3/07/2007

Serão as mudanças tecnológicas mais desfrutadas pelos mais velhos ou pelos mais novos?

Já me tenho colocado esta questão mais do que uma vez. À primeira vista, parecerá que os mais novos as desfrutam mais do que os mais velhos. Pensando melhor, talvez cheguemos a uma conclusão diferente. Comecemos por definir aquilo de que estamos a falar. Os mais novos serão as pessoas até aos 25 / 30 anos de idade. Os mais velhos serão os de 55 / 60 para a frente. A questão que levanto não é de nível quantitativo - quantas e quais as pessoas que utilizam novos meios tecnológicos - mas sim de carácter qualitativo: quem tira maior prazer, quem mais os desfruta. É isso, aliás, o que o título questiona.
Muito embora nestes casos seja difícil de encontrar um instrumento medidor de precisão, creio que a resposta se inclina para o lado dos mais velhos. Porquê?
Tomemos um indivíduo que, vindo sedento do deserto, tem alguém a oferecer-lhe uma gota de água. Não será maior o prazer com que ele se dessedenta do que o de uma outra pessoa que, mecanicamente, bebe um copo de água num café ou numa esplanada? Será que o prazer da liberdade é o mesmo para quem viveu longos anos sem ela que para outro que já nasceu dentro dela? Na vida, vamos, consciente ou inconscientemente, estabelecendo comparações com base no passado que já vivemos. Daí que, para quem sempre dormiu numas tábuas durinhas, uma cama fofa tenha outro gosto do que para quem sempre dormiu numa assim.
Aquele que se lembra das muitas horas que passou a matraquear stencils, tendo de permeio de corrigi-los em vários passos com verniz corrector de cheiro activo, aprecia com certeza muito mais as fáceis fotocópias de hoje do que outro que sempre usou fotocópias. E quem utilizou papel químico para tirar cópias ainda tira possivelmente mais gosto. Quem se lembra de ter que inutilizar por vezes uma folha quase inteira de papel passada à máquina por causa de um erro grave e se ver obrigado a começar tudo de novo, decerto que aprecia imenso a função delete do computador, que, para quem nunca conheceu outra ferramenta, não passará de uma mera função como qualquer outra. Ter a possibilidade de estar a trabalhar ao computador e ouvir música "minimizada" é um regalo para quem se lembra de outros tempos bem mais árduos. E mandar e-mails que chegam à América e ao Japão num abrir e fechar de olhos, permitindo uma resposta logo ali na viragem da auto-estrada em vez de na volta do correio, apenas duas ou três semanas depois? E a maravilha do telemóvel, tão displicentemente usado nesta sociedade da abundância, que recordações de dificuldades atrozes de comunicação não traz aos mais velhos?
A lista poderia continuar indefinidamente com as fotografias a preto-e-branco, a cores e as digitais, que nem precisam da casa fotográfica para revelação. E com a televisão a transmitir programas 24 horas por dia. E com cábulas a serem passadas por SMS em telemóvel em vez dos habituais papelinhos. E tantas, tantas outras coisas!Um animal que nasceu no Jardim Zoológico não se sente tão privado de liberdade como aquele que nasceu na selva e um dia lá foi colocado com residência permanente. Tudo isto me leva a dizer que o prazer dos mais velhos na utilização das mil e uma novas invenções de hoje é superior ao sentido pelos mais novos. Estarei certo?

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