10/17/2006

Cidadania portuguesa

Há uns três meses, fui abordado por duas brasileiras junto ao antigo cinema Império, em Lisboa. "O senhor me diz se esta é a rua do Dr. Afonso?" Fiquei um pouco aturdido com a pergunta. Uma delas apontou-me para a placa. Li: Alameda D. Afonso Henriques. Não pude deixar de sorrir e confirmar-lhes que estavam no local certo.
Se recordo este caso, é porque, também há alguns meses, os jornais noticiaram que uma brasileira que aparentemente preenchia todos os requisitos legais para se tornar cidadã deste país - era casada com um português, residia em Portugal, pagava impostos, descontava para a Segurança Social, tinha casa própria e um filho na escola -, viu o Ministério Público entender que, em vista do seu desconhecimento de aspectos elementares da cultura portuguesa, ela não se encontrava em condições de adquirir a cidadania lusa. A senhora não sabia quem tinha sido o fundador do reino de Portugal, ignorava Camões e desconhecia o nome do Presidente da República.
O advogado a quem o casal recorreu levou logo a seguir o caso a tribunal. Argumentou que os conhecimentos da senhora brasileira não eram, afinal, muitos diferentes dos de muitos cidadãos portugueses. Acrescentou que, para além da informação que lhe é fornecida pelos media, a senhora conhece uma grande parte de Portugal Continental através das viagens que tem feito com o marido e pessoas amigas. O tribunal aceitou a argumentação, contrariou a anterior decisão do Ministério Público e atribuiu à cidadã brasileira a nacionalidade pretendida.
Os concursos que vemos na televisão e que nos fazem frequentemente espantar de tanta ignorância afinal servem para alguma coisa.

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