com a Cúria e problemas nunca cristalinamente esclarecidos relativamente a assuntos financeiros da Igreja podem certamente ter fatigado Bento XVI e contribuído para a sua renúncia.
            No conclave do qual saiu um Papa para substituir Bento XVI foi eleito um cardeal argentino, Jorge Mario Bergoglio, jesuíta de formação, que adoptou para si um nome que nunca nenhum Papa antes tivera: Francisco. Na história da religião católica há dois Franciscos célebres – Francisco de Assis e Francisco Xavier - , pelo que quando o cardeal argentino adoptou aquele nome os católicos se interrogaram: quererá ele dizer S. Francisco Xavier, jesuíta como ele, ou S. Francisco de Assis, defensor da paz e dos pobres? O novo papa esclareceu imediatamente a questão, sem renegar o jeito apostólico de S. Francisco Xavier: a sua escolha recaía sobre Francisco de Assis.
            Aqui virá eventualmente a propósito uma história anedótica que caracteriza bem a diferença que existe entre um jesuíta e um franciscano. É uma história extremista, como é habitual sempre que se pretende vincar pólos opostos. É possível, como este Papa pretende demonstrar, conjugar as duas facetas. Mas vamos entretanto à história:

Entre as múltiplas ordens religiosas existentes destacam-se os Jesuítas (da Companhia de Jesus), famosos não só pela sua intelectualidade e pelo seu saber, mas também pela sua arrogância e sobranceria. Trabalham geralmente ao lado das elites. Por seu lado, os Franciscanos sobressaem pela sua humildade, que os leva a tratar os seus semelhantes por "irmãos" e “irmãs”, e a andar frequentemente descalços ou com umas simples sandálias nos pés.
            Um dia, um jesuíta quis embaraçar um frade franciscano e colocou-lhe uma pergunta de difícil ou mesmo impossível resposta:
            - Irmão, sabes por acaso quais foram as primeiras palavras que Jesus Cristo disse?
            O franciscano admitiu humildemente que não sabia, mas pediu oito dias para tentar obter a resposta. Ao fim do período de tempo que lhe concedera, o jesuíta não lhe perdoou e voltou à carga:
            - Então, irmão, já sabes por acaso quais foram as primeiras palavras que Jesus disse?
            - "Sim", volveu o franciscano. "Creio que já sei."
            - "Ah sim? Então diz lá!", ripostou-lhe algo incrédulo e irónico o jesuíta.
            - Foi num dia em que Nossa Senhora não estava na gruta. Tinha ido lavar umas roupitas a um ribeiro. Aí, o menino Jesus, sozinho na gruta, terá dito as suas primeiras palavras.
            - Que foram?
            - Bem, eu disse que ele estava sozinho mas de facto não estava. De um lado tinha um burro, do outro uma vaca. Foi então que o Menino se voltou para o lado da vaca e depois para o lado do burro, e balbuciou a sua primeira frase.
            - "Qual?", interrompeu o jesuíta, ansiosamente.
            - Ele abriu os bracitos e perguntou: "Então é esta a Companhia de Jesus?"

            Conquanto Shakespeare nos tenha lembrado que um nome pode não querer dizer muito – uma rosa cheiraria por acaso menos doce se tivesse um outro nome? – o facto é que a escolha de Francisco de Assis, sendo propositada, é cheia de significado. E na actual situação ainda ganha um significado acrescido.
            O mundo mudou muito nestas últimas décadas. A globalização alterou o comércio a nível mundial. A desregulação financeira, que vem beneficiando grandes companhias e instituições financeiras muito mais do que todos aqueles que se arrastam pela mediania e mesmo pela pobreza, trouxe consigo uma distribuição menos equitativa da riqueza. Escandalosa, por vezes. Os estados debatem-se com falta de meios, em grande parte devido ao facto de que os seus maiores contribuintes habituais procuram livremente zonas onde sejam menos onerados com impostos, posicionamento que faz recair sobre os restantes cidadãos uma carga fiscal muitíssimo maior. No caso europeu, a criação da União e a consequente introdução de uma moeda comum – o euro – tem feito salientar o notório desequilíbrio que existe no seio das economias dos países que aderiram à moeda única. Por outro lado, a deslocalização de grandes companhias multinacionais em busca de maiores lucros através do pagamento de salários mais baixos, que se encontram em países com maior quantidade de mão-de-obra, provoca elevadas taxas de desemprego no Ocidente, o que leva os estados a terem de socorrer os milhares ou milhões de desempregados para que a paz social continue a reinar no território sob a sua jurisdição. Com isso diminui, obviamente, o rendimento da colecta de impostos estatal. A situação parece, nalguns casos, estar num verdadeiro beco sem saída.
