9/02/2005

Uma letra pode mudar muita coisa

Há uns dez anos, pensei que seria interessante verificar quais eram as fichas que me tinham cabido em sorte na antiga PIDE. Como todo e qualquer cidadão português com mais de 50 anos tem fortes razões para fazer, desloquei-me à Torre do Tombo. Uns meses depois, informaram-me que tinha os documentos à minha disposição para consulta. Tive acesso a 13 fichas, das quais pedi fotocópia. (Existia ainda um boletim com mais informações, mas esse, como me disseram, só por alturas de 2025 estará disponível.) Desta história interessa-me realçar a frase dactilografada numa das fichas por um arguto agente, que indagou a determinada altura junto de pessoas que tinham sido minhas vizinhas sobre a natureza do meu comportamento. Em face das respostas que obteve, escreveu no seu relatório: "Tem bom comportamento mural."
A ortografia da frase, brilhante, levou-me não só a pensar na iliteracia de muitas das pessoas que nos podiam muito bem tramar a vida, mas também na diferença que existe entre "mural" e "moral". De uma penada, o agente tinha informado os seus superiores que eu não costumava escrever nos muros citadinos. Decerto que eles entenderam de maneira diferente, até porque a frase era uma das consideradas de chapa.
Uma simples letra pode, como neste caso, alterar significativamente o significado das coisas. Pode ser interessante praticar este jogo durante uns dois ou três minutos. Aqui vos deixo alguns exemplos.
Já repararam como o "elefante", através de uma simples alteração do "f" pelo "g", fica "elegante"? Já notaram a acentuada diferença que existe entre a masculinidade do "rio" e a feminilidade da "ria"? Já imaginaram um porto como uma porta? Alguma vez associaram o sol ao sal e ao sul? O que é que o raio terá a ver com a raia? Em que medida pode uma escolha constituir um escolho? O que é que o sino tem a ver com a nossa sina? Será que quem paga sisa mostra pouco siso? Será que a morte, que sabemos ser forte, tem bom porte, vem do norte e, a certa altura, nos faz a corte? Porque tenta a tonta tinta levar-nos a escrever mais? Porque é que os putos são bem-vindos na escola e as putas não? Porque é que um jogador cheio de gula faz gala em marcar um golo para depois cantar de galo?
O jogo é infindo. Quem continua um pouco mais?

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