3/18/2009

Já!!!!

A questão do curto, médio ou longo prazo não é, como todos sabemos, uma questão, mas pelo menos três. Pensar a curto prazo é coisa bem diferente do pensamento a médio prazo e ainda mais do pensar a longo prazo. Quando um pai educa um filho, tenta imaginá-lo a médio e a longo prazo. A educação irá em princípio conferir-lhe uma sustentabilidade que constituirá a sua base de sobrevivência na sociedade pela vida fora. Este é um pensamento estratégico, pelo que faz todo o sentido arredar o curto prazo dessas cogitações. É, além disso, uma acção nobre. Tal como existe nobreza no pelicano que, em caso de necessidade última, pode deixar as crias alimentar-se da carne do seu peito, os pais nobres de alma educam os filhos da melhor maneira que lhes é materialmente possível.
Esta visão a longo prazo revela também vistas largas, aquilo que em língua inglesa se denomina de far-sightedness. Pelo contrário, o conceito de "vistas curtas" não é considerado brilhante. E brilhante não é, certamente, mas a uma escala egoísta, de pensamento anti-social, mais da pessoa em si própria do que nos outros, pode ser altamente rentável. Os espertos usam muitas vezes o curto prazo, "o que está a dar"; os inteligentes perdem frequentemente essa oportunidade, preocupados que estão mais nas perspectivas de médio e longo prazo.
Sempre houve e haverá indivíduos espertos e indivíduos inteligentes. No meio, está o grosso da população, mais ou menos amorfa, conduzida ora por uns, ora por outros, mediante os resultados obtidos.
Se forem colocadas duas perguntas sobre os tempos que correm, nomeadamente se estamos numa era de certeza ou de incerteza, de paciência ou de impaciência, estou convicto de que a esmagadora maioria - se não a totalidade - dos inquiridos responderá “estamos em tempos de incerteza e de impaciência”. Tempos de "Já!!!!!" Não é raro que quando um subordinado pergunta ao seu chefe "Para quando pretende este trabalho?", obtenha como resposta "Para ontem!". Esta ideia de urgência e de curtíssimo prazo espelha falta de planeamento e de organização. Sofremos muito com isso hoje em dia. Daqui resultam erros que têm tanto de evitáveis como de gravosos.
Esteve há dias em Portugal Ram Charan, um reputado guru indiano que veio falar a uma plateia constituída pelos nossos mais influentes CEOs. Baseando-me em reportagens que li na imprensa, direi "ainda bem que veio!" Se as suas palavras vão ser seguidas ou não, ninguém sabe ainda. Elas fazem todo o sentido, porém. Não são exactamente uma novidade, mas é bom que alguém que conhece o mundo melhor do que o cidadão comum venha abordar de forma sui generis a questão empresarial, que tem muito a ver com todo o resto.
Para gestores, ele falou, entre outras coisas, do curto, do médio e do longo prazo. No meu exemplo acima - dos pais relativamente à educação dos filhos -, atrevo-me a pensar, com naturais ressalvas, na família como empresa. Num exemplo concreto: se uma empresa vê que não tem mercado para os seus produtos, é lógico que suspenda temporariamente o seu fabrico para não ir à falência. Poderá eventualmente encontrar vias alternativas. Na família moderna, preocupada com a promoção social futura dos seus filhos, a preocupação em limitar o número de filhos apenas a um ou dois tem igualmente, por parte dos pais, a ver com o espírito empresarial de não aumentar a produção desmedidamente. Para quê? Para sobrevivência da família e para promoção social dos filhos, que são o prolongamento natural da família. E numa empresa real, deve atender-se à sociedade no seu todo ou mais aos "pais" da empresa, os accionistas? Mais especificamente: deve atender-se à situação da sustentabilidade e continuidade da empresa - e consequente continuidade dos trabalhadores -, ou pensar primordialmente nos lucros dos accionistas?
Esta é mais uma questão que tem a ver com o "Já!!" Now! Right now! A crise que deflagrou em 2007 e se agudizou em 2008, prosseguindo ainda no corrente ano, oferece-nos um panorama muito interessante, com larga margem para reflexão. Uma empresa que tem lucros, tanto pode reinvestir a parte mais substancial desses lucros como distribuí-los. Se antigamente havia a tendência para distribuir apenas uma parte pequena dos lucros a fim de formar uma almofada de segurança maior para a sustentabilidade da empresa, nos anos que precederam o rebentar da crise a distribuição de dinheiros das firmas pelos administradores e, no fundo, pelos maiores accionistas, atingiu níveis muito elevados. Ora, reflictamos: se eu sou accionista, a empresa é minha na devida proporção das minhas acções. Tal como The Economist lembrou num dos seus últimos números, se eu levantar dinheiro da minha conta através do Multibanco não é por isso que fico mais rico. O mesmo se passa com os dinheiros da empresa. Se os dinheiros dos lucros empresariais são em grande parte levantados, ocorre, relativamente a uma optimização do capital da empresa, uma descapitalização. Ou, se pretendermos, uma diminuição do volume da tal almofada que poderia amortecer uma queda empresarial, sempre possível. Por que razão se mostrarão os administradores, gestores e grandes accionistas de uma maneira geral tão ávidos pela distribuição do dinheiro? Por causa do "Já!!". Antes que seja tarde! Por causa da incerteza - nos seus bolsos o dinheiro estará certo, nos cofres da empresa nunca se sabe. E por causa da impaciência: a vida é para viver. Usando a conhecida frase de John Maynard Keynes: "a longo prazo estaremos todos mortos".
Ora, em que medida pode este comportamento ser anti-social? Na exacta medida em que, se existirem problemas, os mais ricos estarão a coberto deles, com o dinheiro já no bolso, enquanto os trabalhadores podem ser alvo de despedimentos - o que não é nada raro -, com todos os imensos problemas que esses despedimentos acarretam para as famílias. Ficarão parcialmente a cargo do Estado através do fundo de desemprego. Por seu lado, numa situação como a actual, a empresa pode ver-se compelida a pedir a intervenção estatal, i.e. através do dinheiro dos contribuintes, o que sucederia em menor escala se aquele lauto bodo não tivesse ocorrido.
Depois, resta aos gestores organizar conferências sobre "o papel social das empresas". Fica bem, será politicamente correcto, não tem é rigorosamente nada a ver com o seu comportamento factual.
Neste sentido, pedem-se medidas correctivas e regulatórias, a bem do erário público e duma maior justiça social. E maior transparência nas contas, pessoais e empresariais, para que não sejam os contribuintes a financiar os egoístas evasores. Punições céleres para estes. Já!! A crise de valores passa por aqui.
É o "Já!" que faz com que se escolha uma árvore de crescimento rápido como o eucalipto em vez do tradicional pinheiro. É o "já" que faz com que a sustentabilidade do ambiente seja muitas vezes uma pura fachada para defender valores que, de repente, cessam para dar lugar a um empreendimento turístico irrecusável - para classes mais abastadas, possivelmente para os anti-sociais accionistas das tais empresas. O Ministério do Ambiente foi em princípio criado para teoricamente contrariar a insustentabilidade do "Já!". Infelizmente, existe uma expressão próxima - o “Já agora! - que ocasionalmente consegue comprar o ambiente (em Portugal, basta que a um projecto seja aposta a classificação de Projecto de Interesse Nacional - PIN). Introduzem-se dificuldades na lei, mas criam-se facilidades na prática para alguns - a corroborar a conhecida máxima que nos diz que "a burocracia é a arte de criar dificuldades para depois vender facilidades". Mais uma para o enorme saco da crise de valores. A pedir verdade e transparência. Já!!

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