11/27/2007

O acordo ortográfico (II)

Finalmente, estou a encontrar mais alguma (pouca) informação na imprensa sobre o acordo ortográfico a que me referi na semana passada neste blog. Não é sem tempo. Pelo que leio, Portugal garantiu à CPLP que aplicaria o acordo quando houvesse três países que o ratificassem, o que presentemente já sucede: o acordo foi ratificado por Brasil, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe.
Um professor da Universidade da Bahia (Brasil) afirma que o acordo, que ele conhece, é muito simples. Acentos considerados desnecessários desaparecem, consoantes mudas são abolidas e as três letrinhas que faltavam para que o nosso alfabeto ficasse igual ao dos ingleses - k, w e y - são adicionadas.
Sobre esta última adição nada tenho a dizer e até a saúdo. Aliás, supunha mesmo que ela já se tinha verificado (os dicionários modernos incluem o k, o w e o y. )
Quanto ao resto não sei se concordo, sem ver as regras estabelecidas. Se a forma diferente de pronunciar as palavras em cada país não for respeitada só para que haja uma uniformidade artificial, estou em absoluto desacordo. Repito o que disse no meu post anterior: não faz qualquer sentido uniformizar o que é diferente. Para quê? Porquê? Aliás, a nossa sintaxe é em muitos casos tão diferente da brasileira que ter todos os vocábulos grafados da mesma maneira é algo ridículo.
Informam-me que, no total, o novo acordo mexe com cerca de 0,4 por cento das palavras usadas no Brasil e com um pouco mais de 1 por cento da ortografia de Portugal. Ora, aqui já temos uma informação quantificada: planeia-se a mudança ortográfica de cerca de 3 vezes mais vocábulos usados em Portugal do que no Brasil! O que é que isso significa?
Dando como certa a informação de Jonuel Gonçalves, o já referido professor da Universidade da Bahia, óptimo passará a escrever-se ótimo e redacção transformar-se-á em redação. Que redacção passe a redação não acho muito grave, até porque ilação, que só se escreve com -ç- em português luso, pronuncia-se como se tivesse -cç-. Tal como inflação.
Estou a imaginar que, na mesma linha, vocábulos como acção, accionar, accionista, acta, actividade, activista, activo, acto, actor, actuar, actualização, actualmente, actuar, aspecto, atracção, baptista, baptizado, característico, colectivo, correcto, detectar, directamente, directo, director, efectivo, efectuar, eléctrico, electricidade, espectador, exactamente, exacto, factor, factura, impacto, incorrecto, infractor, inspector, pactuar, protector, respectivo, sector e transacção irão passar para ação, acionar, acionista, ata, atividade, ativista, ativo, ato, ator, atuar, atualização, atualmente, atuar, aspeto, atração, batista, batizado, caraterístico, coletivo, correto, detetar, diretamente, direto, diretor, efetivo, efetuar, elétrico, eletricidade, espetador, exatamente, exato, fator, fatura, impato, incorreto, infrator, inspetor, patuar, protetor, respetivo, setor e transação.
Há umas tantas palavras que me chocam sobremaneira e que, ao não respeitarem nem a etimologia nem a pronúncia, não só surgem aparentemente como incorrectas como irão causar problemas ortográficos na escrita de quem aprende línguas estrangeiras como o inglês e o francês. Se é verdade que director e diretor se podem ler da mesma forma, há algo cultural a faltar na segunda forma - algo que nem o francês nem o inglês abandonaram. Por que razão haveríamos nós de o fazer? Entretanto, para não-europeus esse substrato cultural pode contar menos do que para os europeus. Terão eventualmente uma visão mais pragmática, mais desapegada da etimologia. Tudo bem. Já hoje no Brasil se escreve atividade, por exemplo. Que os brasileiros continuem a fazê-lo, mas que não nos obriguem a segui-los.
Quanto à abolição de acentos, o que sucederá a palavras como polémica, económico, megalómano e quilómetros? No português falado no Brasil, a pronúncia destas palavras e de muitas outras faz-se com vogais fechadas. Daí que se escreva polêmico, econômico, megalômano e quilômetros. Qual será a solução? Se é abolido o acento, as palavras deixam de parecer esdrúxulas, como de facto são. Não se queira é mudar a pronúncia do português através da ortografia. Esta é que tem de acompanhar a oralidade tanto quanto possível, não o contrário.
Entretanto, tudo isto é cozinhado sem debate, num país que se intitula democrático! Foram os cidadãos de uma maneira geral e os professores em particular chamados a pronunciar-se? Não! O governo cala-se. Parece que só os livreiros é que se têm manifestado, e mansamente. Será que um caso destes, da nossa língua, serve apenas interesses comerciais? Muito mal vai o país se o governo oculta factos como este dos seus cidadãos!

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