4/25/2006

25 de Abril


Embora duvide que não me tenha já referido neste blog ao 25 de Abril de 1974, é com gosto que partilho umas linhas convosco, recordando esse dia.
Antes de mais, um dado que só há poucos meses obtive: por que motivo ocorreu o golpe militar no dia 25 e não noutro dia qualquer? A verdade, tal como me foi contada por um dos homens de Abril, é que o Movimento das Forças Armadas (MFA) produziu uma acção de contra-informação para a PIDE. Anunciou falsamente que a data do golpe seria pós-1º de Maio, aproveitando a agitação popular característica daquele dia. A PIDE "engoliu" a contra-informação e, como mais tarde se veio a saber através de documentação apreendida, planeava deitar a mão a vários dirigentes do MFA no 1º de Maio. Dentro do MFA ficou assente que o golpe seria efectuado numa data entre 22 e 28 de Abril, mas, como é evidente, sempre antes do 1º de Maio. Calhou no dia 25.
Pessoalmente, eu não sabia de nada em concreto, embora uma aluna minha, irmã de um capitão do MFA, me tivesse segredado no final de uma aula que o golpe estava para breve. Acabou por ser dois dias depois de ela me ter falado.
Para muita gente, o 25 de Abril foi um acontecimento especial. Para a minha mulher, particularmente, foi algo mesmo muito especial. Fomos acordados cerca das 4 e meia da manhã por uma prima. Pessoa notoriamente de direita, a senhora estava nervosa e excitadíssima. Contou-nos ao telefone que havia uma revolta em Lisboa, com tanques nas ruas. A rádio estava a anunciar tudo. Insistiu muito para não sairmos de casa.
Esse era no entanto um pedido difícil de atender. A minha mulher, guia de turismo, tinha programada para esse dia uma visita a Lisboa e a Sintra com um grupo de oficiais canadianos da NATO, que deveriam vir da base aérea 6, no Montijo, para o Terreiro do Paço, com chegada prevista para as 9 horas. Como eu estaria sem aulas, disse-lhe naturalmente que a ia levar à Baixa. Foi uma sensação muito sui generis ir no meu VW às 8 e tal da manhã a descer a Almirante Reis sem ver vivalma. Lá aparecia um ou outro vulto fugidio, mais nada. À chegada ao Martim Moniz e Praça da Figueira, já deparei com algumas pessoas mais, mas poucas. Aí foi-me dado ver algo que para mim era absolutamente inédito: um polícia a fugir à frente de uns três ou quatro homens que, ao mesmo tempo que corriam, lhe chamavam nomes. Estacionei entretanto o carro na Rua dos Correeiros, porque a partir daí já não podíamos avançar. A minha mulher apeou-se e foi um pouco mais à frente até à entrada lateral para o Terreiro do Paço, que estava pejado de viaturas militares e de tropas. Explicou a um militar que estava à espera de um grupo de estrangeiros que deveria chegar ali junto ao Cais das Colunas numa vedeta. O militar disse-lhe que não devia haver turismo naquele dia, mas que se ela quisesse fosse fazer a pergunta directamente ao "nosso capitão". Acompanhada por um outro militar foi falar com o capitão, que também comentou que era muito pouco provável que os oficiais chegassem. Simpaticamente, disse-lhe para ir ver se a vedeta lá estava, destacando para o efeito um sargento para a acompanhar. A vedeta não estava.
Voltou entretanto para o pé do VW e contou-me a história. Resolvemos ir à Av. Casal Ribeiro, local de onde partia o autocarro de turismo que devia transportar os oficiais. Chegados lá, verificámos que o autocarro já tinha saído há algum tempo, aliás dentro do horário previsto. Não havia telemóveis ainda naquela altura, pelo que o melhor remédio era esperar que o motorista voltasse à base. E voltou - acompanhado pelos oficiais que entretanto tinham chegado e ele tinha recolhido!
Aí a minha mulher entrou no autocarro e, profissionalmente, explicou o que tinha que explicar: que estavam num dia muito especial, que havia uma revolução em curso na cidade. Como Lisboa permanecesse muito calma àquela hora, resolveram iniciar a visita, que incluiu a maioria dos pontos tradicionais. Contou-me a minha mulher quando chegou de volta a casa que nunca tinha tido uma sensação parecida com aquela ao subir a Avenida da Liberdade. Com o rádio ligado, ela via-se a omitir na sua informação turística todos os habituais aspectos históricos, e não só, relacionados com a Avenida. Em vez disso, descrevia em directo o que ouvia através das notícias que acabava de ouvir, também para ela uma total surpresa.
Depois de uma panorâmica da cidade, o autocarro seguiu para Sintra, onde foram efectuadas as visitas que estavam no programa, incluindo um palácio. Sempre que o grupo estava no autocarro, o rádio mantinha-se obviamente ligado. De volta a Lisboa por Cascais, os oficiais foram depois deixados junto à vedeta, que entretanto os viera buscar a outro local previamente combinado por telefone.
Aqueles canadianos tinham tido uma visita de tomo: o passado e o presente de um país a misturarem-se naquele dia numa amálgama empolgante, que felizmente terminou em bem. Digam o que disserem, abençoado este Portugal que mesmo num dia de revolução permite que visitas turísticas se realizem sem praticamente nenhuns problemas!

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