3/19/2007

Duas pontes


Juntamente com uma dúzia de amigos, dei este fim-de-semana uma saltada a Castelo de Paiva. Não ia lá há mais de duas décadas. Castelo de Paiva saltou para as colunas da imprensa há seis anos devido à trágica derrocada de uma ponte sobre o Douro, que ceifou a vida a dezenas de pessoas que seguiam num autocarro. Das 59 vítimas que se registaram não foram resgatadas mais do que 23. No local onde a ponte antiga entrava na margem sul do rio foi erigida uma enorme estátua do Anjo de Portugal, que no dia 4 deste mês – aniversário da tragédia - foi verdadeiro ponto de romaria para centenas de pessoas que, à hora exacta em que o acidente ocorreu, lançaram inúmeras flores ao rio.
Após a queda da ponte, Castelo de Paiva voltou aos grandes títulos através do fecho de multinacionais e consequente desemprego de dezenas de trabalhadores.
A vila, como tantas outras por esse Portugal fora, não parece a mesma. Cresceu em múltiplos aspectos: tem muitos edifícios mais, possui uma escola secundária com bons espaços, um bom pavilhão desportivo, piscinas, e moradias com óptimo aspecto, ajardinadas e embelezadas com magnólias de flor roxa ou branca, cameleiras e rododendros.
Sobre a vida mais profunda da vila não consegui, no entanto, saber muito. O visitante fica-se frequentemente pelas rotas panorâmicas, pelas descobertas gastronómicas e, a não ser que seja jornalista e tenha encontros marcados com pessoas informadas, fica mais com uma impressão superficial do que com um conhecimento aprofundado.
Mesmo assim, pareceu-me haver de tudo naquela terra, situada relativamente perto do rio de águas por vezes turbulentas - boas para rafting - que lhe dá o nome: o Paiva. Muitas das casas mantêm-se modestas, com granito austero a garantir a sua continuidade. A população vive muito do comércio e da agricultura, da qual sobressaem os vinhos verdes. Não vi grandes complexos industriais, mas gostei de encontrar um interessante espírito associativista, pragmático na sua acção. Na praça principal, três bancos alinham-se ao lado uns dos outros, na mesma ala em que se encontra a Câmara Municipal. Terra de sobe-e-desce, parece calma, mas conterá decerto vários dramas e angústias dentro das suas portas. Uma delas surge agora através de questões relacionadas com o atendimento dos serviços de saúde, "doença" que aliás atinge muitas outras populações portuguesas neste momento. Lá fala-se na criação de uma Empresa Municipal de Saúde
Quanto à ponte que ruiu, foi entretanto substituída por duas outras, como a fotografia (tirada do monte de S. Gens) mostra. Fica assim assegurada uma passagem rápida entre as duas margens do Douro, perto do local onde o fogoso Tâmega vai engrossar as águas do Douro na sua corrida até à cidade do Porto.

Embora tenha sido curta e eventualmente gastronómica em excesso - com deliciosos nacos de carne na pedra, um arroz de lampreia confeccionado por especialistas, um excelente cabrito no forno e um leitão super, tudo regado com bons vinhos! – a ida a Castelo de Paiva valeu certamente a pena. Dar uma escapadela da cidade de Lisboa é sempre uma bênção.

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