10/06/2010

O contributo para a nossa felicidade

Há verdades que estão fora do seu tempo e que, por essa razão, não pegam. A este propósito, lembro-me do filme "O homem que matou Liberty Valance". No argumento do filme há um jornalista que pretende saber da boca de um senador que nasceu na terra em que o filme decorre o que se passou para fazer dele um herói. Ele conta-lhe, e do seu relato verídico resulta uma verdade diferente da história que habitualmente se ouve. No final, o jornalista decide não narrar no seu jornal a verdade que acabou de ouvir e prosseguir com o mito: "This is the West, Sir. When the legend becomes fact, print the legend." Por outras palavras, quando o mito é mais interessante do que a realidade, é ele que acaba por prevalecer.
Porquê?
Na minha carreira pessoal de professor, recordo-me sempre do que se passava com os meus alunos, todos maiores de idade e na generalidade educados em famílias tradicionais e respeitadoras dos valores da Pátria. Quando eu lhes dava versões da História de Portugal algo diferentes das convencionais, não me chamavam mentiroso, mas desconfiavam do meu patriotismo, que para muitos era uma importante pedra de toque.
Ora, entre a visão patriótica, deliberadamente manipuladora de alguns factos, e a verdade documentada e objectiva pode existir um enorme abismo. O patriotismo torna-se, a certa altura, como um acto de fé, que não se explica racionalmente mas no qual se acredita piamente. E se a visão patriótica nos torna felizes, enquanto que uma outra, possivelmente mais verídica, nos esfria a alma, tem de compreender-se que a natureza humana, tão recheada de amor-próprio e adulante de si mesma, mantenha a primeira e despreze ou deliberadamente ignore a segunda.
É claro que tudo isto tem o seu tempo. Uma visão patriótica constrói-se frequentemente através de uma memória que tanto serve para recordar como para esquecer. Ao ocultar determinados aspectos mais indecorosos para as nossas cores e ao realçar outros que nos são claramente favoráveis, a visão patriótica faz-nos sentir orgulhosos dos nossos antepassados e de pertencermos à mesma pátria daqueles que tanto se distinguiram. Indirectamente, deles possuiremos uma costela, que poderá a qualquer momento ser accionada.
Destruir esta óptica causa uma natural perturbação em quem a possui e provoca uma inclinação para destruir aquele que se apresenta como mensageiro de uma outra verdade. Este é um dos motivos pelos quais as novas verdades só vingam quando à sua volta existe o ambiente próprio para elas vingarem.
Relativamente a este assunto, vem-me quase sempre à mente um cidadão idoso e até simpático e afável que uma vez me interpelou após uma comunicação que apresentei num simpósio. Entre outras coisas que não foram minimamente contestadas, considerei como relevante na educação dos príncipes da denominada Ínclita Geração a influência da educação inglesa, fornecida por tutores da realeza de Inglaterra, especialmente vindos a Portugal a convite da Rainha, que era inglesa de nascimento (Filipa de Lencastre). Dessa educação, que terá permeado os infantes de ideias inovadoras em termos de horizontes e de ambição relativamente à tradicional cultura portuguesa, teria resultado o brilhantismo dessa geração (Infante D. Henrique, rei D. Duarte, Infante D. Pedro, D. Isabel de Borgonha, etc.). O cidadão idoso, que era um dos meus anfitriões, falou com voz de orgulho ferido. Atribuir uma parte importante das facetas dos príncipes ao lado materno, estrangeiro, parecia-lhe menos correcto. Por meu lado, eu tinha-me limitado a usar a voz da minha verdade, documentada. Aquele era um choque normal. Contudo, o meu ponto de vista não tinha, naquele contexto, qualquer possibilidade de vingar. Embora talvez tenha semeado algo diferente na mente de um outro espectador, decerto que a minha maior objectividade não contribuía para a felicidade da maioria.
Há verdades cuja aceitação ou rejeição dizem muito sobre a natureza da sociedade que as rejeita ou aceita. Na vida política do dia-a-dia, o contributo para a sua felicidade acaba por ser decisivo para numerosos eleitores. Estes tendem a perdoar eventuais faltas a um candidato que fez claramente obra mas de quem se diz que cometeu igualmente várias ilegalidades. Compreende-se: aquele candidato fez coisas que nos alegram. Contribuiu efectivamente para uma melhoria do concelho, da região, ou do país. Se esse candidato for condenado nos tribunais, isso significa apenas "mais uma condenação", o que não se traduz em algo de especialmente positivo para os eleitores. Estes sabem de muitas outras pessoas que, diz-se, cometeram vários actos ilegais e não foram minimamente punidos. É por isso que darmos o nosso voto ao candidato acusado é apostarmos na continuação do nosso bem-estar, que certamente preferimos ao acto eventual de uma justiça que, ela própria, está longe de ser justa para com todos.
No caso de Portugal, assim se entendem melhor as reeleições de Isaltino Morais e de Valentim Loureiro, por exemplo, de Alberto João Jardim e de José Sócrates. Porém, logo que a economia no local em que esse candidato vai a eleições comece a correr mal, com elevados níveis de desemprego, não se pode estranhar que, congruentemente, a sua faceta menos legal venha ao de cima e ele acabe por perder a reeleição. É a vida.
Dizia o candidato brasileiro Tiririca que o Brasil consigo "pior também não fica". É essa a tónica certa num país que tem atravessado um bom momento nestes últimos anos. Já não seria correcta se o país se estivesse a afundar, em vez de, felizmente, encontrar cada vez mais petróleo nos fundos da sua costa.
Ficam também claras, creio eu, pelo menos duas coisas: 1. Quem sabe por que razão vota num determinado candidato é o eleitor local e não as pessoas que vivem noutros lugares, inclusivamente no estrangeiro. Quando George W. Bush foi reeleito pelos americanos, a Europa perguntou-se por que motivo estariam os Estados Unidos a cometer tamanho erro. Muitos americanos, no entanto, que andavam a ser verdadeiramente manipulados e intoxicados por vários meios de comunicação, não tiveram dúvidas. Além disso, na altura da eleição havia apenas ameaças de má evolução da economia, e o 11 de Setembro ajudava o Presidente. Na mesma linha, também sempre que Alberto João Jardim é reeleito na Madeira, os portugueses do Continente perguntam-se: porquê? Os eleitores locais sabem-no melhor do que quem lá não vive. 2. Nem o Brasil nem Portugal são países muito rigorosos quanto aos valores que defendem. De verdadeiro puritanismo religioso há aqui muito pouco. "Deus disse-nos para sermos bons, mas não para sermos parvos" é o princípio geralmente seguido.

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