            De uma maneira genérica, pode dizer-se que o mundo financeiro tomou conta da política latu sensu. Existe uma exploração desenfreada, que causa um enorme desconforto em muitas sociedades e faz aumentar exponencialmente o número de pobres em vários países. Muitos valores, como a solidariedade – o amor ao próximo -, a honestidade, o direito ao trabalho, a tendência para a igualdade e tantos outros, têm vindo a desaparecer a nível institucional e a ser substituídos pela ganância do lucro por parte dos mais poderosos e pela precariedade no trabalho a que os mais fracos ficam sujeitos. Karl Marx – não confundir com os marxistas – mostrou ter razão ao afirmar que o dinheiro constitui o motor principal na movimentação das sociedades. Inadvertidamente, é o próprio movimento neoliberal que acaba por vir confirmar essa tese de Marx.
            Em certa medida à semelhança do Papa que, em tempos da Reforma no século XVI, viu surgir os Jesuítas como seu espiritual braço armado contra a desagregação da Igreja Católica em face do movimento protestante, o capital possui o seu financeiro braço armado nos bancos. Para os actuais defensores do euro, da União Europeia e do desenvolvimento do capital, a banca constitui algo tão importante que, aparentemente pelo menos, cuidam mais dela que dos estados soberanos propriamente ditos. Em Chipre, num movimento de surpresa mas não inédito – ocorreu também na Argentina há cerca de uma dezena de anos – os emprestadores só autorizaram um empréstimo vultoso para o pequeno país mediante uma condição chocante: os bancos em que os habitantes do país têm os seus depósitos deveriam reter, como se de um imposto se tratasse, quase 10 por cento das contas acima de 100.000 euros e um pouco mais do que seis por cento em todas as contas abaixo desse montante. A ideia subjacente, já ventilada noutros países, entre os quais Portugal, é a de que o povo gastou demais e portanto tem de pagar esse excesso. É um processo cruel, de verdadeira agiotagem, porque as grandes despesas do país são mais o resultado de compras vultosas feitas aos países mais ricos, como a Alemanha, e que se traduziram em material de guerra sofisticado e dispendioso, automóveis topo de série, toda uma vasta gama de artigos e, naturalmente, habitações novas que os bancos conseguiram, muitas vezes com dinheiro emprestado, financiar, desde os terrenos para a sua construção até à venda de apartamentos.
            Ora, a diferença entre este consumo propositadamente elevado, seguindo o princípio clássico do emprestador “quanto mais pedes emprestado, mais te enterras” – e o ideal franciscano é abissal. Nem todo o mundo é cristão, como se sabe, e mesmo no mundo cristão nem todos são católicos. Ao escolher o nome de Francisco de Assis, é mais do que natural que o novo Papa se tenha lembrado não só do Francisco que se despojou de toda a eventual riqueza que a sua família lhe proporcionava, como também de gestos importantes, como o que S. Francisco de Assis fez quando foi ao Egipto para se encontrar com o sultão Al-Kamil, numa saudável tentativa de compreender o outro numa altura em que os cruzados se preparavam para atacar.
S. Francisco foi também o homem que incentivou Clara (Santa Clara) e as suas companheiras a seguir o seu estilo de vida mendicante. Revelando a sua solidariedade para com o próximo, S. Francisco tratava por “irmão” todas as criaturas e coisas. Defendeu princípios nobres, como os da fraternidade, da paz universal, do ecumenismo e da abertura às mulheres, seguindo o exemplo de Santa Clara. Aliás, S. Francisco não só conferiu uma sadia abertura às mulheres; fê-lo também com os laicos, de onde adveio a Ordem Terceira de S. Francisco. O santo esteve sempre ao lado do povo, algo que este novo Papa aprendeu a fazer na sua Argentina natal. Estar ao lado do povo significa nos tempos actuais lutar contra as poderosas estruturas de exploração e opressão do homem, incluindo naturalmente uma das mais notórias formas de explorar pessoas: a precarização. O ideário franciscano, que consigna o amor pelos pobres e por tudo o que é frágil, é fortíssimo hoje em dia na sua dimensão política. Além do mais, S. Francisco foi um incansável defensor da natureza e transmitiu-nos a ideia de que não podemos explorar tudo. E, certamente, que não devemos pensar apenas em estratégias de curto prazo: o seu pensamento é de horizontes largos, tanto em termos de espaço como de tempo.
            Não podemos colocar o Papa como salvador do mundo, que ele obviamente não é, nem nunca poderá ser. Mas através de uma luta forte e aguerrida defendendo inteligentemente os ideais franciscanos, pode simultaneamente fazer muito pelo ressarcimento da Igreja católica e combater o cruel poder financeiro que produz pobreza por toda a parte, como se em sistema de vasos comunicantes. Uma reforma da Igreja e uma maior atenção para os problemas sociais podem alertar o povo contra os seus exploradores e dar esperança a muitos que presentemente descrêem de tudo ou de quase tudo.